Passos recusa 'striptease" das suas contas

Seguro promete levar caso Tecnoforma até ao fim

26 Set 2014 / 11:50 H.

O primeiro-ministro recusou hoje que se faça um "striptease" das suas contas bancárias, mas o secretário-geral do PS advertiu que tudo fará para apurar "a verdade" sobre os rendimentos de Passos Coelho entre 1995 e 1999.

Este foi o ponto central da discussão entre António José Seguro e o líder do executivo no debate quinzenal, na Assembleia da República, depois de Pedro Passos Coelho ter assegurado na sua intervenção inicial que, enquanto deputado do PSD (1991/1999), nunca recebeu da empresa Tecnoforma.

Perante a explicação do primeiro-ministro, o líder socialista começou por criticá-la por ser tardia - "demorou mais de uma semana para se pronunciar" - dizendo, ainda, que Pedro Passos Coelho tentou "esconder-se atrás das instituições", primeiro da Assembleia da República, depois da Procuradoria-Geral da República.

Mas o secretário-geral do PS deixou também a ideia de que poderá apoiar um inquérito parlamentar ao afirmar: "Faremos tudo mas tudo o que estiver à nossa disposição, com os instrumentos constitucionais, para apurar toda a verdade".

A seguir, Seguro insistiu para que o primeiro-ministro autorize o levantamento do seu sigilo bancário, durante o período entre 1995 e 1999, tendo em vista haver absoluta transparência sobre os pagamentos que foram efetuados nessa época.

Na resposta, o líder do executivo considerou que o secretário-geral do PS pretendeu no fundo "vasculhar" as contas bancárias.

"O senhor deputado entende que, por haver umas notícias que sugerem aproveitamento político, por haver um senhor que vem fazer umas insinuações, tem o direito de me vir exigir que esclareça perante a câmara as minhas contas bancárias? Trata-se de um direito fundamental que tenho à minha reserva pessoal. Se cada vez que alguém aparecer a fazer insinuações, eu tiver de fazer (como qualquer um dos senhores deputados) o 'striptease' das contas bancárias, para deleite dos leitores de jornais, isso não faço", frisou, recebendo palmas dos deputados da maioria PSD/CDS.

Já numa resposta anterior, Pedro Passos Coelho tinha afastado o repto do líder socialista.

"No fundo, o senhor deputado [António José Seguro] quer que se traga para o parlamento e para os jornais os movimentos que fiz nesses anos. Senhor deputado, reafirmo o que já disse, estou disponível - e transmiti-o à senhor Procuradora Geral da República - a prestar todas as informações que são necessárias", disse.

De acordo com Pedro Passos Coelho, nesse período da VII Legislatura, desenvolveu "atividades no âmbito do Centro Português para a Cooperação".

"Fiz viagens e apresentei evidentemente essas despesas no Centro Português para a Cooperação. Estive em Cabo Verde, Bruxelas, entre outras deslocações, apresentando, naturalmente, as respetivas despesas ao Centro Português de Cooperação", justificou, mas negando notícias que referiam ter usado um
cartão de crédito para pagamento de despesas.

"Li num jornal que tinha um cartão de crédito, mas não tinha. Não recebia remunerações e não afetei o meu regime de exclusividade. Isso senhor deputado é o que posso dizer sob compromisso de honra ao parlamento", declarou em resposta a António José Seguro.

António José Seguro, porém, não se mostrou convencido com as justificações de Pedro Passos Coelho, considerando mesmo que cada vez que o primeiro-ministro
fala "mais adensa as dúvidas".

No que respeita às despesas de representação e despesas que Passos disse ter feito pelo Centro Português para a Cooperação, Seguro deixou uma questão "do ponto de vista ético".

"Como é que um deputado, que estava em exclusividade de funções, vem dizer ao parlamento que trabalhava para outra organização e que recebia dessa organização recursos para pagar viagens, almoços e para fazer reuniões", questionou.

Seguro fez ainda alusão a afirmações que terão sido feitas por um administrador à época da Tecnoforma.

"Não podemos ser indiferentes ao que um dos responsáveis da Tecnoforma disse sobre essa organização não-governamental [o Centro Português para a Cooperação]. Disse que esse centro funcionava como facilitador dos negócios da Tecnoforma", apontou, antes de retomar um dos lemas sua campanha nas primárias socialistas, mas agora aplicando-a ao primeiro-ministro.

"A promiscuidade entre política e negócios não pode existir e muito menos pode atingir o primeiro-ministro", defendeu.

Pedro Passos Coelho, no entanto, rejeitou totalmente a ideia de que o seu centro tenha funcionado como facilitador de negócios, considerando que será impossível apontar um negócio que foi aberto por intervenção da organização não-governamental.

Lusa