15.200 vespas tentam salvar castanheiros

O combate à praga da vespa-das-galhas-do-castanheiro, que assola a produção da castanha, está a avançar em várias ‘frentes’ na Região

19 Mai 2017 / 02:00 H.

A aplicação de um método biológico e sustentável foi a solução encontrada para o combate à praga da vespa do castanheiro que tem ameaçado fortemente a produção da castanha na Madeira.

A praga da vespa-das-galhas-do-castanheiro (VGC), uma das mais prejudiciais para os castanheiros no mundo inteiro, já tem os dias, ou melhor, os anos contados na Região, visto que o parasitóide Torymus sinensis, insecto que se hospeda e alimenta da VGC, já começou a ser introduzido nas zonas afectadas e espera-se que a sua acção surta efeito dentro de quatro a cinco anos.

O parasitóide Torymus sinensis, que em adulto chega a medir cerca de cinco milímetros, dedica toda a sua vida ao interior do castanheiro, sendo “completamente inofensivo para o Homem e outros seres vivos”, garante Rui Nunes, engenheiro Agrónomo da Direcção Regional da Agricultura e Pescas.

O processo é natural, simples e eficaz. “O parasitóide vai começar a alimentar-se da praga, o índice da praga vai diminuindo e o parasitóide vai se multiplicando de ano para ano. Ou seja, para além de ser biológico, é sustentável. Não é preciso fazer grandes largadas futuramente porque o próprio Ambiente mantém o ciclo do parasitóide em relação à praga até chegar a um equilíbrio”, acrescenta.

A presença da praga na Região só foi detectada há cerca de três anos, em 2014, sendo que todas as áreas de produção da castanha foram afectadas. Desta forma, existem várias equipas de trabalho no terreno a efectuar largadas em cada uma delas: Curral das Freiras (Terra Chã, Eira do Serrado, saída do túnel, Balceiras, Pomar Público, Fajã Escura, Torres, Fajã dos Cardos, Colmeal, Ribeiro Cidrão e Pico Furão), Jardim da Serra (Corrida, Boca dos Namorados e Pomar Novo), Serra de Água (Pinheiro, Eira da Moura e Passal), Campanário (Lugar da Serra e Terreiros), como ainda em Santo António, Ponta Delgada e Prazeres.

O engenheiro, que na passada quarta-feira esteve a efectuar largadas destes parasitóides com a sua equipa no Pico Furão, Curral das Freiras, explicou ao DIÁRIO que a VGC provoca galhas nos castanheiros e vivem no seu interior. A sua presença trará consequências catastróficas para os vegetais do género ‘Castanea’ visto que irá reduzir o crescimento dos ramos e a frutificação, facto que poderá diminuir drasticamente a produção e a qualidade da castanha e, em último caso, matar os próprios castanheiros.

Para acabar com esse presságio, já começaram a ser libertados, aos poucos, cerca de 15.200 parasitóides, dos quais 9.600 são fêmeas e 5.600 machos. A conclusão deste processo acontece dentro de uma semana, após as 80 largadas totais, realizadas nas diferentes zonas de produção de castanha afectadas pela praga.

Cada acto de libertação do insecto é efectuado junto às galhas dos castanheiros, no qual são ‘depositados’ 70 machos e 120 fêmeas.

Este combate à praga da vespa do castanheiro resultou num investimento que ronda os 19 mil euros e foi importando de Itália, mais concretamente do laboratório GreenWood Service Srl. O parasitóide chegou ao Funchal depois de uma viagem que passou pela Alemanha, Porto e Lisboa, isto porque há regiões no continente que também estão a enfrentar esta praga nos castanheiros e que também estão a utilizar este método biológico de ‘luta’ contra a VGC.

‘Jaulas’ laboratoriais

Cerca 25% dos insectos estão a ser largados dentro de ‘jaulas’, distribuídas estrategicamente nestas freguesias. Rui Nunes explica que cada ‘jaula’ contempla no interior um castanheiro ou parte dessa árvore que possua galhas, onde são colocados os minúsculos insectos. “A ‘jaula’ é uma área limitada para a saída do insecto, que será largado lá dentro. Posteriormente, no seu devido tempo, estas [galhas] serão analisadas para vermos a percentagem de parasitismo que houve ou não”.

A ‘jaula’ trata-se de uma “situação laboratorial”, na qual os profissionais conseguirão recolher dados para uma informação mais “rápida e precisa” visto que os insectos estão num ambiente confinado que os impede de dispersar e ficam mais protegidos de factores externos. Simultaneamente, para uma maior monitorização, serão recolhidas nos pontos onde foram realizadas as largadas sem qualquer tipo de protecção (‘jaula’), cerca de 100 galhas em cada 15 dias, de forma a contabilizar quantas foram parasitadas, facto que servirá de análise do comportamento do parasitóide nesta fase inicial.

“Esperamos ter sucesso. Repare que esta é uma nova praga cá, o parasitóide também é novo aqui, as condições climatéricas também são diferentes das dos outros países que combatem a praga com este método, como a França e Itália. Mas estamos com esperança”, afirma o Rui Nunes.

Introdução excepcional

O parasita Torymus sinensis trata-se de uma espécie exótica e a sua introdução na Região só foi concedida excepcionalmente pela Secretaria Regional do Ambiente e Recursos Naturais, após a elaboração de um estudo de impacto ambiental, denominado ‘Estudo da Avaliação de possíveis riscos ambientais após a introdução do parasitóide exótico Torymus sinensis Kamijo para utilização na Luta Biológica Clássica contra a Vespa-das-Galhas-do-Castanheiro Dryocosmus kuriphilus Yasumatsu na Ilha da Madeira’ e de se verificar que há vantagens para o Homem e que não há nenhuma espécie indígena apta para o fim pretendido .

Acompanhado de um ‘Plano de Largadas Inoculativas de Torymus sinensis na ilha da Madeira’ para 2017, que está agora a ser efectuado nas freguesias afectadas pela praga, o estudo ficou concluído em Outubro do ano passado, sendo submetido à Secretaria Regional do Ambiente e dos Recursos Naturais.

Entre as conclusões, afirmou-se que existe “um risco enorme ao nível económico, ambiental, turístico, de conservação de solos, principalmente no Curral das Freiras, caso a praga não seja controlada. O risco aqui não está do lado da introdução do parasitóide, mas sim na sua não introdução”.

Neste sentido, o presidente da Junta de Freguesia do Curral afirma que não se podia deixar morrer um produto emblemático como a castanha. “Não poderíamos cruzar os braços perante uma praga destas numa freguesia como o Curral das Freiras, conhecida pela produção de castanha, que faz parte do nosso historial e dinamiza o comércio local”, defende Manuel Salustino Jesus. “A castanha é um meio de sustentabilidade destas famílias, eles perceberam que tínhamos de fazer alguma coisa porque senão iria acabar este equilíbrio financeiro, que é o valor que recebem pela venda do produto”, assegura.

Prevê-se a continuação de largadas em 2018 e 2019. Agora, só resta esperar que as castanhas voltem em força nas terras afectadas pela praga da VGC na Madeira.