Sem imagens
Este é o primeiro texto que aqui publico sem imagens, num dia em que elas se repetem incansáveis, a recordar aquilo que não pode ser esquecido. Foi há dois anos que a água e a lama irromperam num dia quotidiano como este.
Uma manhã em que a chuva perdeu a conta à água, um dia em que a ilha explodiu de raiva e semeou a morte, o desespero, os olhos incrédulos, as mãos vazias.
Não havia memória. Só nos livros, na história que nos parece sempre distante e irrepetível, apesar da experiência dizer o contrário.
A ilha já tinha chorado assim, mas não neste tempo de coisas domésticas e domesticadas. Não neste tempo em que a tragédia se faz em directo.
Fomos todos apanhados na surpresa, no perigo que afinal, percorria o mesmo caminho que nós. Lado a lado. Fomos apnhados dentro dos carros, dentro de casa, na rua rotineira, nos gestos de sempre.
Fomos apanhados de espanto e de medo. A cidade irreconhecível, as ribeiras bravas, todas elas, e não apenas as que trazem a raiva no nome.
A morte fez-se coisa real, concreta, na rua até então segura, corriqueira, diária.
O medo também existe onde parece não ser possível. Nascido de nós, da chuva, de um dia, de uma data, subitamente marcada, real e certa.
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