Sem imagens

Este é o primeiro texto que aqui publico sem imagens, num dia em que elas se repetem incansáveis, a recordar aquilo que não pode ser esquecido. Foi há dois anos que a água e a lama irromperam num dia quotidiano como este.

Uma manhã em que a chuva perdeu a conta à água, um dia em que a ilha explodiu de raiva e semeou a morte, o desespero, os olhos incrédulos, as mãos vazias.

Não havia memória. Só nos livros, na história que nos parece sempre distante e irrepetível, apesar da experiência dizer o contrário.

A ilha já tinha chorado assim, mas não neste tempo de coisas domésticas e domesticadas. Não neste tempo em que a tragédia se faz em directo.

Fomos todos apanhados na surpresa, no perigo que afinal, percorria o mesmo caminho que nós. Lado a lado. Fomos apnhados dentro dos carros, dentro de casa, na rua rotineira, nos gestos de sempre.

Fomos apanhados de espanto e de medo. A cidade irreconhecível, as ribeiras bravas, todas elas, e não apenas as que trazem a raiva no nome.

A morte fez-se coisa real, concreta, na rua até então segura, corriqueira, diária.

O medo também existe onde parece não ser possível. Nascido de nós, da chuva, de um dia, de uma data, subitamente marcada, real e certa.

 

 

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Raquel Gonçalves

A preto e branco será, essencialmente, um espaço de criatividade. As cores referem-se à escrita e à imagem. As duas a preto e branco, num exercício de representação da realidade e num movimento de retorno a uma certa simplicidade cromática para melhor ver o mundo.

O dia e a noite, a sombra e a luz, a página branca e o traço negro das letras. É no imenso escuro ou na luz mais intensa que melhor se desenha o coração.

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