Intervenção do FMI em Portugal "não é o fim do mundo"

19 Out 2010 / 21:34 H.

Kenneth Rogoff, ex-economista chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), desdramatizou a eventualidade de vir a ser necessária uma intervenção em Portugal, ainda que sublinhando que o Governo está a tentar evitar essa situação.

"No caso de Portugal não conseguir assegurar a sustentabilidade orçamental e estiver em problemas, o FMI estará lá. Penso que é claro que o Governo preferia evitar essa intervenção, mas não é o fim do mundo se acontecer", disse hoje aos jornalistas o professor da Universidade de Harvard.

Kenneth Rogoff falava no final de um colóquio sobre a dívida na Assembleia da República, em Lisboa, e escusou-se a especificar a probabilidade de haver uma intervenção.

"É certamente uma situação desafiadora, não há dúvidas sobre isso. Não é impossível evitar [uma intervenção], mas é complicado", respondeu o especialista.

O responsável destacou que "o crescimento é perto do zero, ou negativo, a dívida é muito alta, os mercados estão a exigir um prémio que pode ser mais alto ou mais baixo e é difícil fazer todos os ajustamentos", pelo que considerou "possível que o FMI seja necessário".

Segundo o responsável, "o problema fundamental é o crescimento". E frisou que "nos últimos 10 anos Portugal teve um crescimento muito lento e perdeu muito terreno" e que "agora tem uma alta taxa de endividamento e corre o risco de ter mais uma década de crescimento lento".

Kenneth Rogoff comentou ainda as reformas feitas pelo Governo nos últimos anos, "na educação, no sistema legal, no mercado de trabalho, no investimento em infraestruturas", sublinhando que estas "não são 'pensos rápidos', mas sim reformas que têm que ser feitas para sustentar o crescimento".

E prosseguiu: "Há um longo período de ajustamento à nossa frente. O crescimento europeu deverá ser lento, os mercados emergentes estão a ir bem, mas os Estados Unidos não. Por isso, é um desafio e um risco ter um nível de vida tão elevado, durante tantos anos."

De acordo com o professor, "o Governo português e as autoridades portuguesas têm que decidir o que pretendem e qual é o seu interesse", sendo que esta "é uma situação desafiadora, com os 'spreads' no mercado muito elevados". Mas, realçou, "o pagamento de juros não está num nível tão alto face às receitas globais [do Estado] que não seja possível aguentar mais algum tempo".

Por isso, para Kenneth Rogoff, "a questão principal é que não há um remédio rápido" e "Portugal precisa de voltar a crescer durante um longo período de tempo".

O economista reforçou que Portugal "precisa de ter uma grande década e não outra década perdida" e "se começar com uma dívida elevada e combinar isso com um crescimento lento durante muito tempo, então é difícil escapar aos problemas, independentemente do que seja feito, qualquer que seja o Orçamento aprovado é um passo numa longa estrada".

Lusa