A derrocada do cimento

Desaba o betão levantado na 'Madeira nova'. Mas a argamassa mental resiste

 
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Se as falências de empresas ocorressem com cerimónia fúnebre, a 'Madeira nova' andaria todos os dias de luto e os cangalheiros refulgiriam como novos-ricos da crise. Já longe dos empreendimentos megalómanos inaugurados com muita espetada, americano e discursos a esmagar os 'inimigos do desenvolvimento', chefe e  sagitários do regime deveriam comparecer agora ao funeral de cada 'obra feita'. Com obrigação de carpir o conhecido discurso verborreico no elogio fúnebre à 'obra' finada.
O eleiçoeirismo de 30 anos só poderia levar ao velório que serve de transição para um período de nojo financeiro capaz de deprimir várias gerações do futuro.
Por enterrar apodrecem entretanto projectos da 'Madeira nova' que não atingiram o estatuto de 'obra feita', tendo-se extinto antes da gloriosa inauguração.

O Minas Gerais vai abaixo. Aplausos. Insinua-se o derrube de um triste mamarracho. Mas o povo inocente que vá abrindo mais furos no cinto da miséria. Governo, câmara e promotores da obra planearam e fabricaram tal 'elefante'. Mas, depois de longa polémica, ei-los que agitam a demolição. Alguém prestará contas? O diabólico prédio não trepou com autorização oficial? Os promotores não construíram acima do estipulado? Bom, escuso cansar o raciocínio. Não há culpados. A sentença repete-se: tubarões erram, o povo paga.

A conta não poupará sequer os 'inimigos da Madeira' sempre críticos daquela preciosidade. Quanto aos 'amigos da Madeira' - governantes, autarcas e promotores -, saem incólumes do esbanjamento. Paira até sobre a estátua do Infante o espectro de uma depravada indemnização.

Peculiaridades do regime laranja, herdeiro de 1926. Os barões da nota arriscam. Se resultar, dilatam a fortuna. Se falhar, paga o povo.
Generaliza-se a derrocada do jardineirismo cimentado. Desponta à evidência o rotundo fracasso de políticas sociais, económicas e financeiras loucas, sem ponta de sustentação.

Hotéis inaugurados a preceito, com discursos politiqueiros, caem hoje nas mãos dos bancos credores. Rua das Pretas, Rua dos Tanoeiros, Carreira, tantas outras de passado comercial glorioso, desenham a carvão uma capital fantasmagórica de montras forradas a papel de jornal crestado. Máquinas e camiões pastam nos estaleiros desactivados e em baldios. Construções inacabadas de cavername exposto jazem morbidamente em plena zona hoteleira.

O apregoado esplendor desenvolvimentista dá lugar a um montão de vigas e jactâncias encarquilhadas. A marina lá para oeste. Fóruns megalómanos como o de Machico onde funciona talvez um cabeleireiro. Ou o da Boaventura-Santa Cruz, com meia dúzia de automóveis nos parques e, que se veja, um ou dois cafés às moscas. Paga o povo.

Centros cívicos desproporcionais penam inactivos. Paga o povo.
Estádios e pavilhões em freguesias a dez minutos umas das outras - paga o povo.
Paga o povo porque alguém já recebeu. E a factura mais dolorosa ainda vem a caminho.
Quem se lembra de inaugurações pomposas em parques industriais lançados para pasto de cabras? Paga o povo.

Arrasa toda uma História a política errada para o desporto lançada com a usurpação governamental de dois grandes clubes, que com o suor dos seus sócios e o arrojo dos dirigentes haviam atingido brilhantemente o topo do futebol nacional. O regresso aos regionais de dezenas de clubes, depois de milhões deitados fora numa insípida III Divisão, é prova do malogro. Quem paga? O povo.

