PAUS: “Tudo neste disco é sobre a Madeira”

Leia a entrevista completa da banda, com imagens dos ensaios

22 Set 2017 / 19:00 H.

Está a ser limado na Madeira e sai no início do próximo ano. O nome do quarto disco dos PAUS ainda é segredo, mas as arestas tocam nos ilhéus, na vegetação sub-tropical e naquilo que definem como “insularidade aberta”. A ilha entra no disco e os PAUS nela. Montaram o estúdio numa divisão na Quinta de Santa Luzia onde o silêncio só se rompe quando arrancam sons das duas baterias, bombo e tarola à mistura, sintetizadores e baixo. A melodia crua e envolvente - antítese da descontracção e tranquilidade que se revela quando largam os instrumentos. Enquanto Fábio Jevelim e Makoto Yagyu ensaiavam para o concerto desta sexta-feira no Jardim Municipal, conversámos com Hélio Morais e com Joaquim Albergaria - como se estivéssemos todos em casa.

Na prática, o que fazem nesta residência artística na Madeira?

Hélio Morais (HM): Pela primeira vez na história dos PAUS vamos ter material gráfico, foto ou vídeo, que suporte o disco todo. E de uma forma coerente e vasta. Às vezes é preciso escolher o single em cima do joelho, mas tem de ser aquele porque o videoclipe já está gravado. Neste caso, temos o privilégio de ter oito singles gravados com vídeos, e depois escolhemos. Faz toda a diferença, dá-nos espaço de reflexão. E tudo o resto: capa do disco, fotos de banda ou para cenário de palco, vídeo para palco... É tudo feito cá. Temos os nossos técnicos de som e de luz aqui e estamos todos a absorver do mesmo para a coisa ter coerência.

Mas na Madeira?

Joaquim Albergaria (JA): Já tínhamos estado cá a tocar na Estalagem [Concertos L, 2005]. Ficámos cinco dias, mas só na Ponta do Sol.

HM: Saímos uma vez para ver baleias e não vimos nada [Gargalhadas].

JA: Em Dezembro [2016] pusemos discos na Barreirinha e a malta do Aleste fez-nos uma visita guiada pela ilha. Bastante pontuada a poncha. No Pico do Areeiro percebemos a área da ilha e a diversidade da vegetação, as diferenças culturais, os sons que existem. E a abertura, a não insularidade das pessoas. É um sítio especial com que nos identificamos. A nossa história com a Madeira começou aqui. Mais tarde o Pedro Azevedo [Aleste] lançou-nos o desafio de fazer esta residência artística do Aleste, o Carta Branca.

HM: O convite surgiu quando já tínhamos gravado instrumentais. O disco estava mais ou menos formado em termos de personalidade.

JA: As pontas uniram-se: havia qualquer coisa no som que estávamos a fazer que casava com a nossa impressão da Madeira. É tropical, mas não é bem; é europeu, mas não é bem; é africano, mas mais ou menos; é latino-américa, mas não. Tínhamos isto tudo misturado sem ser de lado nenhum e fazia sentido real casar as coisas. Aceitámos a residência, ‘bora acabar o disco lá’, e de repente a Madeira começa a aparecer nas letras, nos arranjos. A cada dia íamos pensando e criando coisas. O laço estava mais apertado.

Faz com que o novo disco seja disruptivo em relação aos anteriores?

HM: Disruptivo não, é uma evolução. Há mais bagagem de disco para disco – ou menos, até. Às vezes há coisas que já sabemos que são gorduras e que deixamos de lado.

JA: Ele é diferente, mas é consequente.

HM: Sentimos isso de disco para disco, porque não temos um processo criativo longo e demorado. Não há muito tempo para colar as pontas com discos anteriores. Vamos para estúdio , compomos e gravamos em simultâneo. A maior parte das coisas que se ouvem no disco são da primeira vez em que as tocámos. Fica logo registado. Tem coerência dentro do próprio disco, mas pode ser radicalmente diferente do anterior. E o mood influencia: se estamos muito felizes, sai uma coisa mais alegre, mas se estamos tristes, pode sair uma coisa negra. Isso faz com que os álbuns sejam todos muito diferentes. Mas não sinto que seja disruptivo, acho que é um ‘ganda’ disco dos PAUS. Olho para a nossa discografia e sinto muito orgulho deste disco.

Já tem nome?

HM: Há um nome mas vamos ter que o confirmar aqui [risos].

JA: Estávamos à procura das experiências aqui para dar nomes às coisas. Algumas delas têm letra e é mais fácil definir os títulos. Os outros vieram para cá à espera de nome. O disco já está misturado e a ordem das canções está praticamente decidida.

Quantos videoclipes já gravaram?

HM: Completos, três. E gravámos mais partes, e outras que só serão usadas ao vivo. E mais uns que encaixam noutras peças. Não podemos dizer ainda onde, mas estivemos no Porto Moniz, perto da ponta de São Lourenço. Andámos por aí.

Sabiam o que iam gravar e onde?

HM: O Ernesto [Bacalhau, realizador] e o Tomás [Braz, director de fotografia] chegaram antes para fazer repérage, ver os sítios com o pessoal do Aleste.

JA: Temos tudo mapeado. O resultado final vai ser bastante descontraído, mas estes dias respondemos a um Excel.

Como é esse mapa?

HM: Normalmente acordamos para ir filmar e tem a ver com horas de luz para ter a melhor fotografia ou vídeo. Mas há dias em que o foco é ensaiar aqui [Quinta de Santa Luzia], porque ainda estamos a aprender as músicas. Nunca as tocámos juntos, gravamos sem ter ensaiado. E temos de aprender a tocá-las. o dia nunca corre igual. Mas ainda conseguimos dar um mergulho na Fajã dos Padres no dia em que chegámos, foi incrível. E fizemos a Levada dos Balcões, mais acessível e com paragem para a poncha.

