“A floresta tem de ser um negócio

Gerente da florasanto entende que os governos devem deixar o mercado

20 Jun 2017 / 02:00 H.

Sempre que há incêndios, renasce a esperança de uma floresta melhor, pensada e vigiada, para que possa ser geradora de riqueza. Ontem o especialista em engenharia do ambiente, João Joanaz de Melo, admitia que embora haja correcções a fazer no combate aos incêndios, importa apostar no ordenamento.

As situações estruturais que têm de ser enfrentadas implicam, na sua óptica, “uma política florestal a sério”, que entre outros aspectos não permita haver muitas casas dentro da mata, assim como a existência de uma área de “monocultura muito extensa, sem qualquer tipo de ordenamento florestal, corta fogos ou acessos”. “O que se tem feito até agora tem sido pouco e tarde”, criticou, admitindo que, algumas medidas têm avançado, mas “com pouco apoio e de forma pouco estratégica”, como a constituição de sapadores florestais ou de associações de produtores florestais.

No rescaldo dos incêndios de Pedrógão Grande, um arquitecto paisagista também referiu que aquilo a que na maior parte das vezes se chama “imprevisibilidade” em matéria de fogos “é, na verdade, ignorância”. Não será que tamanha percepção também se aplica à florestação?

Esta e outras perguntas foram feitas ao gerente da Florasanto, empresa com responsabilidades na reflorestação da Madeira e do Porto Santo, bem como na manutenção de jardins e de zonas verdes. João Martinho de Gouveia respondeu por escrito, num caso em bloco a várias interrogações.

Entende que Portugal, e a Região em particular, fazem do investimento na floresta uma prioridade?

Infelizmente o investimento na floresta é visto muitas vezes como um “custo” e não como um proveito em benefício de todos e em muitos casos o regulador (Estado) “nem investe nem deixa investir” tal é a burocracia em torno de tudo o que derive da floresta.

Em que medida as empresas como a vossa, que operam na área da natureza podem gerar equilíbrios e ser instrumentos na atitude preventiva, dada a falta de uma política florestal correcta, de ordenamento, limpeza e vigilância das matas?

Pelo menos até à data penso que é clara a falta de capacidade das entidades públicas em assegurarem a gestão equilibrada das florestas. Os governos e respectivos parlamentos devem legislar, regulamentar e deixar o mercado funcionar. Nenhuma empresa ou empresário se vai dedicar a um negócio que não seja rentável, e muitas vezes gerar lucro e criar mais valia económica é visto com olhares suspeitos e quase “criminosos”.

A floresta tem de ser um negócio rentável, gerador de emprego e sustentável, como acontece com todos os outros.

Por estes dias ouvem-se muitas vozes a apelar para a necessidade de alterar as características da floresta portuguesa. Na Madeira também é necessário fazer esse trabalho? Com maior envolvimento dos privados? E que importa plantar na Madeira? Que leitura faz da reflorestação na Região após os incêndios de Agosto passado? Que dizer do facto de sempre que há incêndios surgirem alusões aos lobbies poderosos e aos negócios à volta do fogo. Como é que uma empresa como a Florasanto, enquadra este fenómeno ou analisa este tipo de apreciação? Há ou não falta de autoridade do Estado, do governo central às autarquias, às forças policiais que potencia incêndios, já que permite a existência de terrenos abandonados ou que se dê foguetes em dias com condições climatéricas adversas? Há legislação suficiente? E como contrariar o fim da agricultura que garantia ordenamento e equilíbrio naturais?

Relativamente a todas estas questões penso que deverão ser colocadas a quem de direito, governos, parlamentos e autarquias locais. Enquanto empresário florestal entendo e defendo que numa região como a Madeira em que 2/3 da área é floresta, a gestão e o investimento florestal (público ou privado) deve ser olhado como algo gerador de emprego e potenciador de negócio para as empresas e populações das zonas mais rurais, conseguindo desta forma uma saudável e proveitosa interacção das mesmas no meio florestal e natural.

Em relação aos incêndios podemos considerar que são um enorme inimigo do valor económico dos produtos florestais. A madeira ardida não tem qualquer utilização geradora de mais valia económica e como tal esses prejuízos são reflectidos nas empresas de exploração florestal.

A prevenção nesta área é de longe a melhor forma de minimizar os impactos negativos destes fenómenos quer na economia quer na natureza. Correr atras do prejuízo é sempre mais caro!

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