À conta de práticas desovadas de um narcisismo fanático, a dívida insular atinge hoje uma cifra impossível de reproduzir nestas linhas, pelo tamanho. De provocar dores de cabeça ao mais libertino. Mas toda a gente sabe: questionar a dívida é ser 'inimigo da Região'; lamentar os 15 mil conterrâneos desempregados é pactuar com os 'comunas'; chorar os sem-abrigo que emborcam 'Ganita' à porta do Carmo e nas escadas do Anadia é 'ofender os madeirenses'; alertar para a galopante pobreza é 'trair a Autonomia'; criticar mordomias revela distorção psíquica.

Papagueiam a teoria do chefe uns mestres do oportunismo e da veniaga conglobados em redor do trono: 'bom madeirense' é o que "cala a desgraça". Como o vento denunciado por Alegre. Calar, dormitar, calar - eis a postura correcta de um patriota, diz 'a voz do dono'. Daí os vivas à IV República. A ânsia por um regime ainda menos livre. Daí o ódio à I República. Daí a tese escrita pelo chefe: a monarquia constitucional foi "mais liberal e mais tolerante do que a I República". Já Guerra Junqueiro apontava o 'Único Importante' da monarquia: "O Estado é o rei. Cidadão há um único: D. Carlos. Os deveres são nossos, os direitos, dele. Estrangula-me as ideias, arromba-me a gaveta."

Saudar o esqueleto da realeza é o mais natural nas actuais mentes fossilizadas que aturamos. Belos tempos os do 'come e cala'. Poeta Junqueiro chorava, no tempo do rei, "um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonha, feixes de miséria, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia de um coice, pois que já nem com as orelhas é capaz de sacudir as moscas." Acusa Junqueiro "uma burguesia cívica e politicamente corrupta até à medula, já incapaz de distinguir o bem do mal, sem palavra, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas". E a raiva do poeta ante um parlamento que não passava de "esfregão de cozinha" às mãos do governo que servia o rei.

Raio de cogitações comparativas com o parlamento de hoje...
O cimento!  O cimento da 'Madeira Nova' e das suas minas gerais ruirá. Mais difícil, neste 'calar da desgraça', será resgatar a dignidade popular da argamassa de incultura e medo. Porém, "mesmo na noite mais triste, em tempo de servidão, há sempre alguém que resiste, há sempre ..."

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Comentários

Este espaço é destinado à construçăo de ideias e à expressăo de opiniăo.
Pretende-se um fórum constructivo e de reflexăo, năo um cenário de ataques aos pensamentos contrários.

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Uma desmontagem da vertigem gastadora do "sistema" fruto de uma auto-imagem de omnipotência política do seu protagonista.
Ou seja, haverá sempre uma forma política de resolver a questão das contas. Eu resolvo. Puro engano!
Estamos no "suprime" no Jardinismo. A bolha do endividamento sem critério ameaça explodir, e o fantasma de uma hipoteca monumental quer reclamar os seus créditos à porta de cada família da nossa terra.
O seu artigo é objectivamente uma sucessão de exemplos de dinheiros mal gastos, ou seja fora da razoabilidade.
Megalomanias não dos ricos, mas dos pobres, já que os ricos são ricos por não aplicarem o seu dinheiro desta forma. A Madeira, graças a enormes recursos disponíveis, já atingiu à muito um nível de infraestruturação razoável. Há muito que o dinheiro a gastar era num projecto de futuro sustentável fruto de uma análise descomprometida das nossas potencialidades e de boas ideias.
Dinheiros gastos, que não foram sancionados pelos cidadãos, viciados na novidade, às três perguntas fundamentais:
É necessário?
É necessário mas justifica-se a dívida?
Justifica-se hipoteticamente a dívida, mas estando de tal forma hipotecados não será melhor primeiro sanear as dívidas e depois usar com racionalidade os recursos disponíveis?

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Folgo muito de saber que apesar da mordaça, algumas mentes não se calam e a coragem prevalece! Parabéns.

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Grande comentário . PARABÉNS SR LUIS CALISTRO !

MAS COMO DAR A VOLTA a ESTE ESTADO DE COISAS ??

