São diversas as análises sobre a actividade turística na Madeira que vêm sendo publicadas e todas incidindo numa quebra generalizada dos indicadores aplicáveis (dormidas, hóspedes, receitas, etc.) em 2009 e, mais em particular, nos primeiros meses de 2010.
De facto, assistiu-se em 2009 a uma quebra de -11,2% de dormidas na hotelaria madeirense em relação a 2008, sendo -15,2 % de residentes estrangeiros contra +17,6% de residentes nacionais, o que se explica pelo maior peso daqueles no conjunto (cerca de 84%).
A tendência no número de hóspedes alojados (1050 mil no total, dos quais 775 mil estrangeiros) foi sensìvelmente idêntica com ligeiro agravamento da estada média do turista estrangeiro (menos noites) versus uma melhoria da estada média do cliente nacional.
Todavia, de Janeiro a Abril do corrente ano a tendência de baixa acentuou-se, quer para as dormidas de estrangeiros (-15,7%), quer para as dormidas de residentes em Portugal (-6,5%), que havia sido positiva em 2009.
Em Maio passado, tal como noticiado no «DN» da Madeira na sua edição de 9 de Julho p.p.,«…a Madeira teve uma queda de 8,2% nos hóspedes - menos 10 mil - e de 15,1% nas dormidas (-77 mil) que tiveram como reflexo uma queda de 16,2% nos proveitos totais».
Ora, somados aos 42.845 hóspedes perdidos de Janeiro a Abril estaremos perante uma perda de mais de 50.000 turistas na Região com impacto negativo não só nas unidades em que estariam alojados, mas em toda a economia madeirense.
A situação é tanto ou mais preocupante porquanto ao nível do país se assistiu em Maio a um aumento de 5,8% no número de turistas entrados (+0,4% nas dormidas) e de 6,8% nas receitas acumuladas a Janeiro. Ou seja, o país não cresce muito nas dormidas mas ganha na rentabilidade por turista em resultado de melhores preços praticados, ao contrário da Madeira que viu o Revpar da sua hotelaria baixar (a que não será estranho a evolução taxa média de ocupação que passou de 64,4% em 2008,para 58,0% em 2009 e 48,6% nos primeiros 4 meses de 2010,meses de estação alta, como é sabido).
A par desta evolução, naturalmente preocupante, assiste-se a uma impressionante oferta de transporte aéreo ligando a Madeira a 48 cidades europeias que deveriam indiciar uma evolução diversa da verificada pois, como se sabe, é esse o principal problema de um destino ilhéu - sem transportes não há turismo.
Mas, quando se olha para o passado recente e se constata que a Madeira tem crescido muito na oferta hoteleira posta á venda, em quantidade e qualidade, e que surgiram então vozes a clamar por mais e melhores transportes, em regime de «packages», ou não, e nos deparamos com a presente situação, que dizer?
Investiu-se, o Estado e a Região, no apoio a transportadores regulares e «low-cost» mas os aviões não vêm cheios ou, pelo menos suficientemente cheios para alimentar as dormidas nos hotéis e a própria operação aérea o que pode gerar a prazo o abandono das linhas menos produtivas, se não continuarem a ser subsidiadas.
Ora, aqui entra o papel do destino em saber promover-se devidamente, ou melhor posicionar-se nos diferentes canais em uso no Mundo de hoje, nos diferentes mercados e para os segmentos mais adequados á oferta madeirense, seja em termos de recursos, seja em termos de produtos elaborados (turismo de natureza, náutico, golfe, cultural, gastronomia e vinhos, etc.).
Mas, estarão as entidades competentes atentas a esta evolução que nos parece estrutural e não apenas resultante da tragédia de 20 de Fevereiro?
Quando se olha para a organização oficial da área do turismo parece-nos que ainda se anda ao sabor da tradição, excepção feita á responsabilidade partilhada no quadro da Associação de Promoção da Madeira mas que até parece contestada pela sua parte pública, será porque não convive bem com qualquer partilha do poder mesmo que ao nível de uma mera gestão profissionalizada?