E também estão a gravar um documentário...

HM: Só será gravado aqui, tudo neste disco será sobre a Madeira. É uma coisa sobre estes dias, mas ainda não está nada definido. Temos de perceber onde se vai encaixar. Era bom vê-lo em festivais há uns mais específicos para música, outros para viagens... Isto acaba por ser uma viagem para nós.

JA: Agora que gravámos, cantámos e tocámos em cenários na Madeira, ganhou ainda mais ligação.

HM: O Rodeado a Mar então... essa é muita forte.

Já estava escrita ou adaptou-se?

JA: As letras surgiram quando tivemos consciência que vínhamos. Começa a aparecer esta noção de ilha, de insularidade aberta. Parece que os madeirenses são de uma ilha, mas não olham só para dentro. É um movimento centrífugo. Ou seja: ´Quem é que chega? Quem é que pode absorver? Onde é que podemos ir para depois voltar?’ Que é um pouco a perspectiva do português de hoje - está a mudar. Para absorver, incorporar, tornar seu, mas nunca renegar.

No continente, fruto da globalização. Aqui, da insularidade antes de tudo?

JA: Mas uma insularidade completamente diferente de uns ingleses ou de uns açorianos que são um pouco mais fechados. Claro que ainda não conhecemos o suficiente, mas temos interesse nisso. Os madeirenses são mais abertos. São daqui, a vossa terra tem limites, mas a curiosidade não. Isso interessa-nos, tem a ver com a forma como fazemos música. E este disco tem esse espírito.

Revêem-se na caracterização de rock renovador que por vezes vos colam?

HM: Rock sim. Renovador é uma herança muito pesada.

JA: E depois tem a velhice logo à porta. Alguém que renova envelhece logo depois.

HM: Rock centrifugador faz mais sentido.

JA: Sim, isso é mais fixe. Não há uma preocupação de missão estética assim tão inculcada, o processo não é tão consciente. Juntamo-nos a fazer música, não há um preparado. Não é tão reactivo, é mais natural. O renovador implica uma reacção a alguma coisa que vem antes.

HM: Sim, e nós incorporamos mais do que nos afastamos.

Na linha do último disco (Mitra) de ‘não pertencer a lado algum, mas pertencer a todos ao mesmo tempo’?

HM: Essa é a nossa matriz. Essa de estar em situações desconfortáveis. O desconforto dá-nos conforto. Tanto do ponto de vista de realização pessoal, como artística.

JA: E de não estarmos desconfortáveis em sítio nenhum. Aprendemos sempre qualquer coisa. Sair do ambiente e perceber, aprender, uma coisa nova. Faz-nos mudar.

HM: Faz não ser velho. Uma das características mais vincadas da velhice é a resistência à mudança, a assunção de que há mais certezas. Tenho mais certezas, mas tenho bastantes mais dúvidas quanto mais tempo passa. Isso é fixe. Se não tens incertezas acomodas-te, vais para a direcção da SPA [gargalhadas].

JA: Estar pronto para mudar, para não envelhecer. Parar de perguntar é deixar de fazer coisas que valem a pena. Mais do que fazer e produzir, é ter a experiência e ir à procura de alguma coisa que não tenhamos feito. Se estivéssemos acomodados fazíamos um disco igual ao outro e não estávamos na Madeira.

Têm medo da velhice?

HM: Não. Tenho medo de soar a velho. E hoje já me doem mais as costas a tocar, confesso que isso me assusta, está muito presente. Somos um bocadinho brutos a tocar. Mas não me entrego a esse receio.

Além dos instrumentos que tocam, têm outras tarefas dentro da banda?

JA: Temos, mas é natural. Tem a ver com as aptidões de cada um. Uma das bênçãos da banda é cada um ocupar-se de lados diferentes, mas complementares.

Tais como?

JA: O Fábio e o Makoto são mais vocacionados para a produção áudio. Eles são responsáveis pelo nosso estúdio, o HAUS, como produtores e engenheiros de som. Foram eles que gravaram e produziram o áudio do nosso disco. O Hélio dirige a agência de concertos do HAUS e trata desse lado mais burocrático e negocial. Eu sempre trabalhei com comunicação e marcas, sou mais responsável por isso. Cada um tem as suas valências como cada um tem o seu instrumento, mas a coisa só soa bem quando tocamos juntos uns para os outros.

Passam muito tempo juntos, como nesta residencia artística?

HM: No HAUS. Como o Quim é mais freelance, acaba por estar noutros sítios também. Mas eu, o Fábio e o Makoto estamos todos os dias, de manhã ao final da tarde. O HAUS é quase um espaço de cowork entre todos: nós os quatro e a Rita (investidora). Como nos dávamos bem na estrada decidimos extrapolar isso para a vida profissional. Eu fazia agenciamento de bandas, como os próprios PAUS, os Capitão Fausto e outras. O Fábio e o Makoto eram produtores noutro estúdio e o Quim fazia trabalho com marcas. Decidimos juntar tudo e fazer o HAUS, a casa dos PAUS, onde partilhamos tudo: ensaiamos, gravamos, trabalhamos...

Já viram o espaço para o concerto de hoje à noite, no Jardim Municipal?

HM: Conhecemos quando viemos cá em Dezembro. Ficamos numa casa em frente a esse jardim que é por cima do Blandy. O espaço é bem engraçado.

JA: Ainda por cima é de acesso livre, faz todo o sentido. Estamos a receber tanto que era fixe poder devolver também o mais possível.

Os PAUS tocam esta sexta-feira, pelas 22h30, no Jardim Municipal do Funchal. A entrada é livre.

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