Proponho aqui noutro comentário um 25 de Abril com Sangue , respondem-me que tenho mente turbilhão, proponho que os madeirenses venham a Lisboa , em massa, no dia da Greve Geral e desfilem na Avenida para denunciar estas atrocidades..e propoem que seja o meu sangue a ser derramado !!

Um povo deprimido e acomodado , nunca mais dará a " volta" !!??
Caro Luis Calistro, por cá , no Continente, a ALAMEDA AFONSO HENRIQUES continua vazia, apagada e triste !! As loja em saldos , os alugueres que não se concretizam , os leasings que não são aprovados , as dividas acumulam-se..os restaurantes vazios , stress nos supermercados em hora de ponta...facturar implica muitos muitos sacrificios , significa sair cedo e chegar tarde , significa sacrificar os sentimentos, significa polivalência,a semana inglesa que não existe, significa sangue suor e lágrimas ..!!
E... vamos ser francos os madeirenses residentes são pouco dados a esta filosofia !!
Por isso ...a CONVERGÊNCIA DEMÓCRATICA que eu defendo é a UNIDADE NACIONAL .. ..! Não me arrepia e entrada do FMI , não me causava transtorno ver do BLOCO á SOCIAL DEMOCRACIA ..um governo de SALVAÇAO NACIONAL e " descascar" as contas públicas da RAM !!!

Atençao á cobiça do exterior " A CHINA QUER COMPRAR PARTE DA NOSSA DIVIDA " , estou desconfiado !!

Parabéns !! " ...há sempre alguém que resiste ..."

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MIGUEL GOUVEIA, acabei de lhe enviar uma trégua e um convite à unidade por aqui http://www.dnoticias.pt/impressa/diario/opiniao/232797-ranking.
Depois de se ler este desabafo doloroso do Sr. Luís Calisto, reforçado com as as palavras do Junqueiro, a escolha coloca-se claramente em termos de "pegar ou largar"! Eu li e reli e 'peguei' neste artigo com unhas e dentes, mandei-o por email, pelo Correio e 'dele' ando com cópias, para passar a mensagem - aqui na estranja.
Acredite que estou satisfeito com algumas passagens deste seu comentário. Procure compreender a minha condenação dos seus apelos: a destruir carros em frente dos ministérios; a um 25 de Abril com sangue; e a outros comentários disparatados que eu classifiquei de maluqueiras produzidas por uma mente tipo turbilhão.
É verdade, recorro frequentemente à 'cacetada e à cenourada' no debate político-ideológico quotidiano, mas sempre munido do desejo de unidade. Ontem em campos opostos? A partir de hoje no mesmo campo contra o jardinismo? Isso depende de si! Decida-se, MIGUEL GOUVEIA.
Sim, ...há sempre alguém que resiste! Queira ou não queira o papão!

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"....sabes de mim eu sou aquele que se esconde ..." ...
"..sabes quem sou , a vida é curva não uma linha ..."
"...SOMO UM TODO IMPERFEITO , VAMOS FAZER O QUE AINDA NÃO FOI FEITO ..."

Anónimo..você não conhece a História ??

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Toda a gente diz mal das obras feitas mas todos dão-lhes uso. Tem muita piada.

A Madeira tá na falência como Portugal todo está, não é um exclusivo de cá.

Essa de dar aos pobres, acho piada, quer dizer montes deles são pobres porque não querem trabalhar, então vamos dar-lhes apoio financeiro a ver se eles se endireitam, quer dizer e eu que sou de classe média já não me chega nenhum apoio desses depois saio à rua e tenho de andar em estradas com buracos porque canalizaram esses dinheiros para os que não querem trabalhar.
Eu prefiro ter as obras todas, seja estradas, tuneis, jardins, etc.
Torna-se crónico, quanto mais ajudas se dá mais eles não querem emprego, se lhes caír no prato nem se vão mexer a arranjar trabalho, isso é o que se chama ganhar à sombra da bananeira.

Muita piada tambem, os regimes comunistas têm tendencia para cair e nunca apareceu nenhum regime novo.

