Rompendo a cerração inerente ao dia de finados, o arraial troou segunda-feira no Curral profundo. O alarido a cores garridas só baixou de volume à hora do palavrório. Deleitado no ambiente predilecto, ai-jesus embevecido com "o apoio e a companhia do povo", o orador predicou em mais uma acção de campanha eleitoral dedicada a 2011, com a veemência das já realizadas desde o milagre da ressurreição política, em 20 de Fevereiro.
A propaganda brotou como erupção vulcânica expelida das entranhas curraleiras. Palavras em brasa a incandescer os anteparos da cratera, lava trepando até à vertigem dos píncaros da Boca dos Namorados, Boca da Corrida, Eira do Serrado, um turbilhão de fogo a galgar basalto e cerejeiras, espalhando pelos casais aturdidos a mensagem superior.
De provocante colar de castanhas ao pescoço, apoiado por políticos locais, pelo secretário Manuel António e até pelo novo padre da freguesia, legitimação beata da santa aliança, chefe surpreendeu ao reconhecer a "autonomia de treta" em vigor. Toda a gente o sabia. Mas, vindo de um campeão das autonomias... 'Treta' porquê?
O governo regional queixa-se de não poder baixar impostos e da obrigação de aplicar os apertos orçamentais de Sócrates. O que nem é tão verdade assim. Mas o governo lá vai arengando, para sacudir dos ombros a 'treta' da autonomia. Ora, revolvendo as vísceras do caduco regime: a autonomia é uma 'treta' porque os chefes nativos sempre guiaram a Madeira à luz e ao tilintar do dinheiro fácil do Estado e da Europa. Privilegiaram viadutos, estradas e túneis, mas também a ilusão de sumptuosidades desnecessárias e os encargos da subsidiodependência eleiçoeira. Esbanjamento à tripa-forra. Investimento de retorno zero. Economia produtiva tradicional esvaída ou abandonada pela 'Madeira nova'. Sem um cérebro que pensasse na inevitabilidade cíclica da História. Muita fartura, véspera de miséria. Quando, com um planeamento certeiro, o fluxo dos milhões daria para lançar as bases de um modelo capaz de suster as crises externas e internas. O 'alapanço' ao poder afectou o sentido de Estado. A dependência recuperou terreno. A auto-sustentação é uma 'treta'.
Finado o propalado autonomismo a Madeira não se manda. E fazem pensar as ofensas veladas aos nossos antepassados da Primeira República e da Segunda, atribuindo-se-lhes incompetência política e cobardia ante Lisboa.
Pestana Júnior, Augusto Martins, tantos operacionais da marcha para o 5 de Outubro. Correia Herédia, que deitou fora o título de visconde para defender os interesses da Madeira e de Portugal. Os irmãos Olavo, que na I Grande Guerra combateram entre milhares de conterrâneos na Frente gaulesa, caindo prisioneiros dos 'boches'! O capitão Frazão Sardinha, democrata e com a coragem de desafiar para duelo o adversário cuja baixeza exigisse reparação no campo da honra. E aqueles que, de rosto descoberto, pugnaram pela autonomia até 1926, injustamente acusados de 'independentistas'. Que estiveram em 1931 na revolta insular contra a Ditadura colonial instalada em Lisboa. Os oficiais Zeferino Conceição, Spínola Barreto, Ernesto Machado, Cristóvão Ascensão, Ernesto Aciaiuoli, Correia de Gouveia, Jaime César de Oliveira, Flávio Albuquerque, o alferes Gonçalves, entre tantos. Gabriel Pereira, que ocupou o governo de Bissau em apoio à Revolta da Madeira. Todos expulsos das Forças Armadas, desterrados para África e mais tarde marginalizados, profissional e socialmente. Como aconteceu com a maioria dos revoltosos civis - Vasco Marques, Pestana Júnior, Elmano Vieira, Lúcio Tolentino da Costa, o Horácio de S. Vicente, Azeredo Pais, Félix Pita, Cautela Júnior, Teodoro Silva, José Varela, Sargo Júnior, o Firmino Caldeira dos cinemas, o guarda-redes do Nacional Jóia, o José Pereira do Marítimo, quantos!
Como reagem os descendentes hoje, ao sentirem a memória dos heróis profanada por um ciúme esquisito e anacrónico, disfarçado atrás de uma fria homenagem anual, a 4 de Abril? Os ilhéus revoltosos em 1931, a par dos deportados e dos bravos de Metralhadoras 1 e Caçadores 5, fizeram tremer a Ditadura, conscientes da derrota certa, dada a cobardia dos democratas então no Continente. Mas foram amparados e vibrantemente aclamados durante todo o mês de tensão, nas ruas e nas trincheiras, pelo povo madeirense em peso, indiferente ao bloqueio naval à frente do calhau e às incessantes flagelações aéreas.
Os revolucionários de 1931 jamais quebraram. Até ao fim das suas vidas persistiram fiéis aos ideais.
Hoje, uma 'autonomia de treta' encolhe em S. Bento os delegados da maioria doméstica. Corifeus e acólitos imprecam os 'maricas de Lisboa' e os 'chulos da III República' brandindo a autonomia para simular destemor. Ofendem de longe, evitam disputas eleitorais por lá e fogem aos sinédrios do Estado onde deviam comparecer para reproduzir, cara a cara, as expressões carroceiras. A autonomia malcriada degenerou numa 'autonomia de treta'. Não há poder para amaciar impostos nem meios para proteger o povo que acreditou na transformação do basalto em ouro.
Na escassez da Guerra de catorze, os vapores cheios de milho e trigo faziam curta escala no Funchal, para meter carvão, e zarpavam à pressa porque Lisboa ansiava pelo abastecimento. Os madeirenses, famintos, ficavam 'a ver navios'. Até que, no paroxismo do desespero, o governador interino Jardim de Oliveira, advogado de S. Vicente, deu ordens para que o 'Beira' e o 'Portugal' só partissem depois de 'aliviarem' os porões de toda a carga destinada à capital. O trigo e o milho vieram para terra. E durante semanas o povo comeu. Quando a nota do governo central chegou de Lisboa com a demissão, já o intemerato Jardim de Oliveira, desde a varanda de sua casa, dizia à multidão que o aclamava ter-se limitado a cumprir o dever de madeirense.
Há estados de espírito mais gratos do que o penacho.
Outrora, a autonomia era um trapo administrativo. A coragem dos homens não era uma 'treta'.
...VIGIEM O AVIÃO PRIVADO QUE ESTÁ EM SANTA...


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