Silvestre Pestana: 45 anos de carreira revisitados

'Povo Novo': a imagem que dá nome à sua exposição na Casa da Escrita.

05 Fev 2013 / 03:00 H.

Quatro décadas e meia de carreira do artista madeirense Silvestre Pestana (de 1968 a 2013) são abordadas na exposição 'Povo Novo Virtual', que será inaugurada a 8 de Fevereiro, na Casa da Escrita, em Coimbra, onde permanecerá patente ao público de segunda a sexta-feira, das 9h30 às 12h30 e das 14 às 18 horas, integrada no ciclo 'Escritas PO.EX.' (Poéticas Experimentais).

Este é, obviamente, um momento singularmente significativo no percurso deste criador, que falou ao DIÁRIO sobre a forma como se tem processado o mesmo, do Funchal à vivência no Porto.

"Esta mostra, na verdade, remete para um percurso que tenho vindo a fazer desde que saí da Madeira, em 1967", refere Silvestre Pestana. Nascido em 1949 no Funchal, passou a frequentar, na Escola Superior de Belas Artes do Porto, em 1967, o curso superior de Pintura. Fortemente influenciado pelo também madeirense António Aragão - que classifica como fundador do movimento português da poesia experimental (derivado do concretismo brasileiro) e que juntou à sua volta um grupo relacionado com o 'Comércio do Funchal', o famoso 'jornal cor-de-rosa' - Silvestre Pestana revelou-se em 1969 na poesia experimental em Hidra 2 - Colectânea da Poesia Concreta, com 'Atómico Acto'. Cedo conseguiu apresentar, também, numa colectiva dos artistas contemporâneos da década de 60, comissariada por José Augusto França, uma peça insuflável (já apresentada na Madeira, no Museu de Arte Contemporânea). "Essa peça é, de certa forma, paradigmática duma certa forma de entendimento da escultura contemporânea, e hoje está integrada na colecção do Museu de Serralves, no chamado minimalismo da escola abstracionista do Porto", diz o nosso interlocutor.

As ligações a nomes sonantes do visualismo português como Ana Hatherly, António Aragão, Salette Tavares, Ernesto Melo e Castro, António Barros, Liberto Cruz, Fernando Aguiar e Alberto Pimenta sucederam-se e fortificaram-se. Do abstracionismo às poesia experimental, Silvestre Pestana deixou-se interessar e absorver por "uma arte com uma grande dominância sociológica".

Seguiram-se vários anos a viver na Suécia. Posteriormente, em 1975, cria a performance e o vídeo 'Povo Novo', que classifica como uma manifestação do sincretismo, palavra de ordem tecnológica e científica da década. Como fornecer o máximo de informação, conectada com as realidades sociológicas, no mínimo de dimensão? Este era um problema que interessava muita gente, inclusive os artistas. Silvestre Pestana recorda a evolução dos órgãos de comunicação na época, a sinaléctica existente no espaço público. E é com este poema-imagem que participa na primeira representação portuguesa depois do 25 de Abril, na Bienal de São Paulo de 1977. "No Brasil é, ou foi, muito conhecido, porque era uma imagem suficientemente poderosa", recorda. Aí já estava contido o seu percurso seguinte, as performances, que "tinha aprendido na Suécia e na Inglaterra", e a instalação.

Em 1979, obtém uma bolsa para produção de uma exposição apresentada na Cooperativa Árvore, produzindo uma obra que considera paradigmática na altura, 'As Ilhas Desertas'. Entretanto realiza na De Montford University, em Leicester, Inglaterra, uma pós-graduação e um mestrado em Artes e Educação. É apenas um dos momentos de uma longa e preenchida trajectória, polvilhada de relações com o mundo das artes, quer na poesia visual, quer no teatro, quer na utilização de computadores para a expressão artística, quer na videoarte, onde a sua acção foi determinante, particularmente a partir dos anos 80. O próprio Silvestre Pestana considera importante no seu percurso a transição das artes tradicionais da pintura e da escultura para o design, artes gráficas e tecnologias. Arte, ciência e técnica, enfatiza, assumiram-se como os seus interesses, e entrecruzaram-se em diferentes manifestações. A ligação à organização da Bienal de Vila Nova de Cerveira foi outra das suas actividades fundamentais, desde o seu início. "Ao longo destes anos, fui um dos artistas que nunca esteve ausente das Bienais. Neste momento sou também director da Cooperativa Artística Projecto, e mantenho ainda um forte relacionamento com actividades de produção e divulgação artística", assume.

Um aspecto interessante que também confessa é o de ter uma forte tendência escultórica que, paralelamente, o leva a trabalhar com néons, tecnologia que tende a ser substituída por LEDs, mas que tem passado a ser fortemente requisitada no sentido artístico. E é de néons que é feita a sua peça artística 'Águas Vivas', considerada pelo colega artista madeirense António Barros, com 'Povo Novo' e 'Atómico Acto', um dos três pilares fundamentais da obra de Silvestre Pestana. Para Barros, 'Águas Vivas' assume-se como "um arquipélago de cinco peças fabricadas em néon linear e zarcão, e alimentada com electricidade contínua em alta tensão, numa evocação às águas-vivas que marcam, em Silvestre Pestana, também um imaginário madeirense.

Algo que o artista não enjeita: a ligação manteve-se sempre. "Um artista como eu sonha com as montanhas submersas da cordilheira atlântica", declara.
 

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