Entrevista a Raimundo Quintal

O poder já não tem criatividade

28 Ago 2010 / 02:00 H.

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Com o 20 de Fevereiro e com os incêndios, o futuro da Madeira é cinzento a puxar para o negro. É com estas cores que Raimundo Quintal pinta a actualidade regional.
O geógrafo e ambientalista  aponta erros no combate aos fogos e na reconstrução, ao mesmo tempo que denuncia uma inércia  de "um poder de tantos anos que já não tem criatividade e já não é capaz de apontar saídas". Diz mesmo que este ano fecharam-se, com grande estrondo, duas portas: uma pela água e outra pelo fogo, sem que tivesse sido aberta qualquer janela de esperança.

Raimundo Quintal denuncia ainda uma terra que vive da bilhardice e onde nada se debate, salientando que "uma Região  onde se constrói com a técnica do funil e onde se aplica a lei da rolha é uma região sem futuro".

Defende, por isso, um novo paradigma, que não se aplica só a quem tem governado, mas também ao modo como a oposição tem vindo a funcionar. Refere que todos dão mais importância ao ter do que ao ser, e que até mesmo a Universidade não tem  fomentado o debate tão necessário ao futuro da Madeira.

O 20 de Fevereiro, os incêndios, uma palmeira que fez um morto no Porto Santo. 2010 é um ano para esquecer, um ano para aprender, ou precisamos mesmo de ir à bruxa?
  Eu não sou dado a essas forças do além. Sou mais dado à leitura de textos científicos e filosóficos. Já no século XVI, princípios do século XVII, Francis Bacon disse que só se pode vencer a natureza, obedecendo-lhe. Julgo que ainda não se aprendeu esta mensagem.
Numa terra que se diz cristã, seria também importante fazer uma releitura dos textos de São Francisco de Assis.

De facto, o 20 de Fevereiro foi um fenómeno em que as forças da natureza tiveram uma percentagem de responsabilidade muito maior do que os erros humanos. O mesmo já não se pode dizer dos incêndios que nos estão a atacar fortemente e que nos têm deixado num estado de verdadeira catástrofe.
É preciso verificar que todos os fogos, e particularmente um que teve maiores consequências, surgiram na zona do Curral e em zonas que não são de floresta primitiva, mas sim em áreas onde continua a haver uma mata de eucaliptos, de acácias, com muito matagal e muito material seco e combustível.

Este ciclo só pode ser terminado com um conjunto alargado de medidas e, essencialmente, através de uma educação cívica da população. A nossa população acostumou-se a ver o fogo e só grita quando o fogo já está fora de controle. A nossa população habituou-se a esconder os incendiários.
Por outro lado, é fundamental que se ordene, de uma vez por todas, esta floresta e que se faça grandes limpezas dessa camada que é extremamente combustível.
Há muitos anos que eu venho dizendo que seria importantíssimo instalarmos uma central de biomassa na Madeira.

Com o desemprego que temos, com gente que já não tem subsídio, seria interessante criar  micro-empresas com pessoas que iriam limpar essas matas e iriam transportar esse material até à central de biomassa. Assim, estaríamos perante um processo dinâmico em que beneficiaria a natureza e a economia.

O Doutor Raimundo Quintal  tem vindo por diversas vezes a público manifestar o seu desagrado, mas também tem sido muito crítico. Choca-o que perante 10% da floresta ardida, o poder político fale em ir à bruxa? Antes de responder já a isso, porque entendo que há que ser crítico, mas há também que ter soluções, voltaria à central de biomassa. Parece que já há uma empresa interessada, mas ainda não se viu obra no terreno.
Quando ouço falar em viabilidade económica para uma central de biomassa eu questiono: qual a viabilidade económica de uma unidade de incineração para os lixos?  Directamente não tem. Mas apesar de não ser um fervoroso adepto, pergunto se não tivéssemos uma central de incineração, qual era o estado desta terra em termos de lixo?

Quando vejo tanto elefante branco por aí, não aceito que digam  que uma central de biomassa não é rentável.
Respondendo à sua questão sobre a reacção do poder político: eu hoje tenho a minha vida repartida entre a Madeira e o continente. Em termos profissionais estou ligado a um centro de investigação fora da Madeira, poderia estar muito mais desapegado do que estou. Mas nasci cá, tive filhos cá, tenho já uma neta e sinto que sou tão madeirense como os dirigentes desta terra.

