"Vamos à pesca", disse o pai para os três filhos. "Vamos à pesca do esturjão nada melhor do que pescar para conservar a união familiar". A mãe deu-lhe razão e preparou sem mais detença um bom farnel, sopa de couves com feijão para ir também à pescaria do esturjão. E a mãe e o pai e os três filhos foram à pesca do esturjão todos atentos, satisfeitíssimos. Que bom pescar o esturjão! Que bom comer o belo farnel, sopa de couves com feijão! E foi então que apanharam um magnífico esturjão que logo quiseram ali fritar mas enganaram-se na fritada e zás fritaram o velho pai, apetitoso, muito melhor, mais saboroso do que o esturjão. "Vamos para casa", disse o esturjão».
Nunca pensei que este poema de Mário-Henrique Leiria se ajustasse na íntegra aos 30 e tal anos de Autonomia, liderada por Alberto João Jardim que sobreviveu à mudança, reunindo a família à mesa, por conta da distribuição das ovas do orçamento. O termo "esturjão" inclui mais de 20 espécies que são comumente conhecidas como esturjões e várias espécies aparentadas que possuem nomes comuns distintos, sendo as mais notáveis sterlet, kaluga e beluga. Coletivamente, a família é também conhecida como Esturjões Verdadeiros. Pois é, estes esturjões (ou intrujões) verdadeiros estavam acostumados a distribuir - por muito poucos, diga-se - grandes doses de caviar. Mas o caviar esgotou porque a espécie entrou em vias de extinção. Ninguém cumpriu as quotas de pesca. Agora os madeirenses, a grande maioria, nem petinga vão pescar. O eldorado que nos venderam entrou em insolvência a caminho de um processo de falência e não da recuperação. Está mais do que visto. Basta ler com atenção o programa de assistência (chamemos-lhe assim) assinado unilateralmente pelo presidente do governo da Madeira. Um pesadelo. Esse sim, deveria ser distribuído às portas das igrejas, nas escolas, nos consultórios, cabeleireiros, e supermercados para que todos o leiam. Deveria ser, ainda, adaptado para banda desenhada, a exemplo do que a DRAC publicou há 20 anos para explicar às criancinhas o nascimento da autonomia, a partir das memórias do avozinho. Seria o segundo tomo da colecção. A morte.
Há um mês, uma mulher à porta de uma farmácia, aflita e confusa teve de largar 50 e tal euros por um medicamento para o filho e esperar semanas a fio pelo reembolso. "Eu sempre votei no dr. Alberto João porque ele cuidava de nós e agora…". É esta nova realidade que ainda ninguém assumiu. E agora? O discurso, o conteúdo e o método, paradoxalmente, não evoluíram. Congelaram no tempo. Como se nada tivesse acontecido. Não há responsáveis e olha-se para a intervenção da República como a coisa mais natural deste mundo. Não é. E não me venham com os túneis da Sra. Merkel, cujo convite publicitado só serve para consumo interno porque ainda se "bate" à máquina, usando modelos carcomidos e bolorentos. Não é por aí. Tratar as pessoas como um bando de idiotas adormecidos é enganar-se a si próprio porque recusa a possibilidade de, um dia, os filhos confundirem o pai com o esturjão. E fritam-no. Aliás, a fritada já começou. Quando se diz que alguns cospem no prato em que comeram, pergunta-se: quem o encheu, quem o serviu? O vulcão anestesiado pode acordar. Não seria a primeira vez na História da Madeira.
* Jornalista do DN nacional na Madeira
...VIGIEM O AVIÃO PRIVADO QUE ESTÁ EM SANTA...


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