Cine-Clube da Ilha Terceira assinala 40 anos à conquista de novos públicos

28 Set 2017 / 11:09 H.

O Cine-Clube da Ilha Terceira (CCIT), nos Açores, comemora o seu 40.º aniversário, no fim de semana, mantendo uma atividade regular, apesar de o acesso aos filmes alternativos estar hoje em dia mais facilitado.

“Seria um prejuízo para a Terceira se só tivesse salas de cinema comercial. Por via do cine-clube, há uma oferta de cinema não comercial. Acho que, por isso, o cine-clube já justifica a sua existência”, adiantou, em declarações à Lusa, Jorge Paulus Bruno, presidente da direção do CCIT.

Depois de ter estado desativado durante mais de duas décadas, o CCIT retomou a exibição de filmes, em 2013, e desde então tem mantido uma atividade regular, conquistando novos públicos.

“Temos mais público e mais sessões. Não é numa dimensão exponencial, porque os públicos não se fazem de um dia para o outro, mas a consciência que nós temos é que as pessoas conhecem a atividade do cine-clube”, salientou o presidente da associação.

Em 1977, no pós-25 de Abril, também a ilha Terceira se deixou entusiasmar pelo cinema, não apenas pelo comercial, que na altura era exibido em três salas na cidade de Angra do Heroísmo, com três sessões ao fim de semana, mas por um cinema de qualidade que formou cinéfilos.

Manuel Martins pertenceu a um grupo de amantes do cinema, que antes mesmo de criar o cine-clube já procurava, nas revistas culturais da época, informações sobre os filmes para criar panfletos informativos, que eram distribuídos antes das sessões.

“Nós ficávamos à porta do lado de dentro, junto ao senhor que estava a cortar os bilhetes, a dar a informação às pessoas, que a liam antes do filme”, recordou, em declarações à Lusa.

A trabalhar na base das Lajes e a residir no concelho da Praia da Vitória, Manuel Martins fez questão de apanhar um autocarro para Angra do Heroísmo para estar presente na entrega dos estatutos do cine-clube no registo notarial em setembro de 1977 e orgulha-se de ter sido o autor do seu logótipo.

Naquela época, o cinema tinha outro peso, porque as hipóteses de entretenimento eram menores, mas também porque os filmes lançavam tertúlias de debate.

“Nós tínhamos público que ia lá. Não era para ter enchentes, porque havia imensos filmes, mas tínhamos um público que gostava de ir e de conversar”, salientou o sócio-fundador do CCIT.

O primeiro filme exibido pelo cine-clube, no começo de 1978, foi “A nave dos loucos”, de Stanley Kramer, mas não faltaram também os filmes de Frederico Fellini, Ingmar Bergman, Luchino Visconti e Brian de Palma, entre muitos outros.

A partir da década de 1980, com a televisão e os videoclubes, as pessoas entusiasmaram-se com a ideia de ver filmes em casa e as salas de cinema foram ficando cada vez mais vazias.

O CCIT não resistiu, mas foi recuperado, em 2013, sendo atualmente um dos poucos em atividade nos Açores e, segundo o presidente da direção, “não se vê no horizonte qualquer sintoma de que venha novamente a adormecer”.

“Os cineclubes hoje em dia voltam-se outra vez para salientar e para enfocar a experiência que é ver cinema num ecrã. É outra coisa. Nunca deixou de o ser, só que tivemos fascínio pelo comodismo de ver sem sair de casa”, frisou Jorge Paulus Bruno.

Numa “sala piolho” a necessitar de melhorias na projeção e na qualidade do som, o CCIT passa uma vez por mês um filme alternativo, no ciclo “Cinema da Minha Vida”, mas promove também uma mostra de cinema português e extensões de vários festivais temáticos, tendo como objetivo a realização de um festival internacional com competição sobre as temáticas mar, ilhas, aventuras e viagens.

O aniversário do CCIT é assinalado na sexta-feira, com a exibição de um documentário de 1979 sobre as danças de Carnaval da ilha Terceira, da autoria de Manuel Martins, seguido de duas conferências, uma sobre o papel dos cineclubes, com António Costa Valente, diretor do Cine-Clube de Avanca, e outra sobre o Plano Nacional de Cinema, com a sua coordenadora, Elsa Mendes.

No sábado, as comemorações prosseguem com a exibição de uma cópia restaurada da versão original do filme “Metrópolis”, de Fritz Lang.

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