último comentário

Ensaio sobre o presente

Insólitas são as consequências que esta votação está a ter: dir-se-á que os maiores partidos perderam o norte

 
Violante Saramago Matos
10 comentários
Ferramentas
Interessante
Achou este artigo interessante?
 

Artigo 21º da Declaração Universal dos Direitos Humanos «1. Toda a pessoa tem direito de tomar parte na direcção dos negócios públicos do seu país, quer directamente, quer por intermédio de representantes livremente escolhidos. 2. Toda a pessoa tem o direito de acesso, em condições de igualdade às funções públicas do seu país. 3. A vontade do povo é o fundamento da autoridade dos poderes públicos e deve exprimir-se através de eleições honestas a realizar periodicamente por sufrágio universal e igual, com voto secreto ou segundo processo equivalente que salvaguarde a liberdade do voto.»

Já lá vão dez dias sobre as eleições presidenciais e muito ainda haverá de ser dito, à medida que os acontecimentos se sucederem.

Fui parte interessada nesta disputa o que me obrigou, por razões de ética e compromisso, a alguma contenção. Retomada a minha simples condição de cidadã, tudo fica mais simples e as coisas assumem os respectivos nomes.

Campanha? Simplesmente não houve, tomando como base que uma campanha é controvérsia, defesa/crítica, pontos de vista, princípios, ideologia. De todos os lados. O que não aconteceu. Um dos lados calou-se, não deu respostas, não esclareceu nada - obstinada e deliberadamente. E a maioria dos votantes concorda com isso. Acha mesmo que não só não tem qualquer espécie de importância que subsistam dúvidas sobre a seriedade e a idoneidade de um candidato, como ele deve ser premiado.

A certa altura, quando a pressão aumentou porque os necessários esclarecimentos se impunham, houve uma ligeira vacilação na campanha de Cavaco, que rapidamente percebe que a saída está no ataque ao governo. Governo que, objectivamente, lhe abriu o caminho, tal a quantidade e a dimensão de medidas injustas e anti-populares que faz sair durante a campanha. Não tenho nenhuma dúvida que, até certa altura, o governo esteve convencido que o presidente que lhe servia era Cavaco e que só na última semana percebeu, face aos acontecimentos, que este é o presidente que na primeira oportunidade lhe vai cavar a queda. Seria bem feito, se as consequências não recaíssem sobre todos nós porque, não haja grandes dúvidas, o que espreita para chegar ao poder não é melhor.

Não faço parte dos que acham que o carácter é uma coisa e a política é outra. Não, bem pelo contrário. Um cruza-se com a outra, nos mais pequenos gestos e, sobremaneira, quando o que está em causa é uma eleição unipessoal. E o carácter do reeleito presidente da República ficou, se dúvidas houvesse, comprovado no discurso da vitória, tão cirurgicamente avaliado nas palavras de Soromenho Marques «mais bárbaro que um vencido que não aceita a derrota, é um vencedor mais pequeno que a sua própria conquista»!

Aqui, poucos esperariam os 39% obtidos por um candidato sem programa nem propostas, que disparou para todo o lado, com ou sem razão, e cuja regra de ouro foi mostrar-se como o único impoluto, o único sério. Fez teatro, 'a plateia pagou-lhe'.

Insólitas são as consequências que esta votação está a ter: dir-se-á que os maiores partidos perderam o norte.

Um, insiste numa plataforma e sujeita-se a ouvir em voz alta que já ninguém a quer. A partir daí, fica uma tremenda sensação de vazio. Tanto maior, quanto maior tenha sido a expectativa.

O outro, fala na injustiça/confusão dos eleitores, como se não soubesse que aquela votação além de expressar o desagrado com as políticas do governo da República, é a primeira e muito séria penalização à actuação do governo da Região.

Anos de experiência já permitiram ensaiar o contra-ataque no último fim-de-semana, ainda que não fossem capazes de impedir a confissão de que a podridão está a avançar e a fazer estragos, por dentro. Foi no congresso dos jotas que, entre a berraria e os insultos, mostram que aprenderam bem a lição com os seniores e que, assim, se aprestam para dar seguimento a um novo acto deste lastimável e penalizador espectáculo, em que se transformou a governação jardinista.

Quanto a nós, das duas uma: ou aplaudimos ou rasgamos o bilhete.

10

Comentários

Este espaço é destinado à construçăo de ideias e à expressăo de opiniăo.
Pretende-se um fórum constructivo e de reflexăo, năo um cenário de ataques aos pensamentos contrários.

0
updown

Nunca mais acabam de ensaiar ! Já ensaiam há 36 anos e nada ! Já estamos fartos de esperar ! Então quando é que começa o jogo a sério ?

0
updown

Desculpe a minha intromissão, mas acho que merece um voto de apreço pela dedicação e envolvimento que mostrou na defesa do candidato que defendeu e em que eu votei.
A vida continua, até talvez melhor quando estamos de consciência tranqulia, o que só pode ser o seu caso.

