Já basta de confundir a Madeira com o jardim, o défice democrático com inépcia da oposição política, a incontinência urinária com perseguição politica, o buraco financeiro com obra feita, o jornalismo com panfletos doutrinários, o ressabiamento político com projectos e ideias de liberdade, a madeira nova, com a madeira carunchosa. Sou madeirense, não tenho militância política, mas tenho consciência cívica. Sei o que foi a Madeira de tempos idos, a dita Madeira moderna, mas temo, verdadeiramente, pela Madeira de amanhã.
O enorme buraco financeiro saltou para a boca de uma forma tipicamente portuguesa, por duas instituições que parecem querer competir: O Banco de Portugal (do mutismo do anterior Governador surge-nos, agora um, muito prolixo e transparente) e o INE. Parece-me um pouco perturbador que as coisas se passem desta maneira: que o país fale a diferentes vozes, em momentos díspares, colocando-nos numa situação perfeitamente anedótica perante os nossos parceiros europeus. Afinal, o bom aluno tinha esquecido uma conta debaixo do tapete.
(...) A oposição, essa então é de bradar aos céus. Veja-se o slogan: A Madeira está falida este homem vai salvar a Madeira. Não sei se é de chorar ou de rebolar a rir. O Messias era mais bonito e tinha o condão de falar e embalar as multidões. O senhor do cartaz depois de recrutar candidatos pelos lados da Ásia (continente emergente do ponto de vista económico) e de afirmar que a dívida da Madeira poderia ser perdoada, num regime de excepção, quando contraída sem a vontade do povo, baseando-se num quadro próprio que só ele saberá explicar, diz tudo ao eleitorado. Já agora veja se isso pega com a troika para a dívida nacional herdada do regime socrático.
Mas, perante tudo isto não podemos escamotear o verdadeiro problema: a ocultação da dimensão da dívida da Madeira. É um acto censurável do ponto de vista político, ético e quiçá criminal. Há obra feita, não há dúvida. Mas, devemo-nos interrogar se tal magnitude do descalabro financeiro é justificável à luz de obras desnecessárias, vulgo Marina do Lugar de Baixo, parques empresarias, subvenções, sociedades de desenvolvimento entre outras.
Por outro lado, quem percorre o país de norte a sul, do litoral ao interior, esbarra em muitas ilha no continente português e se enveredassem todas pelo mesmo despesismo há muito que estávamos falidos.
Já agora que a troika nos permitiu cartografar a sangria das finanças públicas, avance-se rapidamente com suspensão das leis das finanças locais e regionais e veja-se como esses ditos "animais políticos" governam com regras, com contenção orçamental, com democracia.
A solidariedade é mútua e não podemos olhar só para o nosso umbigo, porque se acenam com a bandeira da independência, não tenho dúvidas que muitos portugueses do lado de lá, desinformados, fartos das balelas do Titã da Ilhas, face ao seu próprio atraso não tinham qualquer pejo em nos deixar sós no meio do Atlântico e os senhores empreendedores da Madeira Nova não têm a pujança económica para fazer isto vogar para porto seguro.
Sinto orgulho de ser madeirense, mas envergonho-me com atitudes, palavras e com o reino da confusão em que mergulhamos.
Chega de baixar os braços, encolher os ombros e assobiar para o lado.
Devemos intervir civicamente. Essa é a principal dívida que os madeirenses de hoje têm para com as gerações vindouras, independentemente do espectro político, da matriz social em que estamos inseridos e do espartilho que nos amordaça.
Tarde nem para a missa, diz o ditado.
http://carlosgoncalvesps.blogspot.com/2012/02/por-minha-culpa-minha-tao-grande.html



