Saramago gostava da Madeira

Filha do escritor refere que o Prémio Nobel impressionava-se com as serras da ilha

15/11/2010 11:19
Lusa
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O escritor numa conferência na Universidade da Madeira em 2002. Foto: Arquivo
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O Prémio Nobel da Literatura, José Saramago, visitou a Madeira quatro vezes, "gostava" da ilha e "ficou impressionado" com as serras, sobretudo o Curral das Freiras, diz a filha do escritor, declarando recusar qualquer homenagem oficial ao pai nesta região.

Numa entrevista à agência Lusa, Violante Saramago Matos, mencionou que José Saramago esteve na Madeira para fazer três conferências, uma das quais na escola secundária Jaime Moniz, que fará na terça-feira uma homenagem ao escritor, assinalando o 88.º aniversário do seu nascimento, e outra na Universidade da Madeira.
As outras duas deslocações foram para uma exposição de pintura e o casamento da neta, aponta.

"Ele gostava da Madeira, especialmente das serras. Ficou impressionado com duas ou três paisagens, sobretudo o Curral das Freiras, a dimensão e a montanha, a ocupação, os poios (socalcos), o trabalho agrícola que mostra a vontade de vencer a montanha, a génese e timbre de um povo que vai por ali acima construindo, edificando, vencendo", realça.

Violante salienta que nestas visitas José Saramago viu neste território "muito crescimento, mas pouco desenvolvimento", realçando que ele tinha "por comparação uma ilha, Lanzarote", onde são "distintas as preocupações sobre sustentabilidade, ambiente, ocupação do território e as necessidades das pessoas".

Devido a esta "referência comparativa, tinha um razoável desgosto e pena que houvesse na Madeira um conjunto de comportamentos que não eram os melhores" e "criticava politicamente" a situação na região.

Para Violante Matos, "os madeirenses vêem José Saramago como os portugueses vêem José Saramago".

Existe "um respeito, um reconhecimento, um saber, acerca de quem foi José Saramago" e "as pessoas podem não ler" as suas obras "porque não se lê muito e o livro não faz parte da preocupação primeira" neste arquipélago.

Mas "a quantidade de pessoas na Madeira com quem ainda hoje me cruzo e me dão os pêsames pela sua morte, não é outra coisa senão reveladora do respeito e reconhecimento pela figura que ele foi", diz.

Violante Saramago Matos declara que não gostava de ver José Saramago homenageado a nível oficial na Madeira, "porque o pai não se dava bem com a hipocrisia e oficialmente na região nunca foi um escritor a quem sequer se tivesse reconhecido qualidades enquanto tal".

A filha do escritor lembra "a tristeza e mediocridade que foram as declarações que pulularam na Assembleia Regional na altura do Prémio Nobel e a forma como o poder se comportou quando ele morreu".

Para a filha de Saramago, por essas razões, uma homenagem "não corresponderia à verdade e era tudo falso".

A nível nacional, sustenta que "houve uma altura em que o poder se portou mal com José Saramago, e há uma parte do poder politico que continua a portar-se mal, mas o país, as pessoas não o trataram mal".

Recorda que quando morreu, a multidão que passou câmara de Lisboa e que no caminho até o cemitério "houve sempre gente na rua e as pessoas só agem desta maneira quando respeitam, reconhecem, e muitas tinham flores, mas muitas outras tinham livros nas mãos. E isso é bom", concluiu com os olhos cheios de lágrimas.

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Comentários

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A Madeira não se resume a uma Assembleia Regional....A Madeira também é feita de pessoas, que, como eu, têm seus gostos e suas opiniões. E no que toca ao trabalho de José Saramago, posso assegurar-vos que o escritor tinha "um bom clube de fãs" na ilha. Como Madeirense recordo-me de me ter emocionado e de ter perdido a noção de como se fala Português quando apertei a mão de saramago durante uma sessão de autógrafos, nos Açores...emocionei-me como pessoa e sorri-lhe como sua admiradora. Não se deveria rotular sítios: Este sim aquele não...se existem Madeirenses que querem homenagear o homem pois que o façam, impedi-los significa desrespeitar aquilo que admiram e respeitam. Acredito que em todo o mundo existam pessoas que gostam e outras que nem por isso do modo como escrevia Saramago...e o quê? vamos sabutar o mundo? Ainda bem que as divergências existem, quer dizer que ainda mantemos a capacidade de pensar diferente uns dos outros. Adoro Saramago mas nem todos deveriam sentir-se na obrigação de pensar como ele com risco de serem "boicotados" por comentários como este.

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É uma atitude muito bonita e sensata por parte de Violante Saramago.
Talvez um dia essa "homenagem" faça sentido na Ilha da Madeira. Mas ainda não, infelizmente. Não existe essa consciência comum.
Cada um à sua maneira faz uma homenagem às palavras de Saramago, que para mim sempre foram valiosas. Continuarei a ler as suas obras e penso que é a melhor forma de prestar-lhe homenagem.
Até sempre.

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Nem depois de morto e enterrado largam a berguilha do homem !...

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É impressionante como esta senhora tenta fazer campanha política usando as palavras do pai.

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Sra. Violante, admiro-a pelo que é e pelo seu pai! Acredito que deve fazer com os madeirenses se apaixonem pela literatura sobretudo aquelaescrita pelo seu pai, tão rica, tão maravilhosa.... Moro no Brasil e, um dia destes, uma leitora me falava sobre o "ensaio sobre a cegueira". A contundência dos pensamentos, a concisão das palavras..encantaram aquela insuspeitada leitora!

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Até eu estou impressionado com algumas paisagens da Madeira, principalmente as serras do Funchal... Só de pensar o que, com os temporais, pode vir por essas serras abaixo.... Credo!

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