Demitidos por carta e em risco

Direcção admite plano para afastar ex-dirigentes do parlamento regional

19 Fev 2009 / 00:05 H.

Victor Freitas e Jaime Leandro têm o lugar de deputados na Assembleia Legislativa em risco. Esse é um dos cenários ponderados por elementos próximos da direcção que ontem excluiu aqueles dois dirigentes. O regresso de Jacinto Serrão e o assumir de mandato por parte de Carlos Fino são vistos como forte possibilidade de acontecer, caso Victor Freitas opte por bater o pé a João Carlos Gouveia e não se demita da liderança do grupo parlamentar socialista.
Nesse caso, o presidente do PS deverá, em mais uma 'prova de força', fazer regressar ao Parlamento Fino e Serrão, o que levaria ao afastamento 'à força' dos até ontem líder parlamentar e secretário-geral do partido. Este era um dos planos ontem comentado. No entanto, suscita algumas dúvidas. A começar pelo facto de que para afastar Victor Freitas, o próprio Gouveia teria de deixar o Parlamento, já que ocupou 9.º lugar da lista de candidatos em que Victor foi 8.º Já com Jaime Leandro essa situação é mais verosímil, uma vez que o ex-secretário-geral foi 10.º na lista. Logo, basta Serrão regressar para Leandro perder o lugar. Embora possível, esse regresso não é confirmado pelo próprio Serrão que recusa comentar 'especulações'. Com ou sem comentários, a verdade é que a direcção do partido tem plano para enfrentar os dirigentes afastados, que pode passar pela saída do parlamento.
Nas eleições legislativas regionais de 2007, Victor Freitas e Jaime Leandro não tiveram eleição directa e só estão no parlamento em substituição dos dois nomes referidos. Uma situação semelhante à do próprio João Carlos Gouveia. Em situação limite, os três podem sair na eventualidade de Bernardo Trindade, hoje secretário de Estado do Turismo, voltar para a Região e confirmando-se o regresso em simultâneo de Fino e Serrão.
Demitidos por carta


Seis linhas, enviadas a Victor Freitas e Jaime Leandro, foram a maneira que o líder do PS escolheu para demitir o secretário-geral e o presidente do grupo parlamentar das suas funções no Secretariado do partido. João Carlos Gouveia pediu a Agostinho Soares, homem da sua confiança, que entregasse as cartas aos destinatários.
Depois disso, não houve qualquer contacto. Só ao fim do dia de ontem, numa conferência com o ministro Vieira da Silva, na sede do partido, é que Gouveia, Victor Freitas e Jaime Leandro voltaram a estar juntos. Mas não se falaram.
Freitas e Leandro chegaram antes de Gouveia, que veio com o ministro. Sentaram-se na primeira fila e não se levantaram até ao início da conferência de Vieira da Silva.
Nas mãos da Comissão Política


Ainda não é conhecida a decisão de Victor Freitas quanto à liderança do grupo parlamentar. Mas há dois cenários tidos como mais prováveis: ou 'entrega' o cargo à Comissão Política ou aceita uma batalha com o líder e mantém-se temporariamente à frente dos deputados.
Se isso acontecer, antes de optar por pedir o regresso de Fino e Serrão, João Carlos Gouveia deverá pedir à Comissão Política que retire a confiança política ao líder parlamentar. Uma situação que não seria inédita, no PS-M. Fernão Freitas chegou a ser líder parlamentar, sem ter a confiança do presidente do partido, Mota Torres.
No PS acredita-se, no entanto, que não se chegará a esse ponto e que Victor Freitas vai optar por deixar de liderar os parlamentares socialistas. Num cenário desses, é preciso encontrar novo presidente da bancada e as possibilidades não são muitas.
Se o PS não tiver cuidado, pode até acabar por, directa ou indirectamente, fazer o jogo do PSD. Se, por exemplo, Bernardo Martins voltar a liderar os deputados socialistas, fica caminho aberto para que o PS indique outro nome para a vice-presidência do Parlamento. Assim ficaria satisfeita uma das condições do MPT para viabilizar a eleição, bem como os votos necessários dos social-democratas para viabilizarem o 'vice' do PS.
A decisão de João Carlos Gouveia é claramente uma 'prova de força' que tenta dar ao partido. É voz corrente, dentro e fora do partido, que Victor Freitas tem muito poder interno e que controla as bases socialistas.
Com esta demissão, João Carlos Gouveia tenta demonstrar o contrário. Os próximos dias ajudarão a perceber a influência interna de cada um deles. Para já, ambos estão remetidos ao silêncio.
Entretanto, em alguns sectores do PS começa a ser defendida a necessidade da realização de um congresso extraordinário a breve prazo (ver texto ao lado).
A sondagem e Célia Pessegueiro


