Ronaldo escreve testemunho emocionante: “A minha mãe e as minhas irmãs não se interessavam pelo futebol”

03 Out 2017 / 16:33 H.

Cristiano Ronaldo redigiu um testemunho na primeira pessoa para a página ‘The Players Tribune’, onde recapitula os momentos mais marcantes da sua carreira, entre eles a companhia do seu pai quando deu os primeiros pontapés na bola, ou o primeiro jogo a que a sua mãe e irmãs assistiram, ainda no Andorinha: “Senti-me protegido e amado. Em português dizemos menino querido da família”.

“Tinha acabado de começar a jogar futebol. Antes, jogava nas ruas da Madeira com os meus amigos. E quando digo a rua, não quero dizer uma estrada vazia. Eu realmente quero dizer uma rua. Tínhamos que parar o jogo sempre que os carros passassem. Era completamente feliz ao fazer isso todos os dias, mas o meu pai era o roupeiro do CF Andorinha e ele continuava-me encorajando para jogar na equipa juvenil. Eu sabia que isso o deixaria realmente orgulhoso, então eu fui”, começou por dizer o ‘astro’ madeirense, explicando de seguida como se procedeu a adaptação ao futebol profissional.

“No primeiro dia havia muitas regras que não entendi, mas adorei. Fiquei viciado na estrutura e no sentimento de ganhar. O meu pai estava junto à linha em cada partida com a sua grande barba e as calças de trabalho. Ele adorava. Mas a minha mãe e as minhas irmãs não se interessavam pelo futebol”, prosseguiu Cristiano Ronaldo.

Ronaldo escreve testemunho emocionante: “A minha mãe e as minhas irmãs não se interessavam pelo futebol”

Todas as noites durante o jantar, o meu pai continuava tentando recrutá-los [família] para me ir ver jogar. Era como se ele fosse o meu primeiro agente. Lembro-me de voltar a casa dos jogos com ele e ele dizer: “O Cristiano marcou um golo!” e diziam: “Oh, óptimo”. Mas não ficavam excitados, sabe?”, lamentou.

Ainda assim, o momento que Cristiano Ronaldo guarda na memória quando tinha sete anos, a mesma idade que Cristiano Ronaldo Júnior tem agora, é a de quando pela primeira vez a sua mãe e irmãs o foram ver jogar.

“Mas ainda assim, eu olhava para as bancadas antes de cada partida e via o meu pai lá sozinho. Então, um dia - nunca esquecerei essa imagem - eu estava aquecendo e olhei para cima e vi minha mãe e minhas irmãs sentadas juntas nas arquibancadas. Não estavam batendo palmas nem gritavam, elas estavam-me acenando, como se estivesse num desfile ou algo parecido. Elas definitivamente pareciam que nunca tinham ido a um jogo de futebol antes. Mas eles estavam lá. Isso era tudo o que me importava”.

Ronaldo escreve testemunho emocionante: “A minha mãe e as minhas irmãs não se interessavam pelo futebol”

As dificuldades financeiras da altura foram também recordadas. “Naquele momento não tínhamos muito dinheiro. A vida era difícil naquela época. Eu estava jogando com botas antigas que meu irmão me dava ou os meus primos. Mas quando és criança, o dinheiro não importa”, revelou Cristiano Ronaldo.

Agora, Cristiano Ronaldo olha “para trás na memória com nostalgia, porque esse período da minha vida acabou por ser curto”, embora reconheça que o futebol lhe “deu tudo”, mas também levou-lhe para “muito longe de casa antes que estivesse realmente pronto”.

Quando eu tinha 11 anos, mudei-me da ilha para a academia do Sporting de Lisboa, e foi a época mais difícil da minha vida. É uma loucura para mim pensar nisso agora. O meu filho, Cristiano Jr., tem 7 anos enquanto escrevo isto. E eu só penso em como me sentiria, arrumando uma mala para ele em quatro anos e enviando-o para Paris ou Londres. Parece impossível. E tenho certeza que pareceu impossível para os meus pais fazer isso comigo”, afirmou o capitão da selecção portuguesa de futebol.

