‘À boleia’ por um mundo melhor

Frida, a viajante sem um tostão

28 Dez 2017 / 02:00 H.

Quando ler este artigo é provável que a nossa audaz entrevistada já tenha ‘zarpado’ do bom porto madeirense. Frida Löfqvist tem 36 anos, é da Suécia e, desde Agosto, está a percorrer a Europa de barco, viajando à boleia e sem um tostão no bolso, para provar que o mundo não é um lugar tão mau como o pintam “os jornais”. Afinal, a boa vontade das pessoas não se extingue na quadra natalícia.

Frida, fale-nos sobre a sua aventura. Viajou da Suécia, a sua terra Natal, até à Madeira de barco. Como é que tudo aconteceu?

Cheguei à Madeira há pouco mais de uma semana (...) Nem sequer sabia que ia acabar na Madeira! [risos] Eu estava a planear viajar apenas ao longo da costa da Suécia, mas no segundo dia da minha viagem apanhei ‘boleia’ para a Finlândia e assim continuei.

Então, tem andado a viajar à boleia. Em quantos lugares já esteve?

Sim, mas de barco. Já estive em cerca de 25 portos diferentes. Países foram oito: Suécia, Finlândia, Polónia, Alemanha, Holanda, França, Espanha, Portugal (...) E eu viajo sem dinheiro.

Como faz para sobreviver?

Eu peço comida, peço um lugar para ficar e peço boleia. Se houver mais alguma coisa de que precise peço-o também. E faço-o porque quero mostrar que é possível e que as pessoas são solidárias e têm um bom coração e querem ajudar as outras pessoas.

Acaba por depender da boa vontade de estranhos. É esse o propósito da sua viagem, mostrar que o mundo não é um lugar assim tão mau?

Sim! Há tantas notícias más no mundo hoje em dia. Os jornais só têm más notícias e isso leva as pessoas a pensar que os outros são todos maus, porque é a única coisa que ouvem. Eu quero mostrar que talvez no mundo aconteçam coisas más, mas que no fundo pessoas são naturalmente boas.

Obviamente gosta de viajar. Esta é a sua primeira experiência deste género ou já o tinha feito antes?

Já tinha viajado com a minha família quando era criança. Quando tinha 15 anos, também viajei mais ou menos sozinha. A minha mãe tinha amigos em França que conheciam alguém que me podia dar alojamento, então viajei sozinha e acabei por ficar hospedada com essa família (...) Mais tarde vivi um ano em França sozinha, mas desta vez é diferente. Eu nem sequer tinha planeado viajar para o estrangeiro!

De onde é que surgiu a ideia? O que é que transformou os seus planos de viajar pela costa em algo ‘maior’?

Simplesmente, aconteceu. Eu não faço planos ...

Não é difícil viajar dessa forma de barco, sem planos, sem dinheiro?

Não, viajar à boleia de barco tem sido tão fácil! De todas as vezes que pedi boleia levaram-me aonde eu pedi. Não peço a grandes barcos de carga, porque esses têm rotas e leis a que têm de obedecer, mas a pequenos iates privados e veleiros. Normalmente, dizem-me: “claro, onde queres ir?” E eu respondo “para qualquer sítios onde vocês forem, eu posso ficar” e é assim. É simples e recomendo. Apesar de viajar sem cartão de crédito e sem dinheiro, também nunca passei fome.

O que é que a sua família pensa disso? Não ficam preocupados?

A minha família apoia-me. Eles querem que faça aquilo que me faz feliz e acham fantástico que eu esteja a fazer isto. Como não quero preocupa-los mantenho o contacto, mas não com muita frequência. Acho que se ligar todos os dias e eventualmente não puder ligar, porque estou no mar durante uma semana ou por qualquer outra razão, aí eles irão ficar preocupados.

Como é que estão a correr as coisas aqui Madeira até agora? Está a gostar de cá estar e onde é que tem ficado alojada?

Eu gosto muito da Madeira. É calmo, é muito bonito, as pessoas são muito simpáticas e quero voltar cá outra vez, sem dúvida (...) Tenho ficado em lugares diferentes. Fico em casa de pessoas ou durmo na rua. Para mim, isto não é frio [risos] Todas as pessoas com quem falo mostram-se preocupadas, mas como estava a planear viajar na Suécia, um bom saco de cama é suficiente. É como acampar no Verão na Suécia!

O que é que segue?

Eu tenho um Mestrado em Ciências da Computação, mas nunca exerci a minha profissão, porque me apercebi que não é isso que quero fazer da minha vida, pelo menos para já. Também tenho formação náutica e, quando terminar esta viagem, gostava de trabalhar como marinheiro para obter milhas, para depois ser capaz de trabalhar como timoneiro ou comandante de pequenas embarcações. Essa é também uma das razões pelas quais optei por viajar de barco, para ter essa experiência de viajar em embarcações diferentes.

Há alguma mensagem que gostasse de deixar às pessoas?

A minha principal mensagem é que as pessoas são solidárias e querem ajudar os outros, não porque acham que vão receber ou beneficiar de alguma coisa em troca, mas apenas porque querem ajudar. Eu gosto de pensar que não se trata de uma troca, mas antes que alguém ajuda-me e eu depois vou ajudar outras pessoas. Se toda a gente ajudar os outros naquilo que pode, seja com comida ou dando-lhe trabalho, ou até mesmo com um simples sorriso ao cruzar-se com um estranho na rua, talvez o mundo se torne num lugar melhor, onde não tenhamos de desconfiar tanto uns dos outros.

Por outro lado, também gostava que as pessoas vissem que não têm de viver esta vida ‘padrão’. A sociedade dita que devemos estudar, arranjar um emprego, constituir família, assentar, ter uma casa e ir trabalhar todos os dias, mas as pessoas têm sonhos e deveriam pensar “o que é que eu quero mesmo fazer da minha vida?” e tentar concretizar nem que seja uma ‘versão mais pequena’ desses sonhos.

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