Médicos do SESARAM denunciam realidade inquietante na saúde

Caos, drama, vergonha e carência são algumas das palavras usadas

30 Abr 2016 / 02:00 H.

Caos, catastrófica, drama, saturados, vergonha e carência severa são apenas algumas das palavras e expressões, usadas no Conselho Médico do SESARAM, para caracterizar a realidade de vários serviços e situações, que vão desde a Urgência às altas problemáticas, passando pela falta de recursos humanos, materiais e técnicos. Um cenário inquietante que, por proposta dos médicos, foi levado ao conhecimento do presidente do Governo regional, através do envio da acta do encontro.


A proposta, aceite pela generalidade dos médicos presentes no encontro, foi para o envio da acta a Miguel Albuquerque e ao Conselho de Administração, presidido por Lígia Correia, deixando de fora o secretário da Saúde, mesmo que Faria Nunes também não tenha estado presente no encontro.


Aliás, um dos aspectos apontados no encontro foi o da necessidade imperiosa de diálogo e consenso entre a Direcção Clínica, o Conselho de Administração e o secretário da Saúde, para a resolução dos problemas e devida programação do sector. Um aspecto destacado por mais do que um médico, havendo mesmo quem se tenha referidos a ausência de linhas programáticas de médio e longo prazos.


Entretanto, depois do Conselho Médico, que aconteceu no dia 12 de Abril, as propostas e decisões dos médicos já foram transmitidas pela Direcção Clínica aos responsáveis pela saúde na Região e com eles trabalhadas, havendo já algumas decisões tomadas, em consequência desse trabalho.


Um dos pontos mais discutidos na reunião de 12 de Abril, foi a questão do controlo de assiduidade através meio biométrico. A maior parte dos médicos manifestou-se contra, mas alguns estiveram a favor, tendo as duas partes apresentado argumentos.


Quem se opõe ao controlo, como implementado pelo Conselho de Administração, disse, por exemplo, que o mesmo representará uma redução de produtividade de 30 a 40%; que, em determinada especialidade, não existem consultórios suficientes para todos os médicos e que não deve ser um Conselho de Administração sem qualquer médico a impor a medida, mas caber aos directores de serviço a definição de como o fazer e os horários a cumprir.


Quem concorda com o controlo biométrico lembrou que se trata de uma exigência legal, que é cumprida noutros hospitais sem perda de produtividade e sem complicações.


Na reunião, entretanto realizada com os responsáveis pelo sector da saúde, ficou decidido alterar as regras e fazer adaptações, que a Direcção Clínica vai apresentar aos directores de serviço, em nova reunião que deverá acontecer na semana de começa no dia 8 de Maio. Além disso, teve aceitação uma das reivindicações dos médicos, que é poderem, em algumas circunstâncias, fazer jornada contínua. Cabe à Direcção Clínica a responsabilidade de conceder esse regime, que, por sua vez, a delegará aos directores de serviço. Medidas que já foram comunicadas às chefias médicas.


Outra das reivindicações dos médicos é para que o pagamento de horas ‘extra’ seja a 100%, desde a primeira hora. A situação actual é bem diferente. Cada hora é paga com uma percentagem diferente e, se existem casos em que o médico acaba por ser bem pago, noutros um profissional altamente especializado pode, na prática, passar uma manhã a fazer cirurgias por cerca de cinco euros líquidos à hora. Uma situação considerada até imoral pela chefia médica.


Houve mesmo quem falasse em recursos humanos saturados e quem defendesse o estabelecimento de protocolos com outros hospitais para o envio de profissionais, em especial durante os períodos de férias. Isto depois de ser manifestada preocupação com a gravíssima falta de recursos humanos.


Falta de materiais e más aquisições

Um dos aspectos referidos por vários médicos na reunião, incluindo a Direcção Clínica, é o da existência de um notório subfinanciamento do sistema de saúde, que conduz a um mal-estar global no SESARAM, o que se manifesta em críticas frequentes e atritos vários.