A crise interna no PS começou a agudizar-se com a divulgação, pelo DIÁRIO, de uma sondagem do próprio PS que indicava que os socialistas teriam um péssimo resultado eleitoral, caso houvesse eleições em breve.
Na semana passada, João Carlos Gouveia disse que a divulgação desse estudo havia partido de dentro do seu PS, de um núcleo muito restrito, por alguém que para o prejudicar não se importava de causar danos ao partido. No entanto, o DIÁRIO sabe que os resultados da sondagem não estavam confinados a um núcleo assim tão pequeno. Dentro do PS várias pessoas tinham conhecimento da sondagem e até em partidos da oposição havia quem estivesse a par dos resultados que Gouveia tanto contestou. Disse o líder do PS que não correspondiam à verdade.
Contudo, a divulgação da sondagem e a quebra de confiança política pode ser apenas um pretexto para a mudança que Gouveia viria a pensar há algum tempo. Uma das razões que terão precipitado tudo terá sido o anúncio da forte possibilidade de Célia Pessegueiro ser candidata ao Parlamento Europeu, em lugar elegível, indicada pela JS nacional.
Nessa circunstância seria muito provável que o PS nacional já não reservasse para a Madeira um lugar elegível e Gouveia ficasse sem nada para 'atribuir' a Emanuel Jardim Fernandes, actual deputado, ou a qualquer outra figura regional.
Surpresa generalizada


A notícia de que Gouveia havia demitido, do Secretariado, Victor Freitas e Jaime Leandro surpreendeu muitos militantes e dirigentes do PS, apesar de haver quem garanta que a decisão já era conhecida há alguns dias.
Mesmo no grupo parlamentar, alguns dos deputados contactados pelo DIÁRIO manifestaram-se surpreendidos. Isto apesar de se estar a falar de um número reduzido de pessoas. Além dos três envolvidos, o grupo é composto por Luísa Mendonça, André Escórcio, Carlos Pereira (independente) e Bernardo Martins.
Congresso antecipado é hipótese em aberto


