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"Somos o caixote do lixo das emoções das pessoas", confessa o director do serviço de psiquiatria do Hospital Central do Funchal.
Foto Octávio Passos/ASPress.
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Entrevista com o psiquiatra Ricardo Alves
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Álcoolismo confidente do suicídio
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Psiquiatria reforça-se para combater actual taxa de 10 suicídios por 100 mil pessoas.
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Data: 22-11-2009 Comentários: 0
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O alcoolimo continua a ser o grande mal da sociedade e assume-se agora como o maior confidente do suicídio. O director do serviço de psiquiatria do SESARAM condena a venda de bebidas a menores, a doentes psicóticos e a indivíduos embriagados. Também o fácil acesso a herbicidas leva Ricardo Alves a recomendar que se legisle no sentido de controlar a venda e de responsabilizar os comerciantes. Aos jovens, o psiquiatra alerta para a importância de se socializarem, de crescerem em grupo e de partilharem as experiências dos seus progressos e insucessos. O facilitismo que os pais incutem nos filhos, também merece reparos: "Eles vivem num Mundo onde a recompensa é imediata e agora não sabem esperar". Abstrair-se do mundo exterior e mergulhar nos 'chats' de conversação da Internet esconde alguns perigos: "Falam virtualmente e, para eles, a morte é virtual".
Na Madeira, o suicídio tem sido notícia. Vive-se uma era do pessimismo. O que está na origem disto? É um modelo integral. São diversos factores. De uma forma sucinta, podemos considerar como se fosse uma tríade: de um lado está o indivíduo, na outra ponta do triângulo está o contexto e no terceiro ponto está o acesso aos meios. Isso já vem desde as grandes crises. Esse fenómeno já foi estudado. O próprio Durkheim, que é quase o pai da sociologia, já referia isso. Quando existiam as grandes crises, com o tal desemprego, a sensação de desesperança, ou seja, que já nada vale a pena, a pessoa de um momento para o outro perde a noção do controlo sobre a sua vida, do provir e do futuro. É nestes casos de crise social, financeira, económica, onde há, enfim, o aumento da incidência das tentativas de suicídio.
Isto surge a partir da depressão, motivada por situações como o desemprego, a perda de capacidade financeira? Obviamente que qualquer situação que interfira e que seja um stress crónico acentuado ou um stress agudo que desestabilize o 'eu', pode levar a uma situação de ruptura. E pode acontecer a ideação suicida que, posteriormente, se não for detectada a tempo, pode passar a intenção suicida e daí ao acto. Este caminho pode ser influenciado por múltiplos factores protectores e de risco. Entre os de risco temos o desemprego, o divórcio, a perda afectiva recente, o alcoolismo, enfim, o fraco suporte social e/ou familiar e a doença mental como as depressões, as esquizofrenias, tudo isso. E os factores protectores, tem a ver com o bom suporte e integração social: ter um confidente, haver uma boa rede de saúde mental.
Portanto o problema combate-se através dessa rede social protectora. E a partir de que momento é que deve entrar em serviço a psiquiatria? A consulta de prevenção do suicídio do serviço de psiquiatria, que entrou em funcionamento aqui no hospital há cerca de dois anos, visa detectar e avaliar os casos que são chamados fundamentalmente através do serviço de urgência. Nós avaliamos os factores de risco e fazemos a intervenção e acompanhamento. A consulta é multidisciplinar. Tem um médico psiquiatra, um psicólogo, uma enfermeira de saúde mental e visa dar apoio de modo quase imediato e sempre que se justifique.
Os pacientes vêm parar à psiquiatria por indicação de familiares e amigos ou pelos seus próprios pés? Não. Regra geral, são situações que são sempre canalizadas através das unidades concelhias, sempre através da pré-triagem ou do serviço de urgência ou de colegas dos outros serviços. Isso porquê? Porque exige triagem médica. Porque, como se compreende, nós somos pouquinhos cá, e temos de rentabilizar o nosso potencial instalado e a triagem médica é sempre importante.
Quantos médicos psiquiatras prestam serviço no hospital? Actualmente somos quatro. Houve um aumento. Nós contámos este ano com duas novas psiquiatras e teremos, em 2011, mais dois. Obviamente que os dois já faziam muito, quatro é óptimo e seis será o ideal.
