A África do Sul provou ser capaz de organizar um Mundial de futebol bonito, uma autêntica festa, sem incidentes de maior, mas o acordar no dia seguinte poderá trazer fortes dores de cabeça, alertou um académico sul-africano.
Para André Thomashausen, professor de direito internacional comparado na Universidade da África do Sul (UNISA), a grande taxa de desemprego, as ameaças xenófobas e as ameaças de greves generalizadas feitas pelos sindicatos são alguns dos sinais dos muitos problemas que a África do Sul terá de enfrentar a partir de hoje, terminada a "grande festa do futebol".
"Neste ambiente de festa temos de manter a noção de que a África do Sul continua a ser um país em vias de desenvolvimento que, com a ajuda de outros países conseguiu construir excelentes estádios e organizar um Mundial sem insegurança, mas que continua a ser um país com qualquer coisa como 12 milhões de desempregados, que vivem numa pobreza absoluta, com um sistema de educação falido, que não forma os técnicos de que o país precisa e com grandes incertezas na cena política", recorda aquele académico.
Thomashausen afirmou que o partido no poder, o Congresso Nacional Africano (ANC), nunca esteve tão dividido sobre as orientações estratégicas para o futuro e sobre a sua liderança, o que constitui uma enorme "sombra" para o futuro imediato.
"O presidente, apesar dos 70% conseguidos pelo partido nas últimas eleições, parece estar a perder a mão sobre o jogo político e parece cada vez mais uma embarcação perdida no mar alto, balançando ao ritmo dos diversos interesses e centros do poder, como sindicatos e facções", afirmou.
Para o académico e analista político, é bom recordar que muitos milhares de trabalhadores (calcula-se em meio milhão) perderam os seus empregos após a conclusão das muitas obras relacionadas com o Mundial de futebol.
O analista entende que esse "exército" de desempregados colocará mais pressão sobre o governo e alimentará a xenofobia, uma ameaça constante desde 2008, com os sul-africanos a acusar os imigrantes africanos de lhes "roubarem" os empregos, lançando ataques indiscriminados que resultaram em 62 mortos.
"A festa foi bonita mas a ressaca poderá trazer dores de cabeça e de barriga graves", alertou André Thomashausen.
O professor universitário reconheceu que no plano da criminalidade o Mundial decorreu sem grandes problemas, para além de dois ou 3 assaltos à mão armada (um dos quais contra jornalistas portugueses e espanhóis) mas que, mesmo assim, a "criminalidade violenta deverá muito provavelmente disparar após este período de graça".
E critica a forma como as autoridades geriram a crise provocada pela detenção de um jornalista britânico acusado pela polícia de ter ajudado um adepto a furar a barreira de segurança e ter chegado ao balneário da selecção inglesa.
"Apesar de ter praticado um jornalismo um bocado agressivo e sensacionalista, aquele jornalista não poderia ter sido vitimizado como o foi pela polícia nem pelos tribunais (que o consideraram 'persona não grata' na África do Sul e o multaram) uma vez que do ponto de vista legal ele nada mais fez do que convidar o homem que furou a segurança a ir ao seu hotel para lhe fazer uma entrevista", concluiu o académico, que considera a forma como as autoridades lidaram com o caso mais própria de "uma ditadura como o Zimbabué".
UM dos melhores secretários que serviram...


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