Resgate só depois dos votos

Madeirenses vão saber quanto devem a 9 de Outubro, mas não como vão pagar

22 Set 2011 / 02:00 H.

O plano de estabilização financeira para a Região Autónoma da Madeira só vai ser conhecido depois das eleições. A garantia foi dada ontem por fonte do gabinete do primeiro-ministro, que justificou a data com a condição de ser discutido com o "novo Governo eleito". A mesma fonte reiterou, contudo, que a auditoria às contas da Região vão ser conhecidas até ao final do mês. Ou seja, os madeirenses vão votar sabendo o que devem, mas desconhecendo por completo os sacrifícios com que a vão pagar, ao contrário do que aconteceu nas legislativas, em que o memorando com a 'troika' foi assinado por três partidos: PS, PSD e CDS:
Há uma semana, Pedro Passos Coelho afirmou na Assembleia da República que não só seria conhecida até ao final do mês a real situação económica da Madeira, como também o programa de ajustamento macroeconómico.

Passos volta atrás
O primeiro-ministro respondia a uma pergunta de Francisco Louçã assegurando não olhar para a Região com "olhos partidários".  Passos Coelho afiançou também que a ajuda do Estado à Região não é "um bónus, mas um ónus". E foi mais longe, dizendo que "o programa de ajustamento financeiro trará muitas dificuldades" aos madeirenses e aos Governo Regional "que terão de pagar" a dívida. Nessa altura, Passos Coelho disse que a "situação da Madeira não causava embaraço", em resposta a uma provocação do bloquista,  mas já esta semana, depois de conhecer a "dívida escondida" pelo executivo de Alberto João Jardim, admitiu, em entrevista à RTP, "um imenso desconforto" causado pela situação.

O DIÁRIO tentou ontem perceber qual a calendário previsto pelo Ministério das Finanças sobre esta matéria em termos de levantamento e também de divulgação de resultados, mas o gabinete de imprensa de Vítor Gaspar remeteu para as últimas declarações do ministro e revelou que a situação estava a ser gerida directamente pelo gabinete do primeiro-ministro.

A oposição madeirense está unida nesta questão. Da direita à esquerda, os partidos tem-se batido para que os sacrifícios sejam conhecidos antes das eleições, de forma a que o eleitorado esteja esclarecido sobre o futuro no momento da escolha.

Em paz com todos
Alberto João Jardim disse ontem  esta quarta-feira que não entrará em "atritos" com o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, pelo facto deste ter decidido não marcar presença na campanha eleitoral na Madeira.

"Se a comunicação social pensa que vai criar qualquer atrito entre mim e o primeiro-ministro está enganada, eu não entro nesse jogo porque compete-me também defender os interesses da República portuguesa", disse Jardim em declarações à Agência Lusa e à TVI.
Adiantou ainda que o mesmo princípio se aplicava a Cavaco Silva.

"Aplica-se ao senhor Presidente da República o mesmo que eu disse em relação ao primeiro-ministro, é escusado que não entro em polémicas públicas, nem com o Presidente da República, nem com o primeiro-ministro, o que eu tiver de lhes dizer, direi pessoalmente", adiantou.

Salientou ser seu hábito "não responder em público" quando confrontado se tinha ou não gostado de ouvir Pedro Passos Coelho dizer que não vinha à Madeira para "não caucionar" a política da Região: "Eu não tenho que dizer se gostei ou não, é cá comigo nem é meu hábito, nos últimos anos, entrar em conflito público com companheiros de partido, infelizmente no continente há pessoas que não têm tido essa ética para comigo".

As contas da Madeira vistas de Lisboa

Mário Soares preocupado com a Madeira
O O ex-Presidente da República Mário Soares  disse ontem, em Coimbra, que vê com "preocupação" o défice nas contas públicas  da Região Autónoma da Madeira.   "Vejo com preocupação, como é evidente", afirmou Mário Soares, quando  instado a comentar o 'buraco financeiro' nas contas da Madeira, mas escusando-se  a fazer mais considerações sobre o assunto.

Bastonário dos Toc diz que houve um roubo na Região
O bastonário da Ordem dos Técnicos Oficiais  de Contas (OTOC) disse ontem que "foi cometido um crime" na Madeira e questionou  porque "um gestor público não há-de ir preso" quando "comete um roubo".   Domingues de Azevedo afirmou, à Lusa, que o 'buraco'  nas contas da Madeira configura um conjunto de "atitudes perfeitamente contrárias  ao interesse dos cidadãos" e disse que gostaria de ver Alberto João Jardim  responsabilizar-se pelo que fez.  

Lisboa olha para cá como Alemanha para Lisboa
O Presidente da República "refugiou-se" num  "jargão incompreensível", quando devia ter deixado claro que é "o momento  de exigir responsabilidades" no caso do buraco da Madeira, afirmou à Lusa  o presidente da Associação Comercial do Porto, Rui Moreira.  
"Tenho muita pena que o senhor Presidente da República se refugie mais  uma vez numa jargão que eu não consigo compreender, porque esta é uma matéria  da República e o senhor Presidente da República tem que, nestas questões,  assumir a sua responsabilidade e dizer que este é o momento de se exigir  responsabilidades. Até porque -- como dizia Medina Carreira - todos estamos  a olhar para a Madeira como os alemães olham para nós", considerou Rui Moreira,  em declarações à margem do fórum da Plataforma Activa da Sociedade Civil,  a decorrer na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.  

Campos e Cunha  quer evitar  novos casos
O antigo ministro das Finanças Campos e Cunha  diz que é importante que o que aconteceu na Madeira não volte a acontecer  e que está nas mãos da Assembleia da República (AR) e do Governo impedi-lo.  O 'buraco' nas contas da Madeira corresponde a mais de um por cento  do Produto Interno Bruto (PIB), o que é "uma brutalidade para uma pequena  localidade, uma região autónoma com trezentos e tal mil [269 mil] habitantes.  Estamos a falar de muito dinheiro", declarou o economista.

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