Espião madeirense ajudou nazis

Gastão de Freitas Ferraz foi detido no atlântico, numa operação dos britânicos

05 Mar 2009 / 10:36 H.

    A história de Gastão Crawford de Freitas Ferraz, um radiotelegrafista nascido no Funchal que trabalhou a bordo do navio 'Gil Eannes' durante a II Guerra Mundial, foi divulgada mundialmente anteontem, pelos Arquivos Nacionais do Reino Unido. No entanto, em Portugal, o caso foi dado a conhecer no final de 2008, no livro do jornalista Rui Araújo 'O Diário Secreto que Salazar Não Leu'.
    O referido marinheiro aproveitou-se da sua posição para transmitir informações à Alemanha nazi durante o conflito, especialmente sobre a posição da frota dos aliados no Atlântico. Aparentemente, não terá sido por simpatia ideológica que Gastão Ferraz aceitou colaborar com o regime de Hitler, mas antes por interesses materiais - recebia 15 contos por mês, uma pequena fortuna à época.
    A sua contribuição era de tal modo valiosa que, hoje, o historiador Christopher Andrew, da Universidade de Cambridge, não tem dúvidas em considerar que o seu ficheiro 'muda o entendimento da história britânica'. Porque tinham conhecimento do papel estratégico que Gastão Ferraz desempenhava, os serviços secretos britânicos tiveram a preocupação de lançar uma operação para sua captura no alto mar a 1 de Novembro de 1942, uma semana antes do grande desembarque das tropas britânicas e norte-americanas em Marrocos e na Argélia, a 8 de Novembro. Caso o espião não tivesse sido detido, a Alemanha seria avisada e o curso da história poderia ter sido outro.
    Os documentos agora desclassificados indicam que Gastão Ferraz foi levado pelo navio britânico 'HMS Duke of York' para Gibraltar e depois para o Reino Unido, onde foi interrogado. Em 1945 foi deportado para Portugal.
    Ficheiro secreto de espião nazi português divulgado pelos Arquivos Nacionais britânicos


    Ficheiros secretos britânicos divulgados recentemente mostram como um espião nazi português foi apanhado no alto mar antes de conseguir avisar a Alemanha que uma frota aliada se preparava para invadir o Norte de África. Trata-se de um episódio pouco conhecido que mudou o curso da Segunda Guerra Mundial e que envolve Gastão de Freitas Ferraz, o operador de rádio de navio hospital de apoio à pesca de bacalhau, que secretamente informava os alemães sobre o movimento de navios aliados no Atlântico Norte. A história da sua captura, uma semana antes da invasão por tropas norte-americanas e britânicas, está incluída em documentos dos serviços de segurança do MI5 agora divulgados pelos Arquivos Nacionais do Reino Unido.
    O historiador Christopher Andrew, da Universidade de Cambridge, considerou que o ficheiro 'muda o entendimento da história britânica' e oferece informação nova dos serviços secretos do país na luta contra os nazis.
    A 8 de Novembro de 1942, tropas britânicas e norte-americanas sob o comando do general Dwight D. Eisenhower desembarcaram em Marrocos e na Argélia, que estavam ocupados por tropas da Alemanha e do regime francês pró-nazi de Vichy. As tropas francesas foram rapidamente dominadas, mas as alemãs, sob o comando do general Erwin Rommel, resistiram aos aliados. Após violentas batalhas no deserto que duraram até 1943, os alemães foram derrotados. Foi um momento de viragem na guerra que ajudou nos planos para a invasão do Dia D em 1944.
    Mas tudo podia ser diferente se Freitas Ferraz não tivesse sido capturado. Portugal era neutral durante a guerra, mas os ficheiros revelam que em 1942 os espiões britânicos começaram a suspeitar do 'comportamento anormal' de navios de pesca portugueses, incluindo de alguns com equipamento de comunicações elaborado.
    O navio de Freitas Ferraz, o Gil Eanes, 'navio mãe da Frota Branca', como era designado, foi alvo de buscas quando estava no porto de St. John, na Terra Nova, e o MI5 decidiu que o operador de rádio devia ser detido. Uma série de erros impediu que a detenção fosse feita rapidamente e o navio Gil Eanes partiu para Portugal, tendo os responsáveis britânicos tomado a decisão arriscada de o interceptar no alto mar. Freitas Ferraz foi detido num ataque ousado a meio do Atlântico por parte do navio britânico HMS Duke of York a 01 de Novembro de 1942 e levado primeiro para Gibraltar e depois para o Reino Unido para ser interrogado. O ficheiro do MI5 inclui um depoimento biográfico na primeira pessoa e a confissão. O português recebia 15.000 escudos por mês para informar os alemães do movimento das frotas aliadas e unidades aéreas. O ficheiro assinala que o seu trabalho lhe dava a 'cobertura perfeita'.
    Freitas Ferraz foi deportado para Portugal em 1945. Em 1953, o seu nome é incluído numa lista de deportados que deixavam de estar proibidos de se deslocar ao Reino Unido por razões de segurança. Em 1955, o seu ficheiro foi considerado encerrado.
    Caso de Gastão de Freitas Ferraz 'é do maior interesse' - José António Barreiros


