A Igreja Católica não combate a pedofilia

Entrevista a Emiliano Fittipaldi, jornalista e escritor

13 Out 2017 / 02:00 H.

O Papa Francisco tem falado muito sobre a luta contra a pedofilia dentro da Igreja Católica, mas na realidadade pouco ou nada tem sido feito. Quem o diz é Emiliano Fittipaldi, jornalista italiano que, nos últimos dois anos publicou dois livros que expõem os pecados capitais da Santa Sé.

Em Novembro de 2015, o jornalista lançou ‘Avareza’, um livro onde expunha a corrupção, má gestão e despesismo do Vaticano e da Igreja Católica. À custa dessa obra, Fittipaldi foi sujeito a uma investigação por parte da gendarmeria do Vaticano e julgado no tribunal local por publicar documentos reservados da Santa Sé. Mas isso não o demoveu. Este ano,depois de investigar os inquéritos judiciais em curso por abusos sexuais e pedofilia cometidos por membros da Igreja, publicou ‘Luxúria’, livro que esteve ontem a apresentar em Lisboa.

Em entrevista ao DIÁRIO, Emiliano Fittipaldi falou sobre ‘Luxúria’. Crítico da forma como a Igreja Católica continua a optar por esconder os seus ‘pecados’, Fittipaldi não tem papas na língua e afirma que a luta contra a pedofilia não é uma prioridade para o Pontificado de Francisco.

Como é que foi escrever ‘Luxúria’ depois de tantos problemas que o primeiro [‘Avareza’] lhe causou?

Foi o primeiro livro que me permitiu escrever este segundo, porque quando o Vaticano me levou a julgamento, tive a possibilidade de passar seis meses no Vaticano nas sessões do meu julgamento e nessa altura houve muitas pessoas, muitas fontes de lá que me contactaram e que me disseram: “tu fizeste um livro sobre os escândalos financeiras, mas o que acontece do ponto de vista da pedofilia é muito mais grave”. Tive acesso a uma série de informações reservadas e paradoxalmente graças ao julgamento.

Este é um livro que faz o leitor abrir os olhos para o problema da pedofilia dentro da Igreja?

Sim, este é um livro que permite sobretudo abrir os olhos para o facto de que, ainda hoje em dia, a Igreja Católica não combate a pedofilia. O Papa Francisco declarou várias vezes que a pedofilia é um mal absoluto, como as missas negras, mas acabou por promover dentro da hierarquia do Vaticano, três cardeais que ocultaram padres pedófilos. Não houve qualquer transparência nos julgamentos que a Congregação Doutrinária da Fé fez aos pedófilos, ainda há milhares, e sobretudo não empreendeu acções específicas sobre esta grave doença da Igreja.

Então quando o Papa Francisco fala da luta contra a Pedofilia, mas não faz realmente nada por isso, essa luta deixa de ser uma prioridade dentro da Igreja Católica?

Para ele não é uma prioridade. Não é uma prioridade do seu pontificado. As suas prioridades são outras e sobretudo ao nível pastoral, ou seja, a de fazer uma recuperação da relação com os fiéis e, ainda o aspecto ecuménico, do diálogo com as outras religiões e disso é exemplo o encontro com Kirill [patriarca da Igreja Ortodoxa Russa] em Cuba. Desse ponto de vista, o Papa Francisco pode mesmo ser visto como revolucionária. Pelo contrário, do ponto de vista das reformas de âmbito financeiro e da luta contra a pedofilia, ele está a fazer pouco ou nada.

Então nada mudou no Vaticano desde a entrada do Papa Francisco?

Não, nada mudou. São muitas palavras, muito trabalho ao nível de imagem, mas poucas atitudes. Por exemplo, a Comissão Anti-Pedofilia anunciada por Papa Francisco e sobre a qual se falou no mundo inteiro, em quatro anos, esta comissão reuniu-se 6 ou 7 vezes e a única coisa que conseguiu implementar foi uma jornada de oração pelas vítimas. A Cúria Romana não deu qualquer tipo de formação a esta comissão e não tem qualquer poder de investigação e as duas únicas vítimas que foram chamadas para serem ouvidas, no final saíram muito revoltadas com tudo e afirmando que esta comissão era apenas uma ferramenta de propaganda.

Como é que se admite que a Igreja Católica, com tudo aquilo que advoga, tenha esta atitude de esconder e mascarar um problema tão grave como a pedofilia?

A Igreja tem medo de ser realmente transparente, sobretudo em países como Itália, Portugal, Espanha, países latinos onde nunca eclodiu um verdadeiro escândalo de pedofilia. Mas os padres latinos não são melhores do que os anglo-saxónicos, mesmo de um ponto de vista estatístico isso seria impossível. O problema é que por vezes há escândalos e seria muito melhor para a Igreja pedir perdão e ter uma transparência total, em vez de esconder os escândalos. Porque ao esconder e conter os escândalos, o risco que se corre é que os fiéis acabem por se afastar cada vez mais da Igreja como instituição.

Até porque nos últimos anos houve vários escândalos relacionados com a pedofilia na Igreja. O caso Spotlight foi um desses. Hoje em dia as pessoas têm menos medo de denunciar os abusos. Isso devia ser suficiente para haver mais transparência...