Ronaldo escreve testemunho emocionante: “A minha mãe e as minhas irmãs não se interessavam pelo futebol”

Recordando a ida para a capital portuguesa aquando do seu ingresso no Sporting, Cristiano Ronaldo diz que foi a sua oportunidade de perseguir os seus sonhos. “Chorei quase todos os dias. Eu ainda estava em Portugal, mas era como mudar para outro país. O sotaque tornou-se uma linguagem completamente diferente. A cultura era diferente. Eu não conhecia ninguém e era extremamente solitário. A minha família só me podia visitar a cada quatro meses”, afirmou o jogador de 32 anos.

Alguns dos seus treinadores afirmavam que ele tinha imenso talento, mas que era franzino. O facto de ser magro e não ter músculos fez-lhe então tomar uma decisão aos 11 anos de idade. “Eu sabia que eu tinha muito talento, mas decidi que iria trabalhar mais do que todos. Eu ia parar de brincar como uma criança. Eu ia parar de agir como uma criança. Eu ia treinar como se eu pudesse ser o melhor do mundo”, afirmou, acrescentando que não sabe de onde veio esse sentimento, mas que estava dentro de si: “É como uma fome que nunca desaparece”.

Ronaldo escreve testemunho emocionante: “A minha mãe e as minhas irmãs não se interessavam pelo futebol”

“Quando comecei a jogar profissionalmente aos 17, a minha mãe mal podia assistir por causa do stress. Ela via-me a jogar no antigo Estádio José Alvalade, e ela ficava tão nervosa durante os grandes jogos que chegou a desmaiar algumas vezes. A sério, ela desmaiou”, confidenciou, prosseguindo com o que na altura dizia a Dolores Aveiro: “Eu dizia a ela: “Lembra-se quando não se importava com o futebol?

“Ao início, ganhar troféus foi muito emocionante para mim. Lembro-me quando ganhei o meu primeiro troféu da Liga dos Campeões em Manchester, foi uma sensação esmagadora. A mesma coisa com o meu primeiro Ballon d’Or. Mas os meus sonhos continuaram a ficar maiores. Esse é o objetivo dos sonhos, certo? Sempre admirei o Real Madrid e queria um novo desafio. Eu queria ganhar troféus em Madrid e quebrar todos os recordes e tornar-me uma lenda do clube”.

Ronaldo escreve testemunho emocionante: “A minha mãe e as minhas irmãs não se interessavam pelo futebol”

E foi precisamente ao serviço dos ‘blancos’ que Cristiano Ronaldo sentiu o melhor momento da carreira. “Quando penso nisso sinto-me ‘quente’. Foi o momento no campo depois de vencer a última final da Champions League em Cardiff. Nós fizemos história naquela noite. Quando eu estava no campo após o apito final, senti como se estivesse a enviar uma mensagem para o mundo. Mas então o meu filho veio para o campo e comemorou comigo e foi como um toque de um dedo. De repente, toda a emoção mudou. Ele estava correndo com o filho de Marcelo. Então caminhamos ao redor do campo, de mãos dadas”.

“É uma alegria que não entendi até que eu fosse pai. Há tantas emoções acontecendo simultaneamente que não se pode descrever o sentimento em palavras. A única coisa em que posso compará-lo é como eu me senti quando eu estava aquecendo na Madeira e vi a minha mãe e a minha irmã a se encolheram nas arquibancadas”.

“Depois de 400 jogos com o Real Madrid, vencer ainda é minha principal ambição. Eu acho que nasci assim. Mas o sentimento depois que eu ganho definitivamente mudou. Este é um novo capítulo da minha vida”.

O testemunho pode ser lido na íntegra aqui.

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