    José António Barreiros manifestou-se terça-feira convicto que o caso do espião nazi português Gastão de Freitas Ferraz 'é do maior interesse' para avaliar o relacionamento das informações secretas alemãs com a frota pesqueira portuguesa. 'Os serviços de contra-espionagem britânicos, que estavam na Rua da Emenda, seguiam o recrutamento da frota pesqueira porque sabiam que os alemães infiltravam aí pessoal. Isso é seguro', contou o advogado, um estudioso de assuntos de espionagem da II Guerra Mundial, em declarações à agência Lusa. Ficheiros secretos britânicos divulgados recentemente mostram como Gastão de Freitas Ferraz foi apanhado em alto mar antes de conseguir avisar a Alemanha que uma frota aliada se preparara para invadir o Norte de África. Trata-se de um episódio pouco conhecido que mudou o curso da II Guerra Mundial e que envolve aquele operador de rádio do navio português Gil Eanes, que informava os alemães sobre o movimento de navios no Atlântico Norte, a troco de 15.000 escudos por mês. O historiado Christopher Andrew, da Universidade de Cambridge, considerou que o ficheiro 'muda o entendimento da história britânica' e oferece informação nova dos serviços secretos do país na luta contra os nazis. 'A autoridade do professor Andrew é suficiente para eu ter plena convicção que o dossier em causa tem o maior interesse para a avaliação do relacionamento das informações alemãs através da frota pesqueira portuguesa', acrescentou José António Barreiros. Questionado se o rumo dos acontecimentos poderia ter sido diferente se o espião português não tivesse sido detido, o advogado foi peremptório: 'Seguramente teria sido diferente e tinham-se preparado ofensivas'. 'Nunca se tinha percebido muito bem em que medida é que a rede de informações navais alemãs estava centrada nesse Gil Eanes. Pelos vistos agora fica demonstrado', acrescentou. Alguns pormenores deste caso já tinham sido revelados pelo jornalista Rui Araújo, durante a apresentação do livro 'O diário secreto que Salazar não leu', em Outubro do ano passado. 'Diplomatas, marinheiros e caixeiros-viajantes eram os alvos principais dos recrutadores. Contudo, revelaram-se muito desajeitados. Os ingleses davam por eles e forneciam listas de nomes a Salazar, que geralmente não fazia nada', contou na altura o jornalista. Mas, se não paravam com as suas acções, nalguns casos os ingleses intervinham. Foi o caso do radiotelegrafista do navio Gil Eanes, que fornecia informações aos alemães sobre os barcos aliados que avistava, tornando-os presas fáceis para os submarinos de Hitler. A Marinha inglesa apresou o Gil Eanes e, simplesmente, raptou o radiotelegrafista, levando-o para Londres. Mas tais factos nunca chegaram ao conhecimento do grande público, relatou na altura. O navio de Freitas Ferraz foi alvo de buscas quando estava no porto de St. John, na Terra Nova, e o MI5 decidiu que o operador de rádio devia ser detido. Uma série de erros impediu que a detenção fosse feita rapidamente e o navio partiu para Portugal, tendo os responsáveis britânicos tomado a decisão arriscada de o interceptar no alto mar. Freitas Ferraz foi detido num ataque ousado a meio do Atlântico por parte do navio britânico HMS Duke of York a 01 de Novembro de 1942 e levado primeiro para Gibraltar e depois para o Reino Unido para ser interrogado. O ficheiro do MI5 inclui um depoimento biográfico na primeira pessoa e a confissão. Freitas Ferraz foi deportado para Portugal em 1945. Em 1953, o seu nome é incluído numa lista de deportados que deixavam de estar proibidos de se deslocar ao Reino Unido por razões de segurança. Em 1955, o seu ficheiro é considerado encerrado.
    Navio onde foi detido espião nazi português era alemão mas fora 'aprisionado' por Portugal


