(...) os discursos de falsa preocupação dessa gente que sorri diante de nós mas que pensa que é assim mesmo, afinal, estamos velhos e temos de morrer, um primeiro e o outro depois e está muito bem. Sorriem, umas palmadinhas nas costas, devagar que é velhinho, e depois vão-se embora para casa e esquecem as coisas mais aborrecidas dos dias. Onde ficamos nós, os velhinhos, uma gelatina de carne a amargar como para lá dos prazos. Que ódio tão profundo nos nasce. Como incrivelmente nos nasce alguma coisa num tempo que já supúnhamos tão estéril. (...)”
valter hugo mãe, a máquina de fazer espanhóis
Na semana em que se soube que mais de 900 idosos – este eufemismo é ridículo depois de se ler o livro em questão, por isso chamamemos os seniores (este ainda é mais absurdo) pelos nomes. Velhos são velhos, assim como adolescentes são novos. O problema não está na terminologia. O desrespeito não vem daqui. A pior falta de consideração é o esquecimento.
Mas recomecemos. Mais de 900 velhos vivem sós. Sem ninguém para os apoiar, a não ser a Segurança Social. Só na Madeira. Outros tantos são abandonados nos hospitais ou depositados em lares de terceira idade, para que fiquem, longe da vista, à espera da morte. Tem-se a ilusão que a morte é mais inevitável quando se é velho, mais uma falácia...
E isto num país onde não há idade que escape aos problemas sociais - não é para velhos, nem para novos - deixa os que têm mais idade secundarizados na escala das preocupações e prioridades.
É uma faixa onde não vale a pena investir, porque o retorno é diminuto, pensa-se. Num hospital público do continente, um médico escandalizava-se há dias com a atribuição de uma pulseira vermelha (urgência máxima) a um velho de mais de 90 anos. Não há pressa para viver nesta idade, terá pensado o doutor. “Esse velho é o meu pai”, disse a filha preocupada ao doutor desumanizado.
Não há dúvida que não sabemos lidar coma velhice. Aumentou-se a esperança média de vida ao longos dos anos, mas não se aprendeu a ser velho e a viver com os velhos. A demência, os quadros clínicos associados à idade avançada não são pêra doce para encaixar no quadro familiar dos dias que correm.
Mas se não vamos deixar os nossos filhos perante cólicas difíceis, choros compulsivos e noites impossíveis à porta do vizinho, porque cedemos tão facilmente a essa tentação quando se trata dos nossos pais ou avós?
A tendência é mais uma vez atirar as culpas para os governos, que, efectivamente, têm responsabilidade pelas magras pensões, pelo pouco investimento em infraestruturas para esta faixa. Mas cada vez que oiço a estória de mais uma pessoa de larga idade encontrada morta sozinha, sem que ninguém se aperceba do seu desaparecimento, não consigo deixar de pensar que os culpados somos todos nós, a sociedade.
Que ainda não percebeu que a prazo será também ela velha. Ou se preferirmos idosa.
...VIGIEM O AVIÃO PRIVADO QUE ESTÁ EM SANTA...


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