João Bénard da Costa nos seus discursos, nas comemorações da República, agora reunidos em livro, cantou a divisão e a unidade. A divisão de opiniões («Divididos - bendito seja Deus! - por diversas opções religiosas, ideológicas e políticas») e a unidade de cidadãos («...é bom que haja adversários. Mas não há inimigos»).
Nesta senda pretendo enaltecer a diversidade e a pluralidade do pensamento que devia acompanhar a nossa sociedade. Contra o perigo de uma hegemonia cruel centrada no poder de alguns apenas, ousou o povo português encetar os caminhos da República há cem anos. As celebrações levadas a cabo foram dignas deste acontecimento - pena que na Madeira esta memória tenha passado muito ao de leve. Porém, ficou alguma conversa e um chamar de atenção para os valores que a República encerra, que devem ser preservados e ensinados às gerações mais novas. É óbvio que não se deseja enaltecer exaustivamente a República como o melhor dos mundos, mas entre tudo o que já foi experimentado, é o melhor possível para a diversidade. Nela estão as suas manchas, por exemplo, os excessos da Lei da Separação (Abril de 1911) e a desqualificação das mulheres como não aptas para votarem.
Porém, a República permite essa pluralidade, cujo seu sentido não nega. É a «coisa pública» ou a «comunidade dos cidadãos» ou a «forma de governo em que o povo exerce a sua soberania por intermédio dos seus delegados e representantes e por tempo fixo». Muitos não gostam desta «coisa». Preferem formas de governo mais afuniladas, mais fixas no «pensamento único» que arrebanhem o povo ou que o mantenha na passividade silenciosa para se fazer imperar a bel-prazer o domínio de uma cor só (como se a sociedade toda pudesse ser daltónica) e o bem-estar dos amigalhaços. Abomino esta república. E eis uma das razões da nossa crise permanente.
Neste caminho do comodismo do pensamento único, faz falta pensar no seguinte, como lembra o pensador Henry Tisot: «estamos no caminho de Cristo? Esta é a questão que temos de nos colocar em todas as circunstâncias da vida», porque, também os cristãos, frequentemente, caiem nesta tentação do pensamento num sentido único. Quantas figuras nacionais têm sido enxovalhadas nos últimos tempos entre nós, só porque ousaram pensar pela sua própria cabeça e expressar entre nós esse seu pensamento? E todas as outras guerras contra tudo o que se move fora do alcance de um determinado pensamento?
Por isso, faz falta dar o salto e proclamar a unidade na diversidade. Esta é a maior riqueza da humanidade. Eis, os caminhos que conduzem à actualização no mundo o reinado de Deus a favor da humanidade inteira, sobretudo dos mais pobres e abandonados. Quer a Igreja quer todos os dinamismos sociais, quando enveredam pelo pensamento único, sublinham acima de tudo a instituição, hierarquizada e poderosa. No campo da Igreja quando tal acontece, quem congrega - cito professor Anselmo Borges - «é menos Jesus do que a hierarquia, e a fé está mais dirigida ao dogma do que à pessoa de Jesus e ao Deus salvador».
Pois, então, quem terá medo da diversidade? - «Bendito seja Deus!» pelo dom da diversidade.
Nota: Agradeço o convite do Director do DN pela confiança na minha pessoa para participar nesta rubrica. Espero corresponder às expectativas.
...VIGIEM O AVIÃO PRIVADO QUE ESTÁ EM SANTA...


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