    O navio onde em Novembro de 1942 foi detido um espião nazi português pertencia à Alemanha mas fora 'aprisionado' por Portugal, que o baptizou de Gil Eannes e o colocou ao serviço da Marinha de Guerra lusa. O espião nazi português Gastão de Freitas Ferraz foi apanhado no alto mar, a 01 de Novembro de 1942, pelas autoridades britânicas, antes de conseguir avisar a Alemanha que uma frota aliada se preparava para invadir o Norte de África. Freitas Ferraz era operador de rádio do navio-hospital Gil Eannes, que tinha sido construído em 1914 na Alemanha e que pertencia a este país, e cujo nome original era Lahneck. Devido à guerra, o Lahneck refugiou-se no estuário do Tejo, juntamente com outros navios alemães. Em 1916, e face à escassez de transportes marítimos, Portugal requisitou à Alemanha os referidos navios, um pedido que, no entanto, foi recusado. Perante essa recusa, Portugal decidiu 'aprisionar' todos os navios, incluindo o Lahneck, que passou denominar-se Gil Eannes e foi entregue à Marinha de Guerra. A Alemanha não gostou e declarou guerra a Portugal. Ao longo da sua vida, aquele navio serviu como unidade naval e mercante. Foi cruzador, transporte de tropas, navio de treino e esteve afecto ao serviço comercial. No entanto, a sua actividade mais importante foi como navio-hospital, de apoio à frota de pesca portuguesa, Marinha de Guerra e Sociedade Nacional dos Armadores do Bacalhau, operando nos pesqueiros da Terra Nova e Gronelândia. Terminada a campanha, regressava a Portugal com carregamentos de peixe para Lisboa ou Porto/Leixões. O Gil Eannes fez a sua última campanha em 1954, ano em que foi vendido para Itália, onde foi desmantelado para sucata, dois anos depois, no porto de Vado Ligure. Rei morto, rei posto, em 1955 foi lançado ao mar o novo - e genuíno - Gil Eannes, construído nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, que esteve ao serviço da frota bacalhoeira até 1973, prestando assistência médica a pescadores portugueses e de outros países, nomeadamente nos mares da Terra Nova. O Gil Eannes chegou a estar na iminência de ser desmantelado numa sucata de Alhos Vedros, mas personalidades e entidades de Viana do Castelo conseguiram salvá-lo, através de uma campanha que permitiu angariar os 250 mil euros necessários à sua compra. A 31 de Janeiro de 1998, o navio chegou a Viana do Castelo, começando desde logo a sua recuperação, primeiro ao nível do exterior, com a raspagem e a pintura do casco nos Estaleiros Navais daquela cidade. Foi depois instalado no seu local definitivo, na zona ribeirinha da cidade, onde funciona como museu, tendo já sido visitado por mais de 400 mil pessoas. Há seis anos, abriu no Gil Eannes a única pousada da juventude flutuante portuguesa. No 10.º aniversário da sua chegada a Viana do Castelo, foi inaugurada uma réplica da capela original do navio. Em Junho de 2008, o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, inaugurou o simulador de navegação marítima instalado no Gil Eannes, que permite que todos os visitantes se possam sentir 'comandantes' do navio.Miguel Fernandes Luís

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