Cinema de José Vieira, sobre emigração portuguesa passa esta semana em Lisboa

Lisboa /
21 Nov 2017 / 00:30 H.

O realizador José Vieira, que se tem dedicado a filmar a emigração portuguesa que rumou a França, vai estar esta semana em Portugal por causa de uma retrospetiva que o Lisbon & Sintra film Festival lhe dedica.

A retrospetiva, que começa na quarta-feira em Lisboa, contará com oito filmes feitos entre 2002 e 2016, registando testemunhos de portugueses que partiram para França, alguns de forma clandestina ainda durante o Estado Novo, outros que viveram em bairros de lata e ainda os que regressaram às aldeias onde nasceram.

Entre os filmes escolhidos está, por exemplo, “A fotografia rasgada” (2005), sobre emigração clandestina, a partir de um código usado por quem saía do país: O passador guardava metade da fotografia de quem emigrava e a outra levava-a o emigrante que, uma vez chegado ao destino, a remetia à família.

“O país aonde nunca se regressa” (2005), “Le bateau en carton” (2010), “A ilha dos ausentes” (2016), sobre a própria experiência do realizador de sair do país, foram incluídos nesta retrospetiva.

Oriundo da vila de Oliveira de Frades, distrito de Viseu, José Vieira chegou ao bairro de lata de Massy, nos arredores de Paris, em 1965, e aí ficou cinco anos, tendo reencontrado o mesmo tipo de barracas no mesmo local, quase meio século depois, desta vez ocupadas por imigrantes romenos, algo que filmou em “Souvenirs d’un Futur Radieux” (2014).

Licenciado em Sociologia, José Vieira fez do documentário “uma forma de militância”, porque se apercebeu de que as pessoas com quem se manifestava nas ruas “não conheciam a história da emigração portuguesa”, como contou em março passado em entrevista à agência Lusa.

“É a minha vida, foi a minha vida, simplesmente por isso, simplesmente mostrar por onde a gente passou. Quer dizer, é a minha vida e a de milhares de pessoas. Acho que disse no [documentário] ‘Fotografia Rasgada’ que ‘é procurando as nossas histórias na memória dos outros que se constrói uma memória coletiva’, e acho que foi assim que eu trabalhei sempre”, disse.

Para o realizador, a emigração dos anos de 1960 foi uma “história altamente política tanto do lado de Portugal como da França” porque, “além da ditadura, da miséria e da guerra colonial”, na parte portuguesa, “a partir de [19]64 a França vai favorecer a emigração clandestina dos portugueses”, porque eram “mais trabalhadores, mais submissos e mais bem-educados pelo fascismo”.

Hoje, o drama da emigração persiste, mas “há uma rejeição dos estrangeiros”, lamentou.

O Lisbon & Sintra Film Festival começou na sexta-feira e termina no dia 26.

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