"Matança do porco é um acto brutal e culturalmente inaceitável"

Protesto da Plataforma Viver insiste nas críticas a tradição madeirense

06 Dez 2013 / 11:17 H.

A "matança" do porco que ocorre na Madeira a partir de 8 de dezembro, dia da Imaculada Conceição, é "um ato brutal culturalmente inaceitável" diz a Plataforma Viver - Cidadãos pelo Tratamento Ético dos Animais da Madeira e Porto Santo (PV).

 

"A Plataforma Viver não aceita que um animal tão inteligente e sensitivo como é o porco seja abatido de uma forma tão brutal, a sangue frio e em público", declara à agência Lusa o dirigente da PV, Miguel Santos.

 

Tido como um dos primeiros momentos do Natal madeirense, a "função" do porco, a "matação" ou "matança" começa quando o animal é, pela alvorada, compulsivamente retirado do "chiqueiro" e arrastado, por entre os seus estridentes grunhidos de pânico, para o local onde o "marchante", desferindo um frio golpe na jugular do suíno com a "faca da matança", retira a vida a um dos animais domesticados mais inteligentes perante a euforia de um público muitas vezes já "encharcado" de álcool.

 

"Achamos que fazer da morte do animal um espetáculo público, mascarado de traço identitário do ser madeirense, é algo culturalmente inaceitável no século XXI em que se procura alargar a esfera ética e a compaixão aos seres não humanos", diz o dirigente da PV.

 

Para além da "desumanidade" do ato, Miguel Santos realça a "ilegalidade" do mesmo ao recordar que o abate deve ser precedido de "atordoamento" do animal para este não sentir a dor e deve ser realizado na presença de um veterinário "duas condições exigidas pela lei que sistematicamente são desrespeitadas".

 

Este ativista em defesa dos animais salienta que "este ato tão regressivo deve ser abolido", reconhece que "só pela ação pedagógica" poderá haver mudanças neste domínio e critica o "laxismo" de algumas autoridades sanitárias e de defesa do consumidor.

 

"Nós não estamos contra as pessoas que assim procedem, estamos contra o ato em si", distingue.

 

Para que essa pedagogia possa evoluir para uma sociedade respeitadora dos animais, Miguel Santos defende que a ética deveria ser obrigatória em todos os currículos escolares e "no âmbito de uma política autónoma, a Madeira podia ser pioneira nesse sentido".

 

"Bastava que a Assembleia Legislativa reconhecesse a sensiência dos animais, a Madeira seria precursora a nível do planeta", observa.

 

Ao lamentar que a Academia das Carnes "seja a única organização não familiar que continua a promover o espetáculo da matança", Miguel Santos

contrapõe um rol de realizações da "Plataforma Viver" no sentido de despertar a consciencialização para a defesa dos direitos dos animais e para o emergir de uma nova mentalidade.

 

A PV promove, assim, no dia 10 de dezembro, na Fundação Silvério Pires, uma palestra a cargo de Rui Vieira, da Biológos, que dissertará sobre "as alternativas vegetais à carne na confeção dos tradicionais pratos natalícios" e a 14 de dezembro haverá "um teatrinho" no Espaço 116, na Escola Waldorf, em que as crianças, dirigidas por Teresa Madruga, encenarão sobre o respeito pelos direitos dos animais.

 

Em data ainda por apresentar, decorrerá ainda uma conferência, a cargo de um veterinário, sobre a sensiência dos animais "sua capacidade psíquica e fisiológica, de sentir o prazer e a dor e de antecipar o sofrimento e a morte".

 

"Não vamos promover ações violentas contra a matança do porco, é pela educação que as sociedades podem evoluir e, nesse sentido, vamos, a par das nossas realizações, distribuir cartazes e flyers apelando a uma nova atitude e ao respeito pelos animais", conclui. 

Lusa

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