Estamos a falar de quatro médicos psiquiatras para quantos utentes? Se considerarmos que a população da Madeira são 240 mil habitantes e se, aproximadamente, 40 a 50 mil são jovens, nós somos psiquiatria de adultos e, com seis psiquiatras, ficaremos com um rácio de psiquiatra por habitante óptimo, de acordo com o que indica e sugere a Organização Mundial da Saúde para o serviço público.
Mas quantas pessoas são atendidas em média por mês aqui? Nós estamos a falar de 300 a 350 consultas por mês de psiquiatria de adultos. É claro que não estão aqui contabilizadas as perícias médico-psiquiátricas no âmbito forense ou as consultas de psicologia que nós aqui também fazemos, contando para isso com três psicólogos.
Tão poucos psiquiatras para tantos casos. Como é que isso se faz? Boa pergunta. Com dedicação e com aquilo que vulgarmente se diz: é preciso vestir a camisola e suar. Mas quem trabalha por prazer não cansa. Não cansa mas desgasta obviamente que sim, é altamente desgastante. Mas temos o nosso sentido, porque somos médicos, temos princípios, temos éticas e valores em que acreditamos. Neste caso, a psiquiatria é uma área que, apesar de ser vista como o parente pobre da medicina...
É preciso ter estofo e algum distanciamento para lidar com os problemas das pessoas? É, mas nós aprendemos a lidar como isso.
Sente que por vezes leva para casa a carga emocional dos seus pacientes? Não.
Qual é o segredo? É meu. Aprendemos a lidar com isso, na especialidade logo nos primeiros anos. Eu tive sorte de fazer a minha formação no Hospital da Universidade de Coimbra, dirigido pelo professor Vaz Serra e, logo desde início, a minha orientadora perguntou: "Ricardo, o que é que você gosta de fazer como 'hobby'?" E eu lá respondi. E ela disse-me: "atreva-se a deixá-los!", assim, com um ar ameaçador. Eu percebi logo a mensagem. Nós somos preparados ao longo da especialidade a lidar com a dor, com a perda. Nós na prática, muitas vezes, o que é que somos? Somos o caixote do lixo das emoções das pessoas. Nós passamos o dia inteiro a encher, encher, encher, e isso é uma grande carga. E se não temos mecanismos de libertação, torna-se complicado.
Qual é a dimensão da lista de espera na psiquiatria hospitalar? Enfim, cada caso é um caso. Os casos urgentes e graves têm atendimento imediato. Os outros com menor grau de urgência, estamos a falar numa espera à volta dos três meses, no máximo.
Em 2005, a unidade de psiquiatria do Hospital do Funchal assumia a intenção de fazer o levantamento dos casos de suicídio tentado e consumado para melhor diagnosticar e intervir. Isso já foi concretizado? Está a ser concretizado. Obviamente que estamos a falar de casos de tentativas de suicídio ou de parassuicídio que entraram no serviço de urgência. Está a ser elaborado desde 2006, 2007. Já temos os dados de 2008 e estamos a aguardar os de 2009. Só assim fazendo uma análise comparativa podemos avaliar a evolução.
Em termos evolutivos como está o fenómeno aqui na Madeira? Creio que se mantém mais ou menos igual ao do nível nacional.
Qual é a actual taxa de suicídio? Aproximadamente dez casos em cada 100 mil pessoas.
A ideia deste estudo era traçar o perfil do potencial suicida para depois avançar com campanhas de prevenção. O que é que nos pode adiantar em relação a isso? A identificação dos grupos de risco é muito importante. Um deles são os portadores de doença mental. Outro factor de risco, e existe uma grande comorbilidade nas tentativas de suicídio frustrados, nos parassuicidas e nos suicídios consumados, que é o alcoolismo.
O alcoolismo está presente em que percentagem de casos? Nas tentativas de suicídio é muito elevado. Atrever-me-ia a dizer que na ordem dos 80 a 90%.
É a partir deste ponto que se deve travar o suicídio? O alcoolismo já foi, é e continua a ser um grande problema da nossa sociedade. O padrão de consumo tem vindo a alterar, assim como a idade de início, o tipo de bebida e a forma como se bebe. Tudo isso tem vindo a alterar-se. Nós conseguimos identificar os grupos de risco onde o alcoolismo está a ter um maior impacto. Nós trabalhamos em estreita colaboração com o Departamento de Saúde Mental, onde há uma unidade de alcoolismo, e a identificação deste como um factor de elevada prevalência nos comportamentos suicidários já foi sinalizado. A Unidade de Alcoologia tem isso em mente e, enfim, fará campanhas e intervenções nesses grupos de risco.