Ou seja, não se concorda com o modelo mas como não se encontra melhor alternativa, mantém-se o compromisso mas desinveste-se na actuação de domínio exclusivamente público que deve assegurar, como nunca outrora, o investimento na imagem do destino (uma prioridade pública e um imperativo no pós-fevereiro 2010), na criação de infraestruturas adequadas e no desenvolvimento de novos produtos.
Aqui, parece-nos, deve competir á secretaria Regional do Turismo alocar os meios a que se obriga para obter a comparticipação nacional para a promoção, mas tal não a isenta de continuar a ter um papel decisivo na promoção do destino em termos de reforço da sua imagem e de estruturação da sua oferta global.
Ora, quando se olha para a execução do orçamento da Região (vide “DN” regional de 11 de Julho p.p.) vê-se que a par do agravamento das despesas em alguns departamentos do governo, como é o caso da Saúde, a Secretaria Regional de Turismo «dispendeu menos 133.000 euros (-9,0%) no primeiro trimestre de 2010».Terá compensado no segundo trimestre e seguintes?
Deste modo, a resposta á crise sentida em 2009,é, não só a contestação do modelo de associação público-privada de promoção (que pode evoluir naturalmente) mas também a diminuição dos recursos públicos para a promoção e o desenvolvimento do sector.
Por isso, há que repensar o modelo de governação e a forma como se faz a promoção nos dias de hoje que não se compadece apenas com a participação em feiras e «workshops» que apenas atingem um canal de venda por sinal em lenta desaceleração no mundo global de hoje.
Por outro lado, há que olhar para a Madeira como um todo e não apenas para a grande concentração turística do Funchal procurando diluir os benefícios do turismo em toda a região e, em particular, em toda a Costa Norte.
Claro que não se pretende que o desenvolvimento da costa Norte venha a obter os resultados da Costa Sul, até por razões climáticas, mas, entendemos que uma gestão adequada dos recursos pode fazer surgir «produtos de nicho» com razoável valor acrescentado e que vão dando sustentabilidade ao próprio turismo no futuro.
Se se pensar que o concelho de Porto Moniz, por exemplo, dispõe do maior território de floresta laurissilva da Madeira podemos imaginar o que os passeios a pé podem trazer de benefício para a actividade económica deste depauperado concelho.
Mas, para tal, há que garantir a segurança dos percursos, a sua devida sinalização e, por último, a sua divulgação, procurando gerar efeitos económicos através de estadias nas suas unidades hoteleiras e da frequência dos seus restaurantes, que devem preservar e promover a gastronomia local.
Para isso há que adoptar uma visão integrada do processo turístico criando atracções complementares que justifiquem uma permanência no território de, pelo menos, duas noites consecutivas, complementadas com estadias no Funchal ou noutro ponto da ilha, no quadro de parcerias activas entre as próprias unidades hoteleiras.
Mas, ainda, há que garantir, e a autarquia tem aqui a sua dose de responsabilidade, que as actividades de suporte ao turismo têm a devida regularidade para permitir a sua programação pelos agentes de viagem e/ou organizadores de eventos e não dependerem de autorizações pontuais, como é o caso, e apenas como exemplo, do «canyonning».
De facto, o canyonning (descida das ribeiras) sendo uma componente radical do turismo activo na ilha, é um nicho que tem merecido a atenção de clubes e praticantes estrangeiros atraídos pela promoção voluntariosa e um pouco «artesanal» do Clube Naval do Seixal (CNS), mas que choca com alguma incompreensão da entidade oficial que gere o Parque Natural ao exigir uma autorização caso a caso para a prática da modalidade e nem sempre a tempo e horas, o que dificulta a sua expansão.
