O mundo de Annie Silva Pais no palco do D. Maria II

A peça 'descreve' o percurso da filha do último director da PIDE que 'rompeu' com o Estado Novo para 'abraçar' a revolução cubana

12 Mar 2007 / 12:20 H.

    A história surpreendente de Annie Silva Pais, filha do último director da PIDE, que virou costas ao Estado Novo e 'abraçou' a revolução cubana, será representada a partir de quinta-feira no Teatro D. Maria II, na peça 'A Filha Rebelde'.
    'É quase que inimaginável esta situação de a filha do director da polícia política da mais velha ditadura europeia ter tido o percurso radical e de rupturas permanentes que teve, ao ponto de chegar a morrer em Cuba', afirmou José Pedro Castanheira, co-autor com Valdemar Cruz do livro que esteve na origem desta peça.
    Tudo começou com uma investigação jornalística.
    'Sempre tive imensa curiosidade em ver como é possível transformar uma grande reportagem em que todas as personagens, todas as situações, todos os factos são rigorosamente verdadeiros numa peça de teatro que é necessariamente ficcionada', adiantou o jornalista depois de assistir ao ensaio de algumas cenas de 'A Filha Rebelde'.
    A actriz Ana Brandão é em palco Annie Silva Pais, num elenco com 18 actores, incluindo Vítor Norte (Silva Pais) e Lídia Franco (a mãe da protagonista).
    'É a primeira vez que faço o papel de alguém que existiu e é uma enorme responsabilidade', disse à Lusa a actriz, explicando que não tentou fazer 'uma cópia ou um retrato real' do que era Annie.
    A história que é contada vai dos anos 60 até ao início dos anos 90 e passa-se em dois países: Portugal e Cuba.
    Annie Silva Pais é casada com um diplomata suíço e com ele vai viver para Cuba, nos primeiros anos da revolução que derrubou Fulgêncio Batista.
    A vida em Cuba e um encontro com Che Guevara levam-na a deixar uma vida de aparências, com o fim do casamento e a empenhar-se na revolução e seus ideais.
    Em Portugal teme-se o seu desaparecimento, mas Annie Silva Pais acaba por nunca romper com os pais e regressa após o 25 de Abril para visitar o pai na prisão. Morreu em Julho de 1990, com 54 anos.
    Para a encenadora desta peça, a espanhola Helena Pimenta, o que se conta em palco não é apenas a vida de Annie, mas também a crónica de dois países que em momentos diferentes vivem as suas revoluções.
    Para assinalar a alegria que se viveu nesses períodos, há música ao vivo a acompanhar algumas cenas, músicas e canções de Cuba e do tempo do 25 de Abril.
    'Mas, ao mundo de Salazar não corresponde qualquer música, optou-se pelo silêncio (que simboliza a repressão), pelo som do vento', afirmou a encenadora que foi convidada pela direcção do D. Maria II a ler o livro 'A Filha Rebelde' e a encená-lo depois de uma adaptação de texto feita por Margarida Fonseca Santos.
    Com cenografia de José Manuel Castanheira e figurinos de Ana Garay, a peça vai estar em cena de 15 de Março a 20 de Maio.
    'Afinal, nenhum bom romance se faz de vidas exemplares', escreveram os autores do livro.

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