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O Sr. Pedro Freitas é membro da classe média jardinista e lamenta-se que já não lhe chega nenhum apoio 'desses'; que depois sai à rua e tem de andar em estradas com buracos porque sabe que os jardinistas esbanjaram muitos dinheiros...
Qual mente iníqua capaz de pensar: "...canalizaram esses dinheiros para os que não querem trabalhar."

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Eis o governo da Madeira, retratado com louvavel objectividade, rigor e independencia.
Muito se tem falado nesta Região do desvario dos dinheiros publicos por parte do Governo de Lisboa. O novo aeroporto, as novas auto-estradas, a nova ponte sobre o Tejo, o TGV, etc, etc., projectos considerados necessários ao País, alguns deles, já iniciados pelo Dr. Barroso.
Agora os criticos regionais desses projectos, tentam tapar com a peneira a realidade regional.
Aqui na Madeira, o que se tem feito, não é o que se vai fazer, retrata implacavelmente, o caracter, a personalidade e profissionalismo dos seus responsaveis.
É uma nova marina que nunca funcionará, mesmo depois de mentirosamente vendida ao grupo Pestana.
São os Parques Empresariais que foram construidos à margem do tecido legal que deveria ter sido criado nas respectivas camaras de forma a conquistarem clientes e residentes, com todas as vantagens para entre outras evitarem o exodo reconhecido de alguns municipios.
É o heliporto do Porto Moniz, ao que parece, somente autorizado pelo INAC a receber gaivotas, frangos e galinhas de pequeno porte...!
É toda essa panoplia de centros de cultura, bares, restaurantes, criados por uma mente que sabe tanto de gestão...como de boa educação...!
Enfim é uma catrupada de graves erros e disparates, os quais seguramente numa sociedade civilizada, já há muito teriam sido objecto de competente responsabilidade criminal.
Realmente só na Madeira, os politicos fazem o que fazem em prejuizo economico desta terra, sendo o seu mal batatas.
Aqui só existe responsabilidade para punir, que tem a ousadia de falar verdade...esse, para além de imediatamente proscrito, é seguramente alvo da mais reconhecida e persecutoria actividade de governantes, que nem as enfermeiras que se limitam a identificar os seus vacinados, escapam ao peso bruto da sua castigadora mão.
O Dr. Luis Calisto através da sua reconhecida categoria jornalistica, aliada à coragem da sua pena, por certo será a "grande acha" da história futura desta Madeira.
Um grande Bem Haja ao amigo e ao valoroso jornalista

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Sr. Calisto, adorei o seu artigo. Infelizmente, temos de olhar para os madeirenses, eu que apenas vivo na Madeira à 2 anos noto um aspecto assustador: A MAIORIA DOS MADEIRENSES SÃO CEGOS. Ou então voltamos a uma "monarquia regional", onde o povo tem que dizer sempre que sim, e dar o que tem e não tem ao rei (entenda-se Governo Regional), senão será decapitado.
Será necessário olhar também pelos madeirenses, pois deparei-me com factores angustiantes relacionados com a educação e consequente desenvolvimento pessoal. Estou a falar, por exemplo, do facto da maioria das pessoas estarem viciadas no programa da TVI, Secret Story e em novelas, ou então do facto dos exames nacionais na Madeira terem sidos os piores a nível nacional. Podemos concluir que os madeirenses poderão estar a voltar à Idade Média, sem objectivos, apenas interessados na vida dos outros - pois não sabem de mais nada, e dispostos a aceitar o que o Rei mandar.
Sr. Calisto adorei o seu artigo, infelizmente cerca de 95% dos madeirenses não o leram, perceberam (teria de utilizar uma escrita mais básica) ou não se interessaram.
Será necessário abrir os olhos aos madeirenses, mas para tal, é necessário alterar mentalidades.
Por fim deixo um ditado, sempre actual, "pior cego é aquele que não quer ver".
Cumprimentos

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Este artigo de opinião está, pura e simplesmente, brilhante. Vinte valores!

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