Ora, porque não reconhecer idoneidade ao CNS idoneidade (que a tem) para a prática em questão (com a salvaguarda da segurança e seguros associados, naturalmente) e permitir que seja ele a responsabilizar-se pelas descidas e a poder articular-se com os organizadores de viagens que trabalham este tipo de turismo?
Não deveria, neste, como em tantos outros casos de novos nichos de mercado a explorar, ser a própria Secretaria Regional do Turismo (e Transportes) a interessar-se por estes segmentos de mercado inovadores, apoiando-os no seu desenvolvimento (apoio a estruturas, licenciamento, etc.) e promovê-los, dentro e fora da Região?
Voltando á promoção, sabe-se o quanto a Madeira desvalorizou no passado a aposta no mercado nacional (ao contrário dos Açores), ganhando nova consciência, e ainda bem, no pós-20 de Fevereiro mas o tempo que se perdeu com ataques gratuitos á República resumida ao espaço continental (o «rectângulo») e seus habitantes causou sérios danos á ligação afectiva á Madeira e ao correspondente poder de atracção para alguns sectores dessa mesma população.
Por outro lado, há que reinventar as próprias acções de promoção e apostar em novas formas de abordagem ao consumidor final, designadamente ao nível da Web, procurando captar novos clientes (sem descurar os repetentes) que garantam a sustentabilidade futura da actividade.
Neste contexto, a aposta na natureza e no que ela proporciona em experiências e actividades diversas, parece-nos correcta mas importa ir mais longe na «engenharia do produto» e na sua valorização comercial.
Deixemos de «olhar par o umbigo» enaltecendo capacidades que não temos ou que são a mera representação da nossa vontade e pensemos antes no que temos de diferente num Mundo cada vez mais competitivo, porque mais «igual».
E, no ser diferente, cabe aqui realçar a vantagem de explorar-se o pequeno comércio local de produtos genuínos da terra, ou de pequena transformação, que não só ajudam á sua economia como dão ao turista uma satisfação acrescida.
Claro que, se em lugar disso, se exibem e vendem ao turista produtos importados e de fraca qualidade, sem nenhuma relação com a nossa identidade, como parece ter ocorrido na própria Feira do gado do Porto Moniz, e acontece com frequência em miradouros ou locais em que o turista «pára para ver»,obtém-se o efeito inverso, claramente pernicioso para a imagem e o posicionamento pretendido para a Região.
Recordo aqui o modo exemplar como funciona o turismo numa ilha do arquipélago vizinho das Canárias – Lanzarote - onde tudo começa e acaba no turismo através da exploração e transformação de matéria-prima local, desde a simples pedra vulcânica ao aproveitamento da «aloe vera» passando pelas salinas e produtos derivados, entre outros.
Mais ainda, é a própria autoridade regional e suas diferentes instâncias locais, que garantem a identidade e a genuinidade do destino, promovendo (e vendendo) em todos os locais públicos que gerem «souvenirs» inspirados numa matéria-prima local e executados com base num design contemporâneo e apelativo.
Acresce que aqui o produtor se revela também um promotor dos seus próprios produtos com destaque para o que se passa na zona dos vinhedos (em terreno arenoso e protegido dos ventos com formas muito peculiares) que me fez transportar para o contexto madeirense em que a organização das visitas ás caves se resume ao Funchal perdendo-se a hipótese de dar a conhecer pequenas adegas no campo que ajudariam a contar a história da vinha e do vinho em termos mais próximos do produtor e do seu modo de vida, logo mais autêntico.
Chegados aqui, e em jeito de síntese, importa reflectir sobre as condições do desafio que temos pela frente, de um lado, a adequação da oferta aos novos paradigmas e condicionalismos da procura, do outro, uma promoção com meios reforçados (o que não se verifica) e orientada para os canais e consumidores no seu contexto específico sem esquecer a mais-valia que a promoção e a gestão adequada da marca «Madeira» podem proporcionar.
...VIGIEM O AVIÃO PRIVADO QUE ESTÁ EM SANTA...


31 comentários

