Artigo 21º da Declaração Universal dos Direitos Humanos «1. Toda a pessoa tem direito de tomar parte na direcção dos negócios públicos do seu país, quer directamente, quer por intermédio de representantes livremente escolhidos. 2. Toda a pessoa tem o direito de acesso, em condições de igualdade às funções públicas do seu país. 3. A vontade do povo é o fundamento da autoridade dos poderes públicos e deve exprimir-se através de eleições honestas a realizar periodicamente por sufrágio universal e igual, com voto secreto ou segundo processo equivalente que salvaguarde a liberdade do voto.»
Já lá vão dez dias sobre as eleições presidenciais e muito ainda haverá de ser dito, à medida que os acontecimentos se sucederem.
Fui parte interessada nesta disputa o que me obrigou, por razões de ética e compromisso, a alguma contenção. Retomada a minha simples condição de cidadã, tudo fica mais simples e as coisas assumem os respectivos nomes.
Campanha? Simplesmente não houve, tomando como base que uma campanha é controvérsia, defesa/crítica, pontos de vista, princípios, ideologia. De todos os lados. O que não aconteceu. Um dos lados calou-se, não deu respostas, não esclareceu nada - obstinada e deliberadamente. E a maioria dos votantes concorda com isso. Acha mesmo que não só não tem qualquer espécie de importância que subsistam dúvidas sobre a seriedade e a idoneidade de um candidato, como ele deve ser premiado.
A certa altura, quando a pressão aumentou porque os necessários esclarecimentos se impunham, houve uma ligeira vacilação na campanha de Cavaco, que rapidamente percebe que a saída está no ataque ao governo. Governo que, objectivamente, lhe abriu o caminho, tal a quantidade e a dimensão de medidas injustas e anti-populares que faz sair durante a campanha. Não tenho nenhuma dúvida que, até certa altura, o governo esteve convencido que o presidente que lhe servia era Cavaco e que só na última semana percebeu, face aos acontecimentos, que este é o presidente que na primeira oportunidade lhe vai cavar a queda. Seria bem feito, se as consequências não recaíssem sobre todos nós porque, não haja grandes dúvidas, o que espreita para chegar ao poder não é melhor.
Não faço parte dos que acham que o carácter é uma coisa e a política é outra. Não, bem pelo contrário. Um cruza-se com a outra, nos mais pequenos gestos e, sobremaneira, quando o que está em causa é uma eleição unipessoal. E o carácter do reeleito presidente da República ficou, se dúvidas houvesse, comprovado no discurso da vitória, tão cirurgicamente avaliado nas palavras de Soromenho Marques «mais bárbaro que um vencido que não aceita a derrota, é um vencedor mais pequeno que a sua própria conquista»!
Aqui, poucos esperariam os 39% obtidos por um candidato sem programa nem propostas, que disparou para todo o lado, com ou sem razão, e cuja regra de ouro foi mostrar-se como o único impoluto, o único sério. Fez teatro, 'a plateia pagou-lhe'.
Insólitas são as consequências que esta votação está a ter: dir-se-á que os maiores partidos perderam o norte.
Um, insiste numa plataforma e sujeita-se a ouvir em voz alta que já ninguém a quer. A partir daí, fica uma tremenda sensação de vazio. Tanto maior, quanto maior tenha sido a expectativa.
O outro, fala na injustiça/confusão dos eleitores, como se não soubesse que aquela votação além de expressar o desagrado com as políticas do governo da República, é a primeira e muito séria penalização à actuação do governo da Região.
Anos de experiência já permitiram ensaiar o contra-ataque no último fim-de-semana, ainda que não fossem capazes de impedir a confissão de que a podridão está a avançar e a fazer estragos, por dentro. Foi no congresso dos jotas que, entre a berraria e os insultos, mostram que aprenderam bem a lição com os seniores e que, assim, se aprestam para dar seguimento a um novo acto deste lastimável e penalizador espectáculo, em que se transformou a governação jardinista.
Quanto a nós, das duas uma: ou aplaudimos ou rasgamos o bilhete.
...VIGIEM O AVIÃO PRIVADO QUE ESTÁ EM SANTA...


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