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O seu a seu dono

 
José Camacho
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Integrado na denominada «Festa do Livro», realizou-se no passado dia 21 de Maio um concerto no teatro Baltasar Dias com o quarteto de Vítor Sardinha e o seu projecto Rajame. Nome este inspirado nos instrumentos musicais da Madeira - rajão e viola de arame, e que em minha opinião revela criatividade da parte do Vítor Sardinha.
O concerto atingiu momentos de grande qualidade quer na técnica, na orquestração, acompanhamento harmónico, e melodias de grande beleza (efeito hipnotizante) e que induz à introspecção/relaxação (estou a recordar-me do seu 1º disco onde se destaca a belíssima melodia «Manhã de Natal», elogiada pela revista do Continente português «Pró Música».
Vítor Sardinha já deu provas mais do que suficientes que é um excelente compositor como também intérprete, pelo o qual tenho um grande respeito. É aqui que reside o seu maior trunfo. A composição. É um extraordinário fazedor de melodias.
Até aqui tudo bem. O que não está bem é o facto de fazer afirmações que não correspondem aos factos históricos. Parece-me que tenta vender gato por lebre. Vejamos o que disse ao longo do concerto: que a música da região do Magrebe (Norte de África), tem uma «forte presença na Madeira». Como e em que parâmetros? Musicalmente ainda não me apercebi dessa influência árabe aqui na região. Quem possui estudos musicais, sabe que a música da tradição europeia assenta na escala diatónica que pode ser maior ou menor. O Xaramba - género musical tradicional da Madeira (uma espécie de Blue à madeirense), assenta numa harmonia de dois acordes - tónica e dominante. Como se pode observar, este tipo de harmonia é tipicamente europeia e nunca árabe, uma vez que os povos árabes utilizam nas suas canções outros tipos de escalas que têm outra estrutura e que mais adiante darei alguns exemplos práticos.
Desta forma, conclui-se que a matriz da música madeirense é portuguesa, porque é de facto a que predomina sobre outras possíveis culturas.
Seria útil que o Vítor Sardinha observasse com mais atenção o povo nos seus tocares e cantares, porque desta forma teria uma visão mais correcta da realidade musical do povo.
Ao abordar os géneros musicais populares da Madeira, incluiu também a chama - Rita. A Madeira possui apenas três grandes géneros musicais e que são: mourisca; charamba e bailhinho. A chama - Rita é apenas uma canção bailada e nunca um género musical.
Afirmou também que o charamba tem mais de duzentos e cinquenta anos. Como é que sabe? Quais as fontes em que se baseia para fazer tais afirmações? O Vítor tem uma imaginação muito fértil que vai para além do real.
É preciso não esquecer que uma mentira dita repetidamente acaba por ser verdade.
Já ouvi chamar viola madeirense em vez de viola de arame. Que eu saiba é a massa anónima (povo) que dá o nome às coisas e não os professores ou músicos profissionais. Ninguém tem o direito de deturpar a memória colectiva de um povo.

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