Sim, na realidade o caso Spotlight permitiu que acontecessem algumas coisas. Com certeza aumentaram as penas contra os pedófilos, tendo em conta que até há bem pouco tempo a pedofilia nem era considerada um crime penal, mas apenas um crime contra a Religião. Mas ainda não é suficiente. O que seria importante era abrir os cofres da Congregação da Doutrina da Fé, onde estão todos os papéis e documentação ligados a situações que ocorreram no passado e que acontecem ainda hoje em dia, porque as vítimas têm direito a serem ouvidas não só nos tribunais da Igreja, mas também nos tribunais civis. É preciso instituir uma distância relativa entre os pedófilos e as crianças, para que não surjam outras e mais vítimas e não se destruam mais vidas.

Podemos dizer que estes dois livros servem para mostrar que o Vaticano e a Igreja Católica não são assim tão puros como gostam de mostrar?

Os meus livros são livros jornalísticos e nesse sentido há sempre um trabalho em medir a distância entre a propaganda do poder e os factos. Sou um jornalista de investigação e neste meu trabalho tenho chegado à conclusão que os factos são muito diferentes do que aquilo que a Igreja Católica conta. Em particular com este Papa, que faz apelos muito importantes e isso pode ser visto como o aspecto revolucionário do seu Pontificado. Mas relativamente aos temas financeiros que abordei em ‘Avareza’ e os temas dos abusos sexuais que falo em ‘Luxúria’, o Papa Francisco falou muito mais, do que efectivamente concretizou.

Acredita que ‘Luxúria’ pode trazer alguma mudança na forma como a sociedade em geral encara a problemática da pedofilia no interior da Igreja Católica?

Os trabalhos jornalísticos devem servir exactamente para isso, para tentar informar as pessoas e tentar fazer com que a Igreja sofra realmente uma mudança. Por exemplo, depois da publicação de ‘Luxúria’ em Itália, o Papa Francisco expulsou um padre pedófilo que anteriormente tinha salvo de alguma forma. Esse é um pequeno sucesso e que demonstra que, por vezes, o bom jornalismo pode realmente ter um impacto na realidade. Obviamente, daqui ao ponto de um livro modificar totalmente a postura da Igreja Católica em relação à falta de transparência no que concerne à pedofilia, é muito difícil. Também o que aconteceu com o Cardeal George Pell, de que denuncio diversas situações desde há três anos, o Papa Francisco sempre o defendeu e dizia que estavam a criar mentiras sobre ele. Mas o cardeal acabou por ser incriminado e suspenso do cargo que ocupava: primeiro perfeito da secretaria de Economia do Vaticano por causa de um julgamento de um caso de pedofilia na Austrália. Espero que, da próxima vez, o Papa Francisco leia mais os jornais antes de nomear pessoas para cargos tão importantes e como seus braços direitos.

Há outros livros a serem preparados ou pensados?

Estou a escrever um livro para explicar as verdadeiras razões pelas quais Bento XVI abandonou o Pontificado, e há outros. Mas neste momento, o importante é encontrar fontes que ainda queiram falar. Não é muito fácil depois de publicar estes dois livros.

Jornalista premiado em Itália

Emiliano Fittipaldi nasceu em Nápoles, em 1974. É jornalista do L’Espresso e colaborou também com o Corriere della Sera e com o Mattino. Recebeu, pelo seu trabalho de investigação, os prémios Ischia, Gaspare Barbiellini Amidei e Sodalitas. Escreveu Così ci uccidono (Rizzoli, 2010) e foi coautor, com Dario Di Vico, do título Profondo Italia (Rizzoli, 2004).

Em Portugal, publicou ‘Avareza – Os documentos que expõem a riqueza, os escândalos e os segredos da Igreja do Papa Francisco’. Devido à investigação que realizou para este livro, foi julgado por publicar documentos reservados à Santa Sé, sendo ilibado das acusações pelo Tribunal do Vaticano. ‘Luxúria’ é a sua obra mais recente. Nesta nova investigação, Fittipaldi procura descobrir se a batalha iniciada pelo Papa Bento XVI contra a pedofilia, e a que Francisco deu seguimento, continua a avançar, ou se as promessas feitas se ficaram pelo papel.

Numa investigação explosiva que o leva da Austrália ao México, da Espanha ao Chile e Itália, Emiliano Fittipaldi revela, nesta sua nova obra, documentos sobre elementos do Vaticano que violam o sexto mandamento. A investigação que agora apresenta em livro, tem dados que permitem uma avaliação ética a uma série de comportamentos dos princípios da Igreja preconizados pelo cardeal Pell, mas também por outros, tentando esconder os actos dos padres pedófilos.

George Pell foi nomeado cardeal pelo papa João Paulo II em 2003 e há três anos foi escolhido pelo papa Francisco para a secretaria de Economia da Santa Sé. O cardeal australiano, formalmente acusado a 29 de junho, é apenas um dos casos referidos no livro “Luxúria”.

Todos os anos são inúmeras as queixas de crimes contra membros da Igreja, mas até agora ninguém tinha esboçado um retrato tão chocante e completo dos casos e inquéritos judiciais em curso.

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