Alastram as teorias da inexistência da Madeira enquanto região com habitantes normais dentro. Julgando pelas oratórias mais recentes, aquelas sombras no mapa representarão, se tanto, a pérola atlântica dos prospectos turísticos, um paraíso mítico abundante em bem-aventuranças. Políticos, parapolíticos, religiosos e outros quadros ilhéus maldizem com obsessão a calamidade em moda. Mas a do Continente. Ao passo que, cercado por dramas a toda a volta, o povo modorrento medita nos mistérios da identidade. Quase duvidamos dos sentidos. Serão mentira as ilhas reféns de uma ditadura a cair de velha que domina sem que a vejam e a combatam? Será real um chefe ocupado em viagens turísticas e a criar altercações com quem lhe paga mordomias? Haverá mesmo este feudo onde a prepotência constitui estatuto de virtude e a 'caça às bruxas' o de militância patriótica? Será físico o lugar com quase 20 mil desempregados, resultados escolares desastrosos, pobreza extrema, esbanjamento do erário, perseguição a jornais, e onde os comandos sacodem a realidade para outro território, legitimados pela inércia dum 'povo superior'?
Ao contrário da Atlântida, mito platónico discutido ainda hoje, para este regime não há dúvidas: a Madeira não existe, ponto final.
Para anestesiar as hostes locais, chefe ilhéu preocupa-se com a ruína - do Continente. A maioria parlamentar descortina situações alarmantes - na Lusitânia. Aves de rapina volitando na órbita real imprecam o governo - nacional. O jornal do regime, que é regional, despeja libelos arrasadores sobre o executivo - o de lá, socialista. Cavalgando o mote, a Igreja foca as desgraças infligidas ao povo - no país. Domingo, o pároco de Machico zurziu o Estado Social, que permite ao rico "explorar uma maioria cada vez mais pobre". Aberrações com melhor visibilidade à distância. A prédica desancou "governantes incompetentes" e "bispos sonolentos". Raspanete oportuno para a situação nacional, porém mais-que-perfeito seria se chicoteasse a Madeira, sem arrebiques. Como ouvir o pregador assestar bocas de fogo para lá, sobre uma "governação que cria ódios e opressão", e não evocar o aparelho que, aqui mesmo, deita sebo debaixo da corsa desconjuntada a caminho do abismo?
Com mais assombro ressoa o discurso do chefe. Sem espelhos pelo meio, atira-se ao continente 'como gato a bofe', invocando a "desumanização" e a falta de "valores e causas" naquelas bandas! Fá-lo apesar de mentor da desumanização nas ilhas. Ciente de que costuma instigar, diante de bombeiros ou das crianças de uma creche, à violência e à tranquibérnia.
Quando um líder diz registar o "sentimento generalizado de que é preciso fazer qualquer coisa", a "falta de ousadia democrática para mudar" e até "medos tornados pandemia", eloquente discurso que seria se visasse a Madeira! Medos, saneamentos na Informação, vingança contra escritórios fora da cor, asfixia de empresas 'inimigas', cobranças políticas à conta de subsídios e favores, e ai dos mal-agradecidos!
As guerras na praça atiçadas pelo poder. Ameaças ao empresariado que anuncia no Diário. Aquele chocante e profanador ultraje à memória de um homem, só para atingir o descendente que terá pisado o risco do redil. Aqui, se o governo agiu em consciência quando colocou no Hospital Central o nome de Nélio Mendonça, ninguém lhe deve agradecimento. Se encarou tal homenagem como favor ou demagogia, não o devia fazer, porque ofensa ainda mais grave. Em todo o caso, comprova-se que esta Madeira, sim, é palpável, uma terra onde o enxovalho vem de cima - e sem limites, a ponto de envolver a memória de um cidadão que em vida recebeu rasgados louvores da parte do chefe - pelos vistos vãos e falsos.
Mas os problemas sérios moram no Continente. Porque suas excelências vêem mal ao perto ou o delírio lhes diz que não existimos. Terceira hipótese: decidiram perpetuar o hediondo escárnio há muito vazado sobre uma população inteira.
Preocupadíssimo, o regime alerta contra "a dependência do estrangeiro em que Portugal se deixou cair". E bom, se isso não é escarnecer da situação alarmante da Madeira, imersa em dívidas até às faldas do Pico Ruivo, não sabemos que dizer.
"Que se passa com este povo?", escreve o chefe, olhos grudados no Continente. "Este governo tem de cair", a situação "dá vontade de chorar", complementa ele, tirando-nos as palavras da boca. Sem pejo, conclui que "o povo é que tem culpa de tudo, porque votou no governo". A quem o diz!
Até o Chefe de Estado, o presidente de São Bento, ERC, AdC e TC, quando não elogiam o "democrata exemplar" inexistente, se abstêm de cumprir as respectivas missões face a gritantes injustiças lavradas na Madeira. Pois: como disciplinar e multar uma ficção?
O povo hipnotizado. Quando o dedo aponta à beleza do luar, o cretino, idiota, fica a mirar o dedo; o regime aponta à crise continental e o madeirense, superior, olha mesmo o continente, fingindo não ver a sua própria desgraça.
"Auto-estima violentada", "demissão das elites", "burguesia estúpida" - é tudo lá fora, diz o regime. O povo, solidário, reza pelas vítimas de Freixo de Espada à Cinta, da Vidigueira.
"Ainda não estão fartos e dispostos a limpar isto?!", carrega chefe. "Querem continuar a ser gozados?" Pois.
É tempo, conclui, de "enfrentar a besta, de uma vez por todas".
A 'besta' é o sistema nacional. Quanto à Madeira, zero problemas a registar. Quando muito, o ataque lisboeta a certa dupla mensalidade. Provocação que acabará nos tribunais da Europa. O Orçamento de Sócrates castiga o massacrado madeirense? Aí o campeão da "autonomia de treta" não pode "ir contra a lei". Pelo contrário, ajuda a engordar impostos, porque o eleitoral 2011 preconiza inaugurações com música e foguetes.
Atormentado, chefe recita Bocage: "Liberdade, onde estás? Quem te demora?"
Acontece. Esconde-se uma coisa tão bem escondida que nem pedindo a lanterna a Diógenes.
...VIGIEM O AVIÃO PRIVADO QUE ESTÁ EM SANTA...


31 comentários

