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DIÁRIO: Cartas do leitor

Valéria Mendez

Amália ainda lidera
Data: 06-10-2007 Comentários: 0

São para mim, já tantos, os anos que me faltas, Amália.

Amália Rodrigues foi vedeta no tempo em que a Callas, o Sinatra, a Dietrich, a Oum Kalthoum e a Piaf, eram também eles, vedetas. Monstros sagrados. Nos arquivos do Olympia de Paris de Bruno Coquatrix, Amália é, depois de Edith Piaf, a cantora que maior número de vezes se apresentou naquele consagrado espaço. No Scala de Milão, Amália abriu a excepção de, naquele palco histórico, ousar-se fugir da música clássica. O mesmo se passou em Edinburgo. E o mesmo viria a passar-se no Lincoln Center, dirigida pelo então consagrado maestro André Kostelanetz.. Hoje, o Fado continua vivo, e por vezes, de boa saúde, com as novas vozes, e as vozes que ainda em vida de Amália, se destacaram e fizeram (algumas) escola. Raros são os casos em que Amália é revisitada, da forma que merece: Com respeito pela essência vertical, mas que traga algo de novo. As novas fadistas, algumas aventurando-se em concertos internacionais, pecam pela falta de conhecimento do que o fado representa, e alinhavam-se com uma estafante repetição do repertório de Amália, tirado dos disquinhos a metro, cantado com o mesmo ritmo, a mesma orquestração, os mesmos melismas, e até - pasme-se!- as mesmas suspensões ou paragens que Amália fazia. E tudo isto com um senão: Sem a capacidade vocal que Amália tinha na idade que essas novéis fadistas possuem agora, sem sequer saberem (algumas) a diferença entre um grito cantado e um grito gritado, dir-se-ia bem melhor, berrado. E sem a inteligência interpretativa que convém ter, sobretudo se se canta David Mourão Ferreira ou Bernardim Ribeiro!...

E se tudo isto não fosse aflitivo, ainda aparece o descaramento de, em pleno Royal Albert Hall de Londres, cantar-se um "Primavera" (David Mourão-Ferreira e Pedro Rodrigues) ou um "sr. Vinho" (A. Janes), entre outros temas do repertório amaliano, interpretado em versão "cover", sem no entanto ter-se a hombridade de nomear uma vez que fosse o nome de Amália, mesmo que se tenha tido a ousadia de cantar os poemas da sua autoria: "Oh Gente da minha terra" ou "Estranha forma de vida".

Mas, felizmente, nem tudo no Fado de hoje é feito de plástico. Vivemos, é certo, na era do marketing e da comunicação, que trata da mesma forma, uma nova variação de hamburger do MacDonalds, o lançamento dum novo modelo automóvel, ou duma nova cantora ou cantor da actualidade...

Já nos anos oitenta, António Variações demonstrou ser possível trazer algo de novo a um clássico, daqueles bem pesados, de Amália. O "Povo que lavas no rio" (Pedro Homem de Mello e Joaquim Campos) interpretado pelo Variações, honrou Amália e honrou a criatividade da nossa música, com a sua diferente orquestração, distinto "approach" vocal. O mesmo se passou há menos tempo, com as recriações amalianas de Dulce Pontes, preocupada em dar a sua interpretação a trechos do repertório da Diva Maior, inovando-os, sem contudo fugir à essência vertical, isto é, à raiz das palavras e da música. E, graças a Deus, vão aparecendo jovens e menos jovens que, interpretando Amália, desbravam novos caminhos, consolidando assim, a raiz da nossa cultura.

Em 1990, eu própria tive, entre muitas, uma prova cabal da importância de Amália Rodrigues. Encontrava-me em Jerusalém, integrada numa embaixada artística organizada pela Peace Now e pela Associação France-Palestine. Perante mais de dez mil pessoas, discursaram políticos, escritores, jornalistas de renome. Chegara a vez dos artistas darem a sua Voz pela autodeterminação da Palestina. Pela Paz naquela sacrificada zona do globo. Georges Moustaki, Collette Magny e Yussuf Islam, ou melhor, Cat Stevens, davam o seu melhor pela Causa. Eu, Valéria Mendez, pobre cantora insular, portuguesa, completamente desconhecida, também lá me encontrava. Porventura pelo meu activismo político. Depois de ouvir o meu nome, seguido da palavra Portugal, os acordes do "Abril em Portugal" (Coimbra) ressoaram junto às portas de Damasco, nas Muralhas da Cidade Velha, onde se realizara o evento. E foi de ir às lágrimas verificar que, árabes, judeus, europeus, todos em uníssono trauteavam o lá lá lá do fado "Coimbra" (Raul Ferrão). Escusado será dizer que os aplausos, a participação que a minha actuação tivera naquele momento, não representara a força do meu eventual talento, mas sim a força do polvo que foi, e é, Amália Rodrigues. Por isso, a nomeei no final da minha actuação.

Ainda no mês passado, a grande fadista Mísia iniciou um dos seus concertos em França, com a "Lágrima" (Amália e Carlos Gonçalves). E repetiu-se tudo. O reconhecimento. Os aplausos. A presença de Amália.

E no entanto, são já tantos, os anos que me faltas, Amália.


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