-1
updown

Só existe uma esquerda em Portugal, só existe uma direita, o resto é paisagem .....!
Seria óptimo existir outras correntes..outros discursos...mais liberais..mais conservadores ...mais extrema direita..mais extrema esquerda...mais activismo...mais intervenção..mais operacionalidade..!!
Petições ...de rua...combate...confronto de ideias ......Em suma : ACABAR COM ESTE RANGUE RANGUE...!!

0
updown

Como já deixei expresso por este mesmo orgão de comunicação, o ilustre poeta M. Alegre, devia calçar umas pantufas bem quentinhas, e sentar-se à lareira, dando continuidade aos seus belos poemas, deixando as lides governamentais para os mais jovens e arejados políticos.
Quem, dos cotas da minha geração, já esqueceu o que fez este senhor como ministro da educação no pós 25 de abril? Foi uma reforma tão absurda, seguinda e aprofundada pelos ministros seguintes, que até aos nossos dias, nunca mais houve ensino capaz no nosso pobre país. Na altura, era eu estudante no Liceu Nacional dos Casquilhos, Barreiro, e baseado numa carga policial sobre nós estudantes do mesmo concelho entre a saída do ministro Fraústo da Silva e Entrada de Soto mayor Cardia, escrevi um poema sobre o nosso ensino, que se a memória me ajudar, represtinarei neste comentário:
O ENSINO EM PORTUGAL (Barreiro 1980)
Não sou cético nem dogmático. Não sou ateu nem sou crente. Mas vejo em sentido prático. O mesmo que toda a gente!.... Temos um corpo docente?... Por mim afirmo que não. Temos é um corpo doente.. Por falta de nutrição... Tentou-se um ensino Alegre. Foi uma esperança Cardia. Increspou-se em tempo breve. Fraustrados, Seabra outro via... Que a lanterna de Deogenes. Se acenda mais uma vez. A ver se ainda existem homens. Com um mínimo de sensatez. Que às nossas reivindicações. respondam com mais justiça. Não com a força dos bastões. Nem ESCUDOS da polícia. Que surja um ensino novo. Que não seja vigairista.Porque este meu rico povo. É ensino à salazarista...
Infelizmente o meu desejo ainda não se realizou. Mas se há coisas que nós portugueses temos em grande quantidade, uma delas é a esperança!... Aguardemos.

0
updown

“Não tenho nenhuma dúvida que, até certa altura, o governo esteve convencido que o presidente que lhe servia era Cavaco …”. Frase retirada do texto.
Pode ser que sim, pode ser que não! Mas se o PS tem o antídoto para a bomba atómica “no bolso”, então eu acredito que, de facto, Cavaco era o candidato ideal. Para bom entendedor, meia palavra…

3
updown

Parabéns à autora do texto pela lucidez com que, desta vez, analisou o actual momento político madeirense, pós-eleições presidenciais!
Concordo com Violante Matos, quando diz que é uma perda de tempo falar numa plataforma que ninguém quer. Resta apenas acrescentar que há uma pessoa e um partido que a quer, mesmo que ela seja contra-natura: Jacinto Serrão e o PS-M. Eles agarram-se a essa tábua de salvação, porque sabem que a sua sobrevivência política e continuação de usufruto de mordomias depende da manutenção da liderança da oposição, agora mais do nunca em risco por inércia e mais do que provável penalização do eleitorado à má governação socialista na República. Metendo todos os partidos no mesmo saco, os prejuízos serão irmanamente distribuídos, o que permitirá amortecer mais facilmente os efeitos. Todos os partidos da oposição já perceberam isto, sobretudo o PND, mas Jacinto Serrão continua a fingir que está bem intencionado.

-1
updown

esta senhora não assume a tristeza da sua derrota pessoal, política. humilhante. ridiculo. teve 7%.

-2
updown

Deve ser uma grande frustração ver o candidato por quem se trabalha não só não ganhar como ficar atras das mais modestas epectativas.
A verdade é que Alegre não tinha nada de novo para mostrar , nem para dar ao país. Era o candidato do sistema . Os portugueses não são burros e sabem que ele é um dos que esta sentado diariamente na AR a aprovar a governação do Partido Socialista que para além de ter colocado Portugal a pedir esmola , cortou os ordenados, retirou os abonos, cortou nas comparticipações na saúde ( e mais não digo senão perdia o dia aqui a enumerar as barbaridades cometidas pelo PS do Jacinto Serrão).
Concluindo Dª Violante , mais um derrota!!!

2
updown

Para sua informação, Manuel Alegre não é deputado desde Setembro de 2009.

-1
updown

Comentários para quê?
Quando olhamos para o Eleito e sentimos consternação, mas... à volta é o grande vazio, "das duas uma": ou iniciamos as sessões de "chaise long" ou vamos para o Tibete... de jumento para demorar bastante!

O nome que será apresentado como autor do comentário.
O conteúdo deste campo é privado e não será exibido publicamente.

Outras relacionadas...