Um congresso regional antecipado, para clarificar as posições internas e dar espaço aos 'carreiristas', que foram desafiados por João Carlos Gouveia, é uma das possibilidades em aberto no PS-M. Uma solução que é defendida por alguns dos opositores assumidos do líder, mas também por outras figuras do partido que consideram importante um 'toque a reunir'.
A hipótese de uma nova corrida à liderança do PS-M tem a vantagem de permitir marcar posições, como foi pedido por Gouveia, mas também tem inconvenientes de calendário.
Dois meses é o período mínimo, previsto nos estatutos, para a convocação e realização de eleições directas para líder e de um congresso. Um prazo apertado, tendo em conta as eleições para o Parlamento Europeu que deverão acontecer entre 7 e 14 de Junho.
No entanto, a questão 'europeia' nunca será prioritária para o PS-M, sobretudo porque dificilmente conseguirá um lugar de destaque na lista nacional. Ou seja, um congresso extraordinário teria como objectivo a clarificação da situação interna, com vista a eleições mais importantes: autárquicas e legislativas nacionais.
Ao longo do dia de ontem, alguns militantes socialistas admitiram a possibilidade de ser aberta uma nova corrida à liderança. Entre os que assumiram uma posição nesse sentido está Ricardo Freitas, um dos raros opositores de João Carlos Gouveia, no último congresso regional.
O ex-deputado à Assembleia da República, em declarações à TSF/Madeira, considera urgente a consulta às bases. Sobre a crise no partido, que levou ao afastamento de Jaime Leandro e de Victor Freitas, diz ser o resultado do trabalho de um 'líder (Gouveia) impreparado para o lugar'.
Congresso só em 2010...
A antecipação do congresso do PS-M vai estar em discussão nos próximos dias, mas a sua convocação só poderá resultar de situações muito específicas, previstas nos Estatutos: a pedido do presidente do partido, a demissão do líder, ou uma decisão do Comissão Regional.
Sobre este tema, João Carlos Gouveia é claro: só prevê a realização de um congresso em 2010, depois dos três actos eleitorais marcados para este ano.
O líder pode não querer um congresso, mas a ideia começa a ganhar forma entre alguns militantes. Muitos deles com assento na Comissão Regional e noutros órgãos do partido.
As soluções encontradas para o grupo parlamentar e para o secretariado serão determinantes para uma tomada de decisão da maioria dos militantes.
Casa cheia para ver ministro e 'demitidos'


Vieira da Silva conseguiu encher o auditório do PS-M, para uma conferência sobre políticas laborais e de apoio social. Mas teve uma ajuda importante: Victor Freitas e Jaime Leandro, ambos demitidos pelo líder, estavam na primeira fila. Os dois deputados, que na véspera tinham sido surpreendidos pela decisão de João Carlos Gouveia, mantiveram a sua agenda e participaram na conferência. Victor Freitas até teve a particularidade de viajar para a Madeira no mesmo avião em que veio o ministro do Trabalho e Segurança Social.
A sala encheu e foram visíveis diversas manifestações de solidariedade a Victor Freitas e Jaime Leandro, sobretudo de alguns militantes mais destacados. Os dois rivalizaram em protagonismo com Vieira da Silva.
PS nacional desvaloriza 'crise'


Falatório


'Por regra, não comentamos questões internas de outros partidos, a quem cabe pronunciar-se. Acompanhamos com muita atenção, temos opinião, mas não assumimos uma posição publica'. EDGAR SILVA, PCP.
'As questões internas do PS devem ser resolvidas pelos seus dirigentes e militantes. A eventual fragilização do partido é um problema que só diz respeito ao PS e aos seus dirigentes'. ROBERTO ALMADA, BE.
'Não comento a vida interna de outros partidos. Acho é que em democracia era bom que houvesse, na Região, uma alternativa forte e uma oposição credível'. JOÃO ISIDORO, MPT.
'Como líder do CDS, só tenho que lamentar que o principal partido da oposição tenha chegado a este estado. Isso só impõe mais responsabilidades aos outros partidos que devem ser alternativa ao PSD'. JOSÉ MANUEL RODRIGUES, CDS-PP.
'Há muito tempo que dizia que a liderança de Gouveia era fictícia, que lhe estavam a roer a corda. Havia uma contradição entre a liderança forte que ele queria construir e a situação do PS-M'. LUÍS FILIPE MALHEIRO, PSD-M.
'Em termos de futuro, é preciso saber se haverá congresso e, se houver, se será manipulado ou livre. É preciso saber se os visados e o grupo de Lisboa vão assumir a liderança, ou não'. LUÍS FILIPE MALHEIRO, PSD-M.
'Sou independente e não conheço as situações partidárias, como não sou militante estou à margem de que se passa no PS-M. No entanto, reconheço que pode ter efeitos no grupo parlamentar'. CARLOS PEREIRA, DEPUTADO DO PS .Élvio Passos / Jorge Freitas Sousa

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