Pesca na Madeira pode superar os Açores no futuro

Quem o diz com números é o director regional de Pescas, Luís Ferreira

20 Mar 2017 / 02:00 H.

O sector das pescas na Madeira teve um ano muito melhor do que os Açores, mas só em termos de quantidades descarregadas. No que toca ao valor do pescado em 2016, ficou muito atrás, menos cerca de 10 milhões de euros. Ora, essa estatística não inclui a Aquacultura, forte aposta da Região Autónoma da Madeira há alguns anos e com vários projectos para multiplicar por 9 ou 10 a produção de peixe, mas que nos Açores só agora, em 2017, dá os primeiros passos com a instalação de um projecto na ilha Graciosa, mas para produção de uma microalga utilizada na indústria alimentar.

Outros três projectos (de um total de oito) estão em análise para as ilhas Terceira, Faial e São Miguel, candidatos a serem financiados pelo Regime de Apoio à Inovação em Aquicultura, através do Fundo Europeu dos Assuntos Marítimos e das Pescas (FEAMP). Na Madeira, a produção actual não ultrapassa as 500 toneladas de peixe anual, mas o objectivo/perspectiva é atingir, em 2020, as 5.000 toneladas.

Nos números recentes noticiados pelo DIÁRIO, onde se destaca que a Madeira facturou menos 10 milhões de euros do que os Açores, apesar de em quantidade (toneladas) ter superado os Açores, o director regional de Pescas, Luís Ferreira lembra que esse é um facto justificado pelo tipo de peixe capturado por cada frota pequeira. No entanto, lembra, que os Açores “facturam mais, mas a Madeira perdeu menos dinheiro”, uma vez que em 2016 perderam 2,144 milhões de euros em relação ao ano anterior, mas a Madeira apenas perdeu cerca de 200 mil euros. “Mantivemos mais ou menos à volta de 15 milhões de euros de facturação, enquanto os Açores passaram de 28 para 25 milhões de euros”, calculou.‘

‘Peixe fino’ faz a diferença

Na questão de terem uma facturação bem superior, o responsável lembra que, em primeiro lugar, são nove ilhas, têm 604 embarcações de pesca activas, enquanto a região só tem 99, estão matriculados 3.151 pescadores e a Madeira tem somente 588, a zona económica exclusiva de 953.633 quilómetros, já a Madeira 446.108 km2, ou seja menos de 50% de mar para pescar.

No entanto, a diferença está também no tipo de peixe capturado, nomeadamente os tunídeos e o peixe-espada preto que são, basicamente, as espécies predominantes nas águas madeirenses, enquanto que os pescadores açorianos têm um mar com grande quantidade de peixe fino, como são o goraz, o pargo, o cherne, o peixe-carneiro, entre outros, que têm “muito valor acrescentado no mercado” e que fazem a diferença, com faturação de 21 milhões de euros.

Como referido, os tunídeos são muito mais valorizados na Madeira do que nos Açores, custando cá mais 0,53 cêntimos por kg e o espada-preto também tem muito mais valor no mercado regional do que no açoriano, cujas embarcações até chegam a vir cá descarregar esse tipo de pescado. “No ano passado, foram descarregados mais 1.606,9 toneladas de tunídeos na Madeira do que os Açores (35,6 toneladas) e mais 1.881 toneladas de peixe-espada preto. Por outro lado, os barcos açorianos descarregaram 4.121 toneladas de peixe fino, enquanto os madeirenses apenas 54 toneladas. Aí está a diferença na facturação”, aponta Luís Ferreira.

Em tempos, frisa, houve duplicação de facturação – descarga e venda na Madeira, também com facturação nos Açores ou vice-versa -, mas isso agora já não existe, assegura o responsável.

Aquacultura é o presente e futuro

Numa aposta já com alguns anos, Luís Ferreira acredita que a Madeira poderá dar cartas e bater os Açores que, como referido acima, ainda está anos atrás na Aquacultura. Neste momento estamos a tirar partido da cultura em ‘offshore’, entre 450 e 500 toneladas e perspectiva-se que até 2020 este valor passe para cinco mil toneladas”, afiança

.Significaria um aumento de 900 a 1.100% em cerca de três anos. “Seria algo extraordinário”, acredita o director regional. “Os Açores não têm essa estratégia porque, naturalmente, as condições de mar também são diferentes. Nós temos essa possibilidade por várias razões, quer pelas correntes marítimas, quer pela temperatura da água, que influencia muito o desenvolvimento dos peixes”, reforça

.O facto é que estas culturas em alto-mar, mas perto da costa, não contam para as estatísticas da pesca. Os 450 a 500 toneladas que retiramos da Aquacultura valem cerca de 2 milhões de euros em primeira venda. Se esta produção crescesse como é expectável e, no mínimo, aos preços actuais representaria um encaixe entre 20 e 22 milhões de euros. “Ultrapassaríamos os Açores em termos de valor do pescado facturado”, acredita. “Já os ultrapassamos na quantidade de peixe ‘selvagem’ descarregado”. E acrescenta: “Tendo em conta os vários projectos de licenciamento (de novas gaiolas) em curso, mas como temos um mar muito grande mas uma orla costeira muito pequena, mexe com muita gente, há que ter em conta os muitos constrangimentos. As empresas estão a preparar-se para instalar já nos próximos meses.

”Sem risco de a Madeira perder, a médio prazo, as actuais quotas de pesca, Luís Ferreira diz que, pelo contrário, a frota madeirense já está preparada para a redução das quantidades existentes de peixe selvagem no mar, precisamente apostando na Aquacultura. Além da pesca predatória, que cada vez mais põe em causa as reservas, há também a União Europeia que aperta o cerco e os limites de pesca. Por tudo isso, a aposta da Madeira é a que se afigura a mais sustentável. A verdade é que quotas de pesca temos assegurado (cerca de 2.900 toneladas), não temos é peixe em quantidade (cerca de 1.900 toneladas). Daí que é importante esta aposta na Aquacultura”, conclui.

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