Abril junta heróis após 35 anos

Fernando Sottomayor desobedeceu a um ordem para matar Salgueiro Maia

19 Abr 2009 / 21:56 H.

O relatório da operação 'Fim Regime' refere que às 10h45 de 25 de Abril de 1974, na Ribeira das Naus, junto ao Terreiro do Paço, o alferes miliciano Fernando Sottmayor, comandante de um pelotão de carros de combate M47 (tanque) do Regimento de Cavalaria 7, se recusou a obedecer à ordem do brigadeiro Junqueira dos Reis, para disparar sobre o capitão Salgueiro Maia. Nem o facto de ter uma pistola apontada à cabeça fez com que jovem oficial abrisse fogo sobre o comandante operacional da Revolução dos Cravos. O brigadeiro, 2º comandante da Região Militar de Lisboa e responsável pelas forças que tentaram travar a coluna que vinha de Santarém, deu-lhe voz de prisão. O seu gesto evitou uma banho de sangue entre soldados portugueses e terá garantido o sucesso da Revolução de Abril.
'Muitas vezes interrogo-me como fui capaz de fazer aquilo mas, felizmente, correu tudo bem', recorda ,35 anos depois. Embora a sua acção tenha sido referida em diversos documentários e no filme 'Capitães de Abril', de Maria de Medeiros, Fernando Sottomayor esteve sempre à margem das comemorações da Revolução e do protagonismo mediático. Até este ano. Ontem, na Mealhada, participou num almoço com muitos dos ex-militares que integraram a coluna de Salgueiro Maia que saiu da Escola Prática de Cavalaria. Os homens que estavam do outro lado, contra quem não disparou e que quiseram homenageá-lo e integrá-lo no grupo que ajudou a acabar com quatro décadas de ditadura em Portugal.
Há vários anos que a maioria dos 250 elementos da coluna da EPC se reúne, em datas próximas ao 25 de Abril e até tem uma comissão organizadora, de que fazem parte o madeirense António Gonçalves - era furriel miliciano em 1974 - e o antigo coordenador da PJ na Madeira, Calado Oliveira, que era alferes. Foram eles que conseguiram convencer Sottomayor a estar presente no encontro que reuniu cerca de uma centena de pessoas.
'Nunca fui muito de homenagens, sempre procurei manter um perfil discreto mas, este ano, um amigo convenceu-me a participar', adianta ao DIÁRIO.
Fernando Sottomayor recorda aqueles momentos, junto ao Terreiro do Paço, com alguma emoção, sobretudo porque a sua situação era muito diferente da dos militares da coluna de Salgueiro Maia. 'Eles vieram juntos de Santarém, a apoiarem-se uns aos outros, no outro lado eu estava só'.
Lembra-se de ter ouvido a ordem para disparar e de ter a pistola do brigadeiro Reis apontada à cabeça: 'Tive de decidir sozinho e fiz o que achei que era certo'.
Por prestar serviço numa unidade (RC7) que não aderiu ao Movimento das Forças Armadas, acabou por estar, durante algumas horas, do lado das forças que defendiam o Governo de Marcelo Caetano. No entanto, além de ver do outro lado camaradas com quem tinha feito a recruta em Santarém, os seus ideais 'eram os mesmos'. Como muitos outros, naquele dia 25 de Abril, não teve dúvidas sobre qual o 'lado certo' da História. Hoje, garante que o importante, 'independentemente de tudo o que possa ter acontecido depois, foi a liberdade para este País'.
Emigrante na África do Sul


Quando acontece o 25 de Abril, Sottomayor já leva mais de dois anos de tropa. Começara a recruta, em Santarém, em Janeiro de 1972 e esperava-o um longo período de permanência no Exército.
Mesmo estando a cumprir o serviço militar obrigatório, tinha pela frente vários anos no activo. A razão era puramente administrativa: tinha uma especialidade não mobilizável. Para África não iam tanques, mas esse facto não trazia nenhuma vantagem. Depois de três anos de serviço, deveria ter um 'intervalo' de um ano e regressar, para 'formar companhia e seguir para a guerra'. Eram estas as suas perspectivas de futuro. Mesmo assim, só deixaria o Exército em 1975.
Depois da tropa, emigrou para a África do Sul. Regressado a Portugal, trabalhou na indústria têxtil da qual se vai reformar. 'Não tive nenhuma benesse pelo que fiz, mas também não era isso que pretendia'.
Abril por realizar


Calado Oliveira foi um dos operacionais do 25 de Abril. O ex-coordenador da PJ do Funchal era alferes e desempenhou o papel de 'batedor' da coluna da EPC. É um dos dinamizadores dos encontros que reúnem, anualmente, muitos dos que integraram o grupo de 250 que sairam de Santarém.
'Estes encontros são muito importantes, cada um conta as suas histórias, partilhamos memórias e revivemos aquela camaradagem que nos une', explica. Reuniões que também servem para ajudar os que mais precisam, porque 'a vida não está fácil para todos'.
Hoje, passados 35 anos, garante que mantêm 'viva a esperança de Abril'. No entanto, como também reconhece António Gonçalves, outro dos operacionas da Revolução dos Cravos, as gerações mais novas estão cada vez mais alheias a ideais de solidariedade.
'A juventude não tem a noção do que foi o 25 de Abril e é mais individualista', lamenta Calado Oliveira.
Considera que 'Abril ainda não está completamento realizado', porque a evolução da sociedade não terá sido a ideal, mas que continua vivo entre os que tiveram um papel activo naquele dia, há 35 anos.
É isso que António Gonçalves irá explicar, mais uma vez, sexta-feira, numa escola do Funchal, a jovens que já nasceram em liberdade.Jorge Freitas Sousa

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