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Ele capitulou

A viciação da vontade eleitoral é coisa sub-reptícia que, por vezes, nos escapa

 
Gaudêncio Figueira
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DN, opinião de 29/4/2009: "Mártir será o povo madeirense. Quão pesada será a pena, quando tivermos de pagar os mil milhões reconhecidos como dívida da RAM, acrescidos das dívidas da Via Litoral, Sociedades de "Endividamento", serviço de Saúde etc. Estes sacrifícios, sim, garantem martírio. Aos filhos e netos das classes mais desfavorecidas de hoje, que tantas vitórias eleitorais deram, tal como há 60 anos, faltarão sapatos, e a roupa - já sem marca - trará remendos".
Nas primeiras palavras que pronunciou, após a aceitação do programa de resgate, o Sr. Pres. do GR, grosso modo, disse: "veremos, daqui a quatro anos, entre a RAM e o continente, quem melhor satisfez os seus compromissos". S. Exa. falou apoiado nos votos dos madeirenses. Porém, na campanha eleitoral, ninguém avalizou tal disputa. Avalizou-se, sim, a palavra de S. Exa. de não aumentar impostos, transportes e bens de 1.ª necessidade. Por isso, representando-nos, a afirmação merece reparo. Imputando, porém, a frase a um qualquer cidadão, estaríamos perante um jovem que, finda uma refrega, com outro adolescente a quem temia, já à distância, avalia os estragos e garante: para a próxima ajustamos contas, verás! Três poderosos factores levaram-nos a isto: viciação da vontade eleitoral; divisão entre portugueses bons (madeirenses) e portugueses maus (continentais); pusilanimidade do Estado Português.

A viciação da vontade eleitoral é coisa sub-reptícia que, por vezes, nos escapa. Vou procurar, com um exemplo, explicá-la. Félix Patassé foi Pres. da Rep. Centro-Africana de 1993 a 2003. Prometeu uma fábrica de notas em cada aldeia. Foi eleito. Mais tarde, recandidatou-se e nomeou Jesus Cristo, director de campanha. Perdeu as eleições e queixou-se de chapelada. Não foi o único a usar o nome de Jesus Cristo em campanha eleitoral. À consideração a analogia entre a fábrica de notas e "deixem o dinheiro comigo". Cristo recusou ser rei neste Mundo. As Suas ideias, porém, subverteram Roma. Dois mil anos de Boa Nova trouxeram sofrimento e morte aos seguidores. Destacou-se, na defesa do Humanismo Cristão, o nosso conterrâneo, sr. D. Manuel Ferreira Cabral. Em Fev.º de 1972, abdicou de bispo da Beira em discordância com o poder colonial. A Igreja, ratificando a posição do sr. bispo, assumiu as denúncias dos padres brancos. Atitudes de defesa intransigente da Sua Verdade colocaram-na ao lado dos pobres e humildes garantindo a sua continuidade em África. Possuir um jornal, em conflito com as regras da concorrência, partidariamente enfeudado, financeiramente falido, que todos os dias pinta de rosa a negra realidade, enganando assim os mais pobres e humildes, leva-nos à dúvida de que interesses movem a Igreja.

A dicotomia, bons-maus portugueses, surgiu em 1974. O Norte do País pegava fogo. Aqui inventava-se, a flama, o zarco e o "cubano". Do recém-criado inimigo externo, o continente, fez-se um alvo a abater. Surgiu a elegante frase: "A Madeira é uma prostituta cara". Passados anos, quando alguém, de lá, cognomina de "chulos" os madeirenses, Deus nos acode, grossa ofensa acontecera.

Em 1980, o Estado soube que gastar era verbo do agrado dos governantes regionais. Um concelho "nosso" tinha mais despesa pública que um distrito "deles". Seja pela área, ou pela população não há lógica nisto. Daí o argumento emotivo: acertar o passo com o "pugresso". O temor da nacionalização da banca levou a que surgisse um 'superavit' de dinheiro numa instituição privada local. O dinheiro foi disponibilizado ao GR. Disse-se que assim se investia, fugindo à inflação. A certa altura, não havia dinheiro para reembolsar os depositantes. Até hoje não se sabe quanto custou a brincadeira com a criação do BANIF. A indisciplina continuou.

Um primeiro-ministro, em solidariedade com a RAM e unidade nacional, perdoou-nos dívida. O melhor que conseguiu foi dedicarem-lhe "A mula da cooperativa". Mais tarde o Min. das Finanças, criou o endividamento zero. Surgiram as Sociedades de Desenvolvimento para tornear o obstáculo e nada aconteceu. Um Conselheiro de Estado, governante regional, assume um comportamento público, bizarro, impróprio e único. Consequências não as houve. O Pres. da Rep. visitou a RAM e não foi, como devia, à ALM. Dividiu-se o indivisível com o Monumento ao Combatente Madeirense. Inqualificável tramóia! Em África estiveram, só, e, apenas, Portugueses nascidos em diferentes locais! O, então, Min. da Defesa salvou a imagem do Estado participando na inauguração. Por omissão continuada durante mais de trinta anos, o pusilânime Estado foi, contínua e progressivamente, somando equívocos que desembocaram neste descalabro.   

Pode vir pior. À antipática dicotomia ilhéus-continentais pode suceder Portugueses-portugueses. Portugueses são todos aqueles que descapitalizando as suas empresas se põem a milhas com o dinheiro, como estão fazendo alguns gregos; "portugueses" são todos os outros que ficam para pagar os BPNs, as marinas e outras tantas loucuras.

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Comentários

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Bom artigo. Penso que o Dr. Gaudêncio tocou e bem em diversas feridas da governação da Madeira sobretudo no "desbocamento" do PR, nas promessas que faz, nos insultos aos continentais, alguns dos quais me têm afirmado não mais irem à Madeira. Eles não são o governo da República para serem insultados.

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Curiosamente, verifico que de quando em vez aparecem seres dignos de respeito e consideração. Considero este artigo de opinião digno de registo por todas as pessoas de bem.
Pena que o medo se entranha nas pessoas e as arrastam para precepícios. Espero que mentes destas apareçam sempre e sempre mais. Há que desmistificar o medo e, incutir nas pessoas que a verdade é como o azeite:- Vem sempre ao de- cima.

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Excelente. "Grande artigo de opinião e grande lição de portuguesismo e de regionalismo.

São destes "piegas" que a Madeira e o Portugal de hoje precisam.

Os meus sinceros parabéns. A lição cá fica. Aprender até morrer.

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'E no mínimo imcompreensivel como ainda ninguém foi capaz de fazer um comentário a este precioso artigo de opinião. A segurança e continuidade dum povo, reside nos conselhos e na sabedoria dos mais velhos, mas pelos vistos, damos mais importancia às palavras que queremos ouvir, em detrimento da realidade nua e crua. Bem Haja Dr. Gaudêncio.

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