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Herdeiros de Sísifo

 
Edgar Silva
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A dimensão da pobreza, a natureza da injustiça social faz com que, pior do que para Sísifo, os pobres nem à metade da montanha consigam chegar.

1- Atraso e pobreza

A Região Autónoma da Madeira não só continua a estar entre as regiões onde a distribuição da riqueza é mais desigual, mas também é onde o risco de pobreza é mais elevado em Portugal. Na recente conferência da Comissão Nacional Justiça e Paz, o estudo aí apresentado aponta a Madeira como região com 'maior incidência de risco de pobreza monetária', destacando-se igualmente como uma região com 'índices de desigualdade mais acentuados'.
Um recente estudo publicado sobre a pobreza e a desigualdade entre regiões portuguesas conclui que, na Madeira, os '10% de indivíduos de mais baixos rendimentos concentram somente 3% do total do rendimento da Região' (in 'Cadernos Sociedade e Trabalho', nº 7).
Depois de dois mil milhões de euros em fundos estruturais vindos da UE, a Região Autónoma da Madeira continua a alinhar entre os mais pobres no nosso País. No quadro nacional e europeu, fazemos parte daqueles que mais divergem da média europeia quanto à coesão económica e social.
Na Madeira, apesar dos milhões de euros na chamada 'ajuda ao desenvolvimento', persistem enormes disparidades de rendimento, perduram divergências territoriais e sociais muito vincadas.
2- Trabalho e pobreza

Um recente estudo da Comissão Europeia (19/02/07), confirma que, para além do facto dos portugueses se encontrarem entre os mais pobres da UE, Portugal é um dos países da UE onde o risco de pobreza é mais elevado, sobretudo entre as pessoas que trabalham, apesar de vários estados-membros terem níveis de riqueza muito inferiores.
Nestes últimos dias, Alfredo Bruto da Costa, coordenador de um estudo nacional sobre a pobreza, sublinhou esta realidade: ter trabalho em Portugal não é garantia de não viver na pobreza. No estudo que está a realizar, concluiu já que '40% dos membros das famílias pobres têm emprego, por conta de outrem ou por conta própria'.
Daqui resultam vários questionamentos: porque é que os que trabalham são tão afectados pela pobreza? Que caminho tem seguido a política económica que leva a que existam 40% de pobres que têm trabalho? Cabe-nos perguntar que caminho de justiça social é esse percorrido pela Madeira, que nos faz ter os indicadores de riqueza entre os mais elevados das regiões de Portugal e a maior pobreza e dos mais baixos salários do País. Que desenvolvimento é esse que tanto ostenta indicadores económicos de crescimento e em que as bolsas de pobreza persistem e até, nalguns casos, se agravam?

Já a 'Populorum Progressio', nº 14, afirmava claramente: 'O desenvolvimento não se reduz a um simples crescimento económico'. Quer isto dizer que pode haver crescimento económico sem desenvolvimento.
3- Trabalho de Sísifo

Segundo a mitologia grega, Sísifo teve um castigo: por toda a eternidade condenado a rolar uma grande pedra até ao cume de uma montanha, sendo que toda a vez que ele estava quase a alcançar o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo até ao ponto de partida, por meio de uma força irresistível.
A dimensão da pobreza, a natureza da injustiça social faz com que, pior do que para Sísifo, os pobres nem à metade da montanha consigam chegar no actual sistema económico.
Quando temos 40% de pobres activos, torna-se claro que este não é só um problema de redistribuição, mas também de repartição primária dos rendimentos. A pobreza é, antes de mais, um problema de políticas económicas. E é muito a esse nível que importa agir para a libertação dos herdeiros de Sísifo.

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