Cachalotes formam colónias conforme os dialectos

Biólogo marinho brasileiro Maurício Cantor diz que assim dialogam entre si

26 Abr 2016 / 00:01 H.

Os cachalotes formam as suas colónias com base em diferentes dialetos para dialogar entre si, disse à Lusa o biólogo marinho brasileiro Mauricio Cantor.

"De certa forma já o conhecíamos. Já sabíamos que haviam diferentes dialetos entre os cachalotes. Uns comunicavam com um dialeto e outros com outro tipo de dialeto, descrito como diferentes clãs vocais", disse Mauricio Cantor, de 32 anos, que está na Universidade de Dalhousie em Halifax, na Nova Escócia (leste do Canadá), a concluir um doutoramento baseando-se no estudo de cachalotes.

Natural de Curitiba (leste do Paraná), o investigador brasileiro explicou que parte da sua pesquisa pretende estudar "como esses dialetos evoluíram", nomeadamente como é que uma população de indivíduos localizados na mesma área "se separa devido aos dialetos".

"Descobrimos com essa pesquisa que, provavelmente, a única maneira como esses dialetos podem evoluir é se os indivíduos estiverem a aprender uns com os outros, de uma maneira muito similar à forma que aprendemos, copiando os indivíduos que são mais parecidos e comportamentos mais comuns. O que denominamos de conformismo ou seja 'moda', aquilo que é mais frequente na população", revelou.

Outra das descobertas prendeu-se com o fato destes dialetos surgirem na aprendizagem social, baseando-se na cultura, visto que no ser humano a vertente cultural "é muito clara", mas não está esclarecida quando aos "animais de outras espécies".

"Existe um grande debate na literatura académica se os 'outros animais' possuem cultura. A nossa pesquisa baseia-se nessa informação. Acreditamos ser necessário que um processo de transição cultural atue na população dos cachalotes, para que os dialetos estudados tenham evoluído", frisou.

Para Mauricio Cantor, os cachalotes, que vivem num ambiente diferente, e no alto mar, "aproximam-se de nós enquanto humanos, existindo algumas similaridades".

Uma outra espécie, as orcas - vulgarmente conhecidas como as baleias assassinas -, que se podem verificar no costa oeste do Canadá, na Colúmbia Britânica, também possuem uma estrutura social e de comunicação parecida com a dos cachalotes.

"As orcas apresentam-se em grupos (familiares) da mesma espécie, e têm diferentes dialetos. É bastante claro, pode-se verificar que as 'baleias assassinas' têm um padrão de vocalização. É diferente, mais complexo, mas alguns grupos têm sons semelhantes", disse.

O biólogo espera concluir o doutoramento e regressar ao Brasil dentro de dois meses, mas o estudo dos cachalotes vai continuar na Universidade de Dalhousie, uma instituição de ensino reconhecida internacionalmente pelo seu trabalho na biologia marinha.

O grupo de pesquisa da universidade vai continuar a desenvolver esta investigação, estudando respostas a perguntas sobre como é tomada a decisão da movimentação de uma área para outra, se é "feita coletivamente ou por ordem de algum elemento (líder) do grupo".

Mauricio Cantor, com um mestrado em Biologia e Ecologia no Brasil, tem vindo a estudar golfinhos e baleias, utilizando métodos criados pelo professor Hal Whitehead, da Universidade de Dalhousie, que investiga os cetáceos há 35 anos nas ilhas Galápagos, no Equador.

Lusa

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