Não tenho qualquer ambição política ou partidária. Até ao fim da minha vida quero dedicar-me fortemente à investigação, mas também quero exercer os meus direitos de cidadania. Por isso mesmo, fiz muita força para que o Instituto de Geografia e Ordenamento do Território, onde sou investigador,  integrasse o Funchal num grande projecto europeu sobre as alterações climáticas e os efeitos no litoral. Entendo que tudo o que se possa fazer por esta terra é pouco. 

Foi com muita dor que no sábado, dia 14, cheguei ao Pico do Areeiro e vi muitos anos de trabalho voluntário que se perderam em poucas horas. Perante a imensidão do que estava destruído, eu senti que o futuro desta terra, depois do 20 de Fevereiro e agora com mais este duro golpe, é um futuro cinzento para o negro. E, nestes momentos de profunda dor, julgo que seria importante termos todos alguns momentos de reflexão e abandonarmos a festa.

Enquanto a Madeira estava a arder e num estado miserável, no Porto Santo fazia-se a festa da 'Caras'. Por isso eu disse que isto me lembrava a 'Petit Rome' e não retiro uma palavra. Porque é necessário, de uma vez por todas, que a população da Madeira tenha uma massa crítica. Não se pode ter uma terra em que surge uma palavra de alguém e todos os outros se calam.

Houve falhas no combate aos incêndios? Não quero dar lições a ninguém, mas julgo que seria importante fazer um debate em torno deste binómio: Protecção Civil/Gestão das Florestas. Seria importante debatermos, reflectirmos sobre o que correu bem e o que correu mal. Se correu mal, porque é que não estamos a trabalhar na sua rectificação. É que somos muito mais atreitos à bilhardice, à conversa por detrás, ao boato. Tentando sempre destruir o parceiro do lado.

Numa terra adulta, numa terra democrática é preciso que haja uma massa crítica muito forte. Por isso mesmo,  é fundamental debater esta questão sem medos, sem jogar pedras a ninguém, sem tentar arranjar bobes expiatórios. Tem de ser uma discussão baseada nesta  realidade: a nossa paisagem, a nossa natureza está muito doente, muito doente mesmo. E não se actua porque se vive numa situação de inércia. Um poder com tantos anos já não tem criatividade. Já não aponta saídas. Fecharam-se este ano, com grande estrondo, duas portas: uma pela água e outra pelo fogo. E pergunto: onde se abriram janelas de esperança? Onde?
Um dia destes dava comigo a reflectir sobre o seguinte: estamos a fazer a reconstrução das áreas atingidas pelas cheias. E, resumidamente, vejo isto: está-se a fazer construções com a técnica do funil.

Concretamente onde? No Ribeiro da Pena, no Ribeira da Cal, e em muitos outros afluentes. Na Serra d'Água, o estaleiro que teve consequências muito graves para a Ribeira Brava continua a engordar. Continuo a verificar o depósito de terras e mais terras dentro do leito da Ribeira Brava. Vejo que o parque dos camiões e de materiais da Câmara, por baixo do viaduto da Vialitoral, ainda lá está. A bomba de gasolina lá continua.

No Funchal, temos entre mãos  o problema do aterro numa zona nobre da Avenida do Mar. Diz-se que se encomendou estudos, mas diz-se também que lá se vão colocar os carros do rali e um heliporto.  Pergunto como vai ser possível conciliar um heliporto com uma área de recreio. Quem é a entidade responsável, em termos aeronáuticos, que vai licenciar.
Uma Região onde se constrói com a técnica do funil e onde se aplica a lei da rolha é uma região sem futuro.

Relativamente ao aterro, acha que devia permanecer ali, ou deveria ser retirado. Temos um problema de exiguidade de território... Eu só emito uma opinião final depois de muita reflexão e de muito estudo. Para ter uma opinião, precisaríamos de ver que intervenção se vai fazer ali, como é que aquilo se conjuga com as ondas e as marés no interior do porto. Como se conjuga com a desembocadura das duas ribeiras. Depois de tudo isso analisado, é que se pode, de facto, emitir uma opinião.

É preciso termos consciência do seguinte: a ilha da Madeira tem uma área que corresponde a um terço do distrito mais pequeno de Portugal, que é o distrito de Viana do Castelo. E corresponde a um quarto da área do distrito de Lisboa. Tem 250 mil habitantes, que é menos do que o concelho de Sintra, cuja sede até é uma vila e não uma cidade. Isto não é uma coisa tão sobrenatural para ser dirigida. Isto necessita é de ser pensado realmente segundo a escala que tem, e depois actuar para que se possa salvar o que ainda existe.

Sem exibicionismos, a primeira vez que entrei no campo de educação ambiental depois do fogo senti algo semelhante àquilo que senti quando entrei no cemitério para o funeral dos meus pais. Foi algo que me tocou muito.

