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Idosos vivem entre a pobreza e a solidão

Sobrevivem com pensões que os colocam abaixo do limiar da pobreza. São idosos, estão sós e, por vezes, nem lhes resta dinheiro para comer

Raquel Gonçalves
  • A velhice nem sempre traz o descanso merecido e, muito menos, a pensão que pague uma vida de trabalho. Foto Joana Sousa/ASPRESS
  • Assistentes sociais da AMI conhece os rostos, os nomes e as história de quem vive abaixo do limiar da pobreza.
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Pensões de miséria empurram os idosos para o limiar da sobrevivência

Maria e Inácio já ultrapassaram a fasquia dos 80 anos. Mas a idade não lhes trouxe o merecido descanso, o caminho sem percalços. Vivem como podem, amarrados a pensões de miséria, a contar os euros e os cêntimos até ao fim do mês.

Comem carne e peixe muito raramente e, pelo menos há dois meses, não conseguem levantar a totalidade dos medicamentos que são receitados pela médica no centro de saúde.

Infelizmente, a realidade de Maria e Inácio multiplica-se em exemplos que traçam o percurso de uma terceira idade que vive abaixo do limiar da pobreza. Sobrevivem numa miséria escondida, envergonhada, silenciosa.

Talvez por isso, Maria e Inácio não querem deixar os nomes verdadeiros. Falam do que lhes vai na alma, mas recusam a foto, recusam dar a cara, o nome que os identifica, que os torna únicos entre muitos.

É preciso manter a dignidade. As coisas são mesmo assim. Maria até acredita que é por essa dignidade, que quer manter a todo o custo, que as ajudas que pediu ficaram todas sem resposta. É pobre, mas gosta de manter tudo limpo, a casa arrumada. "Não tenho sorte! As meninas da assistência vêem ver a casa, olham e está tudo limpinho e dizem que há pessoas em pior situação", desabafa.

Mas Maria sabe que a sua situação é complicada, sabe que lhe fazia jeito a ajuda.
Os 240 euros de pensão dão para muito pouco. Consomem-se entre a conta da luz, da água, do passe. Há que "espremer" para conseguir ter algo para comer.
Compram o essencial: o milho, a massa, o arroz, o café, o azeite.  Carne só às vezes e peixe ainda é mais caro.

"Às vezes come-se o milhinho sem nada". Encolhe os ombros, "não gosta de cramar", porque sabe que a vida está difícil para todos.  A sorte é que a natureza ajuda. A gente antiga é mais rija e aguenta as privações. Não é como "estes mais novos" que querem tudo, mesmo o que não podem ter.

Esta aceitação é que a faz seguir em frente. Mesmo quando os remédios de que precisa ficam na farmácia porque não há dinheiro para levantá-los. Os genéricos ainda consegue trazer, os outros esperam por dias melhores que tardam. Até os filhos, entretanto desempregados, voltam a casa dos pais que podem contar apenas com a pensão de miséria que ficou de uma vida de trabalho.

Uma porta amiga
Contudo, ainda há portas que se abrem ao desespero de quem precisa. Na 'Porta Amiga', da AMI, entre os prédios da Ruas das Pretas, fomos encontrar uma equipa jovem e com vontade de fazer a diferença.

As assistentes sociais, Nélia Santos e Conceição Ladeira conhecem os casos, os rostos, as histórias. Mas também conhecem o esforço da Acção Social da AMI no desenvolvimento de um plano estratégico que ajude aqueles que estão em situação de  pobreza, como é o caso dos sem-abrigo, dos desempregados de longa duração, dos idosos. Ali tenta-se por um lado colmatar as necessidades básicas e, por outro lado, as necessidades de inserção.

Fazem distribuição de bens alimentares, têm um refeitório onde servem almoços e pequenos-almoços, uma unidade de balneário, um vestiário e uma lavandaria.

Mas, como não só de pão vive o homem, também são tidas em linha de conta as necessidades de inserção, através do  acompanhamento psicológico, jurídico, do clube de emprego e de uma valência de animação sócio-cultural. Esta última, explica Conceição Ladeira, tem por objectivo  promover uma atitude de participação activa no processo de desenvolvimento social e cultural, tentando combater o isolamento. E esta vertente assume uma importância capital junto dos utentes de terceira idade.

É que a velhice não traz apenas uma miséria material, há também muita solidão. Nélia Santos diz que um dos problemas dos idosos é a questão do isolamento social. A pessoa idosa é rejeitada do sistema produtivo e socialmente desqualificada. As limitações económicas e físicas, a indisponibilidade da família, a perda de desempenho de papéis e o fim da actividade laboral fazem com que percam a sua identidade. Daí que quando a Porta Amiga identifica que, além das necessidades básicas de alimentação, existe isolamento e desatenção da família, encaminha os idosos para as actividades de animação cultural, um contributo fundamental para o recuperar da auto-estima.

Nélia Santos diz que, dada a conjuntura de crise que se vive, tem notado um aumento da procura do apoio alimentar, nomeadamente por parte dos idosos.  Uma necessidade que a Porta Amiga tem tentado colmatar através das acções de angariação de alimentos, promovidas pelos voluntários da AMI e pela sociedade civil.
Afinal, refere, em causa estão pessoas  que sobrevivem com rendimentos abaixo dos 300 euros, ou seja abaixo do limiar da pobreza.

E é por precaridade financeira que recorrem à AMI. Porque chegam à velhice sem casa própria e com o dinheiro contado para pagar a renda da casa ou do quarto onde vivem. Mais os medicamentos, mais as consultas de saúde. Se não fosse a Porta Amiga, muitos passariam fome. 

Os serviços mais procurados são, assim, o apoio alimentar, os serviços de enfermagem e o apoio médico. Os idosos são uma grande parte das cerca de 80 pessoas que procuram diariamente a AMI. São mais mulheres do que homens, acima dos 65 anos. Uns recebem pensões mínimas, outros até se desenrascavam antes da crise, mas agora, com o aumento do custo de vida, o dinheiro já não chega para tudo. Outros ainda têm de voltar a receber em casa os filhos desempregados e todos ficam dependentes dessas pensões de miséria que mal asseguram a sobrevivência.  Alguns sempre foram pobres, outros foram apanhados pela conjuntura. Seja como for, o prognóstico é igual para todos: a tendência é para piorar.

Estas dificuldades também são do conhecimento da Associação de Reformados. José Virgílio Vieira conhece os problemas e, mais do que isso, as dificuldades em resolvê-los. Por exemplo, diz que a petição que foi entregue na Assembleia Legislativa da Madeira, a pedir mais 60 euros para os que recebem pensões abaixo do salário mínimo nacional, teve como única resposta o facto de todas as assinaturas terem de ser identificadas. José Vieira não sabe como fazê-lo num universo de 4.180 assinaturas. Ou seja, para os idosos nada é fácil, nem as reivindicações.

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