O que falta na vida das pessoas? Felicidade? Optimismo, acreditar em si próprio, haver maior interligação entre as pessoas, promover a socialização, a partilha. A mim faz-me um pouco de impressão estes jovens. Eu tive a felicidade de fazer parte de uma geração que aprendeu a crescer em grupo: convivíamos, jogávamos à bola, partilhávamos as experiências dos primeiras namoros, das desilusões. Hoje em dia, os jovens falam imenso uns com os outros, mas atrás do teclado. Isso não é falar uns com os outros.
É um mundo virtual, as crianças já não brincam lá fora... Falam virtualmente e para elas a morte é virtual.
Tem tido casos desses aqui no seu gabinete? Nós damos mais apoio aos adultos. Obviamente que no serviço de urgência somos contactados para intervir em casos de jovens que tentaram se suicidar e vemos que há ali um desajuste da realidade. Eles vivem num Mundo onde a recompensa é imediata, onde não há aquela espera para aguardar a recompensa. Não sabem lidar com esse compasso de espera.
É um pouco na sequência das telecomunicações, dos jogos, onde tudo é imediato. Por um lado ainda bem que assim é, mas para jovens que estão em formação da sua personalidade, eles não sabem fazer esse discernimento, eles não conseguem separar a própria realidade do seu mundo virtual onde tudo é possível, tudo é permitido e tudo é rápido. E a vida real não é assim. Ao serem confrontados com as frustrações, com os 'nãos', por vezes fazem comportamentos enviesados, porque é uma comunicação enviesada para atingir os seus objectivos.
Pelos dados de que dispõem até agora, o suicídio está a aumentar na Madeira? Isso não lhe posso dizer. Já entrei em contacto com o Gabinete de Medicina Legal e até agora temos estado a avaliar os casos de tentativas de suicídio frustrados e de parassuicídio. Casos que deram entrada nas urgências do hospital. Estamos em contacto permanente e a elaborar um projecto juntos para, aí sim, avaliar os casos de suicídio consumado. Nesse aspecto ainda não tenho os dados.
E pelos casos que lhe chegam aqui ao hospital? Eu creio que mantém-se mais ou menos estável. O que não quer dizer que são poucos.
Continua a haver casos de suicídios cometidos pela ingestão de herbicidas... Muitos casos. Infelizmente, o acesso aos herbicidas é demasiadamente fácil. Urge criar, nem que seja través de legislação própria, alguma dificuldade e estabelecer critérios de controlo de venda e de responsabilização dos postos de venda. Porque, enfim, os agricultores precisam dos herbicidas, mas se chega um com sinais manifestos de alcoolismo e com um comportamento estranho que indicie desorganização emocional, não se pode vender um produto que é letal.
Por outro lado, nós também vemos estabelecimentos que vendem bebidas alcoólicas a menores ou a pessoas que manifestem sinais de embriaguez, perturbações mentais ou estejam muito estilizados. E nós sabemos muito bem o que é que depois acontece.
Juíz Mário Silva: suicídios não devem ser notícia de 1.ª página
O juiz do Tribunal de Família e Menores, Mário Silva, sugere uma reflexão sobre o actual modelo de sociedade que estamos a construir para os jovens. "O suicídio e o parassuicídio (tentativa de suicídio) são problemas que naturalmente me preocupam e que me levam a reflectir sobre o modelo de sociedade que estamos a construir, nomeadamente para os nossos jovens, com a busca exaustiva da perfeição aos vários níveis e com expectativas por vezes excessivamente altas".
O juiz defende que a difusão de notícias sobre casos de suicídio deve ser muito ponderada, devido a dois fenómenos: "o chamado síndroma do macaco de imitação" ('copycat syndome') e o efeito de grupo - um suicídio adolescente numa dada comunidade é, frequentemente, seguido por um certo número de outros suicídios.
Por isso, Mário Silva entende que os órgãos de comunicação social "devem reconsiderar as notícias de primeira página e as reportagens televisivas que apresentam sobre mortes causadas por suicídios". O juiz explica que não se trata de uma atitude de censura, mas sim uma tentativa de salvar vidas, dado que as histórias sobre suicídios exercem uma influência negativa sobre os adolescentes. "Não podemos ignorar que, em regra, os jovens são especialmente vulneráveis às influências do exterior, dadas as suas características, em termos de desenvolvimento, ligadas à conformidade social e à falta de individualidade".
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Ricardo Duarte Freitas
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