Nesta fase de reconstrução, é importante perceber o que se passou nos incêndios. Como é possível 15 dias depois ainda estar a arder? Segui com alguma atenção o trajecto do lume que chegou à cordilheira central e questiono como se deixou o lume passar. Porque é que não se usou melhor todas as infraestruturas que existem nas serras de São Roque e Santo António.

Há poucos anos, a Direcção Regional de Florestas, e a meu ver bem, abriu um caminho de terra a partir do parque ecológico, atravessando a ribeira de Santa Luzia e indo pelas serras de São Roque e Santo António, de forma a fazer os trabalhos de plantação. Foram dispostos no terreno vários reservatórios metálicos. Além disso, há ali a Levada da Negra, e é possível ali chegar com camiões cisterna. Eu pergunto como foi possível existir todo um tempo em que não se fez uma verdadeira barragem do fogo. Seria importante analisar com muita atenção todos os passos que foram dados e averiguar se a estratégia foi a melhor e se, dentro dessa estratégia, a táctica de combate foi a mais adequada.

Há culpados desta situação. Pode-se culpar os bombeiros, a Protecção Civil, as entidades regionais? Eu não sou leviano para fazer esse tipo de leitura. O que eu digo é que a grande culpa reside, a meu ver, em dois pontos fundamentais: por um lado a falta de cultura de prevenção. A Protecção Civil devia estar mais vocacionada para o trabalho de prevenção do que para o trabalho de combate.

Por outro lado, há ainda a lei do menor esforço. A lei do menor esforço da população, e a lei do menor esforço quando se está neste combate a esse inimigo terrível que é o fogo.

Defendeu, no último mail enviado aos membros da Associação, que era  preciso as pessoas se unirem e participarem num novo paradigma. Ainda recentemente o PS falou numa plataforma que devia abarcar não só os partidos, mas outros movimentos cívicos. Estaria disponível? Não estou disponível. Até porque julgo que o novo paradigma não se aplica só a quem tem governado, aplica-se também ao modo como a oposição tem funcionado. O novo paradigma pressupõe pensar uma Madeira para os nossos filhos e netos assente numa nova filosofia de desenvolvimento. O 'ter' tem sido o verbo mais conjugado por este poder e pela própria oposição. Porque a oposição quando vai para campanha é sempre dar, dar, dar e ter, ter, ter. A nova filosofia teria de ser muito mais centrada no ser,  centrada não nos valores quantitativos, mas sim nos valores qualitativos.

Julgo até que neste novo paradigma deveria ser analisada a possibilidade de, com a nova revisão constitucional,  abrir-se caminho para o aparecimento de partidos regionais, que não tivessem que estar ligados por correias aos partidos nacionais. Isto é uma questão que se tem de discutir sem tabus. O pior que pode acontecer a um povo é enredar-se na bilhardice sem discussão.

Escreveu que o poder está em festa, enquanto avança o deserto biológico e ideológico... A perda do universo biológico sente-se, sem dúvida, e o mesmo acontece com o deserto e a incapacidade de debate e de reflexão. Temos uma Universidade que devia de ser o motor da carruagem. Mas onde se sente essa universidade a fomentar esse debate e essa discussão?

Verifiquei, com muita tristeza, que um dos centros de investigação da UMa, o Centro de Estudos da Macaronésia, teve uma classificação externa que deixou muito a desejar e isso não abona nada em relação a um projecto que deve ter força e credibilidade lá fora. Porque, nestas coisas, podemos ser muito bons nos regionais, mas para chegar às competições nacionais e europeias é preciso ter mais qualidade.

O problema da Madeira é um problema de líder? O problema da Madeira é um problema de formação. É muito mais fácil fazer estradas do que construir o edifício da educação.

É preciso analisar o som no largo das palmeiras

 No caso da palmeira que caiu no Porto Santo, Raimundo Quintal defende que se devem analisar todas as possíveis razões. E, nesse leque,  inclui a circunstância da palmeira estar num largo onde havia um comício e uma aparelhagem de som com muitos decibéis. Isto porque entende que as vibrações podem ter tido alguma influência no precipitar da queda. "Digo podem ter tido, porque, quando analisamos estas coisas, temos de  ver todos os factores. Mas, repare, pode ter sido a gota, porque o problema é muito anterior. Uma palmeira daquela espécie, com aquela inclinação, é uma palmeira que revelava problemas". Recusando falar de responsabilidades políticas, diz que o o preocupante é ter havido uma morte e a festa continuar.

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