Um dos reflexos do subfinanciamento, no entendimento de vários dos médicos presentes no encontro, ainda que não de todos, são as faltas de materiais e medicamentos e de manutenção de equipamentos, que podem pôr em causa vidas, ao que foi afirmado no encontro interno dos médicos.


Essas faltas foram referidas, por exemplo, por uma médica que não se coibiu em afirmar que podem trazer consequências graves à prestação do serviço, que lida com doentes mais novos.


Outra médica usou termos parecidos. Falou em gravíssima falta de produtos e deu o exemplo de reagentes para determinados exames. O DIÁRIO conhece o caso de um médico que se queixou a uma doente de terem apagado do sistema informático o seu pedido para testes a fezes e a hepatites. Uma situação que já terá sido comunicada à Ordem dos Médicos, por, na eventualidade de haver casos de doenças graves, o médico não querer ser acusado de negligência. Pois fica sem prova do seu pedido.


Na mesma área, a dos laboratórios, outra médica falou em carência grave de material.


Uma das questões levantadas tem a ver com a aquisição de materiais, havendo vários médicos a discordar da compra pelo preço mais baixo, que, em alguns casos, faz com que os produtos não tenham a qualidade desejada. Alguns dos presentes disseram que essa é uma obrigação legal, apesar de haver alguma margem de decisão do profissional de saúde.


Mais preocupante foi a denúncia de uma médica que disse ser pressionada a adquirir os produtos de mais baixo preço, ainda que não homologados pelo Infarmed, recusando-se a compactuar com isso.

 

Caos das altas problemáticas deveria ser dos Assuntos Sociais

Era um dos pontos da agenda. As altas problemáticas, que estão a gerar o caos no SESARAM, na afirmação da chefia médica, foram um dos pontos debatidos. Uma situação que afecta muitos serviços, em especial, a Cirurgia e a Medicina Interna.


A este propósito, houve a manifestação da preocupação com a possibilidade da abertura de um espaço de Medicina Interna no Hospital Dr. Nélio Mendonça reduzir o número de camas da Cirurgia e, com isso, provocar uma quebra da produtividade.


Sobre as altas problemáticas, várias foram as opiniões que se manifestaram no sentido de dever ser a Segurança Social/Secretaria dos Assuntos Sociais a assumir o encargo das altas problemáticas e não a Secretaria da Saúde, através do SESARAM.


A este propósito, foram referidas as terríveis condições de internamento no Hospital dos Marmeleiros, tanto para os profissionais que lá trabalham, como para os doentes.


Sobre os Marmeleiros, foi recordado aos presentes no Conselho Médico do SESARAM, que existem relatórios que apontam para a falência arquitectónica do edifício, o que deveria ditar o encerramento daquela infra-estrutura, como, de resto, já aconteceu com o parque de estacionamento a Sul.

 

Urgência sujeita a erros muito graves

A Urgência do Hospital Dr. Nélio Mendonça foi um dos grandes temas da reunião, tendo mesmo sido constituída uma comissão para trabalhar o assunto.


Uma das opiniões mais contundentes foi de uma chefe de serviço, que considerou um vexame as condições em que os profissionais lá trabalham e alertou para o facto de poderem condicionar erros profissionais muito graves.


Outro médico, que já teve responsabilidades na direcção hospitalar, disse que as obras no Serviço de Urgência não deveriam ter parado e considerou que, neste momento, a situação é catastrófica.


Vários médicos referiram-se à sobrelotação do serviço e insistiram na necessidade de fazer com que muitas das pessoas que actualmente chegam à Urgência do Hospital, sejam vistas e triadas nos centros de saúde. Houve mesmo uma médica a afirmar que existe um hospital a servir a Urgência, em vez de ao contrário.


Para tentar resolver a falta de pessoal médico no serviço, além da reivindicação dos pagamento das hora ‘extra’ a 100%, desde a primeira hora, foi decidido criar uma comissão, com profissionais de vários serviços e liderada por Pedro Ramos, para, no prazo de 30 dias, apresentar soluções para resolver os problemas do Serviço de Urgência.

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