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DIÁRIO: Cartas do leitor

Dina Teixeira Gomes - Especializada na problemática da deficiência

A propósito de surdos e surdez
Data: 15-10-2008 Comentários: 0

Nos últimos tempos tem-se visto em alguns artigos saídos na imprensa local o termo "surdos" ser aplicado de forma incorrecta e indiscriminada. Penso que ao utilizarem o termo as pessoas se querem referir à deficiência auditiva em geral e não à surdez em particular, pois esta é um dos graus de deficiência auditiva como, por exemplo a cegueira o será da deficiência visual.

Não se pode nem se deve confundir e usar indiscriminadamente estes termos. No caso da audição há que localizar com precisão o problema (ouvido externo, ouvido médio, ouvido interno e região coclear) pois a sua localização no mecanismo da audição, a altura da vida em que o problema surgiu e se agudizou, as consequências que daí advieram e as exigências e formas de intervenção a utilizar não são as mesmas para todos os casos. Por outro lado, antes mesmo de nos ocuparmos da integração da criança, se não estão preenchidos todos estes requisitos, há que lutar contra a sua desintegração partindo mais das suas potencialidades como crianças que são, do que das suas limitações. Para isso impõe-se mudar certas mentalidades, olhando e valorizando aquilo que torna cada criança como "única".

A intervenção dos responsáveis será complementada com todos os apoios e técnicas necessárias existentes, de forma a que todas as crianças possam crescer "sem violência" e de acordo com a sua realidade pessoal. Em tempos tive oportunidade de referir nos meios de comunicação social que integrar implica tanto o integrador como a pessoa a integrar, daí a necessidade de estudarmos a fundo a problemática da deficiência e quem a vai pôr em prática, os apoios disponíveis, as exigências e limitações da sociedade de forma a que todos caminhem no mesmo sentido a fim de dar consistência à integração e segurança à criança a integrar.

A Madeira, no capítulo da educação de deficientes de audição, tem uma experiência desde 1963/65 coordenada e dinamizada então pelo professor Eleutério Gomes de Aguiar, que foi reconhecida, tanto a nível nacional como internacional, como experiência inovadora que revolucionou o que até então se fazia no nosso país. Pena é que alguns dos implicados na matéria não tivessem, por não querer ou não saber, dado continuidade ao que então fora iniciado, permitindo que se interrompesse o despiste e intervenção precoce como prática que durante muitos anos foi corrente na Região em educação especial. Lembro das equipas multidisciplinares na altura criadas onde a colaboração de todos foi imprescindível. Nada foi feito ao acaso e de animo leve. Depois do que vimos pelo país fora sabíamos ao escolher esta forma de intervir que estávamos no caminho certo. A par dos serviços de saúde e educação contava-se com intervenção das famílias, dos serviços sociais, da psicologia recém-chegada e ainda sem experiência nesta área e da comunidade em geral incluindo a religiosa sem a qual o nosso trabalho não teria chegado a todos os recantos da Região. Pelo que se viveu nesta terra penso que mais do que dar ênfase ao local actual de intervenções e às técnicas previamente escolhidas há que estudar de forma muito responsável a resposta a dar a cada situação real.

O caminho a seguir não poderá ser o de dar o mesmo a todos mas de dar a cada um aquilo de que necessita. Só assim se poderá consolidar o desenvolvimento afectivo, cognitivo, social e académico das pessoas com deficiência. Nisto parece estarmos minimamente de acordo com o que parece ser a vontade de alguns dos nossos governantes.

Agradecendo a oportunidade de voltar a expressar a minha forma de ver, pensar e sentir a problemática da deficiência auditiva, subscrevo este artigo na convicção de que contribuí para clarificar a situação ajudando aqueles que têm o espírito aberto a ideias mesmo que não sejam as suas.


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