Tiro de partida para a independência de Angola foi há 50 anos

31 Jan 2011 / 11:43 H.

Na próxima sexta-feira, Angola comemora o 50.º aniversário do ataque às cadeias da Luanda colonial para uma tentativa arrojada de libertação de prisioneiros políticos que ficou na história como o tiro de partida para a independência do país.

A 4 de Fevereiro de 1961, teve lugar a primeira revolta organizada contra o regime colonial português com o ataque à Cadeia de São Paulo e à Casa de Reclusão, em Luanda, onde se encontravam detidos vários independentistas.

Oficialmente, a história diz que a revolta popular, armada de paus e catanas, foi organizada por elementos ligados ao Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) como Neves Bendinha ou Imperial Santana, durante largos meses, desde Outubro de 1960.

A ideia era criar um momento galvanizante que servisse de ignição para a luta armada pela independência, que aconteceu a 11 de Novembro de 1975.

Mas há um dado, também ele histórico, que diversas fontes apontam como importante para este desencadear da revolta, que foi a presença de vários jornalistas estrangeiros em Luanda.

A imprensa internacional aguardava a chegada a Luanda do paquete Santa Maria, assaltado nas vésperas por Henrique Galvão num gesto contra o regime fascista de Oliveira Salazar.

O Santa Maria não aportou em Luanda e os jornalistas estrangeiros preparavam-se para levantar âncora quando, no meio popular surgem alguns elementos a aproveitar a presença da imprensa internacional para dar destaque mundial a uma acção de revolta anti-colonial. Assim terá nascido, há 50 anos, o 4 de Fevereiro de 1961.

Mas, por detrás desta onda revolucionária, estava já o 4 de Janeiro, com a revolta da Baixa de Cassange, onde milhares de trabalhadores dos campos de algodão da Cotonang se levantaram contra as condições de trabalho e a repressão colonial, deixando como rasto um número ainda por definir de mortos.

A acção das centenas de populares em Luanda, armados de varapaus e catanas, foi repelida pelos fuzis da polícia e da guarnição militar colonial de Luanda, mas seria apenas meio passo para trás daquele que tinha sido dado em frente e conduziria à independência do país, a 11 de Novembro de 1975.

A iniciativa tinha como objectivo imediato a libertação de presos políticos das cadeias de Luanda, mas as fontes oficiais garantiam que na sua preparação estava já na mente de Bendinha, Santana ou ainda Paiva Domingos da Silva ou Virgílio Sotto Mayor, uma clara marcação da partida para a descolonização de Angola.

Com os episódios da Baixa de Cassange e a independência do Congo, reforçados pela revolta de Luanda, pouco depois o regime colonial iniciou o reforço militar em Angola, que tão cedo não pararia com o desenrolar da guerra colonial, bem como o recrudescer dos movimentos de guerrilha dentro e a partir do vizinho Congo Leopoldville.

Para este reforço militar português teve ainda um peso significativo o 15 de Março, o ataque da União dos Povos de Angola (UPA), no norte do país, onde centenas de colonos brancos foram chacinados, principalmente nas fazendas de café, em consequência da revolta liderada por Holden Roberto, mais tarde líder da FNLA.

Estas três datas no ano de 1961, 4 de Janeiro, 4 de Fevereiro e 15 de Março são, ainda hoje, alvo de disputa sobre qual delas teve mais importância no início da luta armada contra o regime colonial, mas a imposição do MPLA, partido no poder desde 1979, do 4 de Fevereiro como o dia maior desse desafio ganha cada vez mais peso.

Lusa