“A minha música é feita de instinto”

A última vez que Tiago Bettencourt rapou o cabelo foi na Madeira, algo que nunca mais fez

22 Abr 2017 / 02:00 H.

Deu a conhecer a sua voz nos Toranja e prosseguiu mais tarde a sua carreira a solo, estando prestes a lançar o seu novo trabalho discográfico. Tiago Bettencourt é um dos artistas presentes nas festividades da ‘Rota do Açúcar’, evento que decorre até amanhã no concelho da Calheta.

O compositor actua hoje à noite na Praça do Açúcar, junto à praia de areia dourada, adocicando os presentes com um concerto que marca o seu regresso a uma ilha que já percorreu e o deixou “maravilhado”.

Que recordações guarda da ilha da Madeira? A minha primeira viagem à Madeira foi numas férias de Verão com amigos. Ainda éramos adolescentes e combinámos rapar o cabelo, coisa que eu nunca tinha feito e não faço desde essa viagem. Lembro-me de nessa mesma viagem uma prima minha madeirense me ter levado a passear pela ilha e eu ter ficado maravilhado. Entretanto já voltei várias vezes. O concerto na Praia da Calheta há uns anos atrás deixou muito boas recordações também.

Como é ser artista musical em Portugal? Difícil, principalmente quando o grande público exige cada vez menos qualidade na música que ouve. Existem artistas muito bons em Portugal a fazer boa música e a tentar levar a música portuguesa um passo à frente. Falta, no entanto, reconhecimento, espaço e abertura da parte do público para ouvir coisas novas e deixar de validar toda uma classe de artistas que fazem o que já se fez há vinte anos atrás e outros que copiam e plagiam fórmulas pré-existentes, como quem vende bananas. Sinto que o grande público, e com isto refiro-me a quem não procura música, está muito fechado à música que lhes chega através de telenovelas, rádios generalistas ou programas de ‘novos talentos’, que não são mais que programas de karaoke. Foi agoniante ver um festival da canção onde o público votou não nas canções mas nos vocalistas, que já conheciam de programas de televisão. O magnífico Salvador Sobral foi a excepção e ainda bem que lá estava para salvar o dia. O que acontece é que cada vez mais todos os meios de comunicação estão presos à luta pelas audiências e vão tornando os seus conteúdos mais vazios e básicos, porque sabem que arriscar qualquer coisa com qualidade pode significar a derrota numa noite. A preocupação é cada vez mais o entretenimento puro e duro, custe o que custar, e cada vez menos a qualidade no conteúdo.

Cria ou recria histórias com os seus temas? Trata-se de talento? Acho que todas as minhas canções têm um pouco de verdade e outro tanto de ficção. Claro que há excepções em que imagino determinado cenário e escrevo sobre isso. Quanto ao talento, acho que sem trabalho é estático. O trabalho é a via através da qual o talento se desenvolve e chega ao público.

Pode falar um pouco sobre o seu novo trabalho discográfico? O álbum ainda está a acabar de ser gravado. Não existe ainda data de lançamento mas suponho que vá acontecer só depois do verão. Até lá, mais singles devem sair. É um álbum diferente com uma componente electrónica muito forte e os sintetizadores a terem um papel muito importante, no entanto, está também presente um lado minimal e cru.

Há vida para além da música ou a música é um estilo de vida? Acho que os dois se fundem. A minha música é feita de instinto e existe como fruto de tudo o que vou aprendendo e absorvendo na minha vida. Falo de relações humanas, de actualidade, cinema, teatro ou músicas de outros artistas. Se eu vivesse fechado num quarto, de certeza que a minha música ia ser muito diferente do que é, não pior ou melhor, apenas diferente.

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