A boa vontade não chega no apoio à Alzheimer

Faltam os recursos económicos para criar uma unidade especializada em demência

21 Set 2017 / 02:00 H.

“Há dias uma utente foi internada cá com Alzheimer (...) uma filha dizia ‘eu esgotei as minhas capacidades como filha’”, conta a Irmã Superiora Geral da Casa de Saúde Câmara Pestana, gerida pela Congregação das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus. Acompanha pela psicóloga Rute Ferreira, Maria Celeste Martins expõe as dificuldades que as famílias encontram em cuidar destes doentes e a importância de dar uma resposta adequada às suas necessidades.

“Nós sabemos que as famílias têm muita dificuldade de cuidar esta patologia (...) muitas vezes não têm conhecimento sobre a doença e não têm recursos humanos para cuidar, porque são doentes com uma característica muito própria (...) eles estão, digamos, no seu mundo abstracto. São doentes que perdem o sentido do presente, deambulam muito, vivem no passado (...) são pessoas muito teimosas, rígidas, e tornam-se agressivos”, motivos pelos quais, segundo a Irmã Celeste, as famílias acabam por pedir ajuda.

A resposta, diz, “não é fácil”, porque o número de pedidos de internamento avolumam numa instituição com a lotação máxima de 350 camas (divididas em 10 unidades de internamento e 2 residências comunitárias de apoio moderado), cujo trabalho no âmbito das perturbações do foro psiquiátrico não se restringe às demências (grande grupo de doenças, nas quais se inclui a Alzheimer, que causam o declínio progressivo e irreversível das funções cerebrais, culminando na total perda de autonomia).

“Tentamos colocar-nos no lugar do familiar”

“Tentamos colocar-nos no lugar do familiar e do lado do utente. Vamos tentando dar alguma orientação e, sobretudo, alguma perspectiva de esperança que seja possível ao seu familiar ser atendido. Como é uma casa aberta tenta responder individualmente a cada caso, mas nem a todos os casos é possível responder da mesma forma, por falta de lugar”, admite a Irmã Superiora.

Maria Celeste Martins refere que muitas vezes as famílias procuram alternativas, nomeadamente em lares, mas estes não estão “bem preparados” para responder a estes casos. “Sei que há uma certa negação [em aceitar este tipo de utentes], pela falta de preparação e de cuidados. Estas pessoas precisam de ter um ambiente um bocadinho restrito, ou seja, a porta aberta não pode existir, porque são pessoas que se perdem com muita facilidade. Logo os lares, como instituições ‘de porta aberta’, não são o sítio mais adequado para eles”, acrescenta.

Criar uma unidade de demência

De acordo com a psicóloga Rute Ferreira, no final de 2016, foram diagnosticados 41 utentes com demência, com menos de 65 anos. A partir desta idade, o número de casos sobe para 63. A isto acresce que, em muitos casos, as demências podem advir da própria deterioração de outras patologias psiquiátricas já existentes motivadas pelo avançar da idade, pelo que é sempre difícil falar de números definitivos no que toca ao Alzheimer, embora este número tenda a crescer porque há uma população elevada em termos de psicogeriatria na Casa de Saúde Câmara Pestana.

Depois de entrarem na instituição os doentes recebem um atendimento individualizado, segundo a orientação médica e da enfermagem, mas dada a procura crescente deste apoio especializado por parte das famílias é necessário adaptar os recursos para dar uma resposta mais eficaz.

“Nós fizemos uma proposta para a criação de uma unidade das demências. Seria uma área específica, na área da clínica antiga [anexa ao estabelecimento]”, revela Rute Ferreira. Todavia, o projecto não avançou. O motivo? Falta de recursos económicos. A criação de uma nova unidade de apoio específico à demência implicaria a existência de uma equipa multidisciplinar (desde terapeutas ocupacionais, psicólogos, assistentes sociais e psiquiatras, mas os recursos financeiros da Congregação das Irmãs Hospitaleiras, provenientes essencialmente da diária de internamento, não permitem fazê-lo. “Não podemos criar um espaço novo com mesmos recursos humanos e não podemos aumentar os recursos humanos com a diária que nós temos”, sublinha a psicóloga.

“Desde 2008 que não há qualquer aumento das diárias”, reforça a Irmã Superiora e explica que a Congregação tem “trabalhado e insistido junto do Secretário da Saúde, do Secretário das Finanças no sentido de aumentar as diárias”, para fazer face aos custos de gestão da casa (alimentação medicamentos, electricidade) e, sobretudo, dos recursos humanos. A boa vontade da instituição é visivelmente grande, mas como diz a Irmã Celeste “nestes casos a boa vontade não é suficiente”.