Atingimos o pico do Verão, da parva. Céu limpo e estranhamente branco. Do torpor ardente e pegajoso onde pastam percevejos fedorentos, mosquitos, incêndios, negócios escaldantes, endividamento público e calotes privados, futebol, berbicachos e o chato arrastão jardineirista do Areal, mesmo dessa salada escatológica, emerge, teimosa, a política da 'oposição à oposição'. Trata-se de uma táctica legal e legítima, porém desgastada por 34 anos de obsessão. Chefe não só reage com juros a todos os ataques da oposição como cumpre o seu próprio programa de investidas contra ela.
Embora com algumas acções estivais, os partidos da oposição arriaram velas. Mas não se livram de críticas como por exemplo a de fazerem "política partidária ranhosa" - ao servirem-se "da desgraça de alguns", concretamente os desalojados de Fevereiro, explicita o chefe.
É parte da putrefacta teoria "por mim ou contra mim". O xadrez maniqueísta em que, coincidência das coincidências, os bons foram parar todos ao PSD e os maus à oposição. E o estado emocional cataléptico alimenta o mito no subconsciente do povo: o chefe é a sobrevivência; a mudança é o dilúvio, o 'finis patriae'. De tal modo que o eleitorado continua a sufragar um regime de partido único, muito pior do que nos tempos do 'rei quinze', quando, e apesar de monárquicos, os partidos regenerador e progressista se revezavam no poder.
Embora à própria oposição custe também admitir, a verdade é que, no carácter e na competência, há bons e maus em todos os lados, seja no poder, seja na oposição, nas empresas, na Igreja, no jornalismo, no desporto. Com a particularidade de, na maioria, nem sequer figurarem os melhores em palco, porque o chefe tem pavor das sombras. Existindo bons e maus em cada sector, é curioso observar como é que, do esquisito regime barricado nas Angústias, sai o atrevimento de atribuir à oposição conceitos e alcunhas que, à vista desarmada, se percebe aplicarem-se com muito mais propriedade ao próprio autor das contumélias, ao seu partido e ao seu governo.
Colocar o CDS-PP entre os "mais raivosamente demagógicos" não é espantoso nem deixa de ser. Está para nascer o político que dispense do seu discurso aquele naco de populismo e demagogia. Mas, falando-se de demagogia, o PP fica a léguas do chefe laranja. Idêntico exercício de 'teoria da relatividade' se pode fazer com a referência do líder ao "desplante aldrabão dos socialistas". Neste caso também, tudo é relativo...
Os 'inimigos' continuam a ser tratados como anti-madeirenses tresmalhados, uns incompetentes, ressabiados por perderem eleições e os tachos que elas proporcionam. Ora, quem exerce a política pelo tacho não é nas minorias que busca agasalho. Faz como fizeram os carreiristas: ao perceberem para onde pendia o voto popular, pediram ficha na Rua dos Netos. E se já tivesse dado o 'mau passo' de ingressar na oposição, imitava os 'arrependidos' que viraram a casaca depois dos extremismos. Recordai o trajecto de tantos que têm passado pelo governo.
Como noutras áreas, há quadros na oposição fiéis a valores e ideais, que recusaram pôr-se em bicos de pés para chegarem à manjedoura da política.
Um materialista sem escrúpulos, e imune ao masoquismo, não se filia na oposição. Faz como outros que progrediram por aí acima, à força de adularem o grande chefe. Aduladores que, conscientes do beco sem saída onde o líder está a encurralar os conterrâneos, continuam a elogiar-lhe o 'amor à Madeira'. Fartíssimos desta 'eternização', batem no peito e rezam alto para serem ouvidos no apelo à recandidatura do chefe. Perante as presidenciais calinadas, fingem não as ver ou dizem-nas diligências geniais.
O chefe da maioria atribui à oposição o apodo de anti-democrática, por contestar um poder que foi eleito. Mas por defenderem uma verdadeira democracia para a Madeira é que muitos puseram em risco os interesses pessoais e familiares e combatem as práticas ditatoriais que se perpetuam na Região.
Ouve-se também chamar os 'contras' de aventureiros, irresponsáveis. Quando é nesses que se nota apreensão perante o aventureirismo que levou ao tremendo e impagável endividamento da Região!
São muitos os defeitos da oposição. Incluindo a parecença de alguns com o chefe regional na presunção de que "quem não é por mim está vendido". E o insucesso ao tentar impor a alternância, que é missão sua. Mas é injusto chamar 'colaboracionista' a quem contesta. Combater uma política de crápula não é fazer o jogo do misterioso 'inimigo externo'. É, sim, uma prova de sensatez, o desejo de derrubar um regime velho, sem projecto, que gera pobreza e desemprego, que permite o alastramento da toxicodependência e da exclusão.
Vezes sem conta, chefe das Angústias tem dito que "o povo madeirense não interessa à oposição", que os da oposição "gostam é do Continente". Mas o povo sabe quem é que só não se fixou no Continente por falta de aceitação lá no 'Rectângulo'.
Outra acusação aos adversários: são todos uma cambada de cobardes. O povo também sabe quem é que foge ao debate olhos nos olhos, frente a frente, em público, e também quem é que só 'navega à vista' e recusa ir a votos nas corridas internas do seu partido nacional.
Desabam calúnias sobre os que pensam diferente do chefe. Numa palavra, o homem diz que são todos uma carga de 'invejosos'. Porém, se o caso é de inveja, pergunta-se: não poderiam os 'invejosos' ter aderido ao regime, simular loas a sua excelência e esperar pela vez de sentar à mesa do orçamento, dos subsídios, dos avales, dos tachos e dos penachos? Inveja! Quem é que já queimou duas gerações de elites?
Pensando melhor, nesta terra até a 'teoria da relatividade' é muito relativa. Votos estivais para que a brigada do reumático, nas senis arrastadas pelo Areal, consiga fazer vingar a palavra de ordem 'chechés para a chechénia'.
...Pois, seria demasiada felicidade para esta Madeira adiada!
...VIGIEM O AVIÃO PRIVADO QUE ESTÁ EM SANTA...


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